Cachola

Memória. Foi com Caio F. Abreu que descobri: gostava de meninos

Ainda estávamos na primeira década do segundo milênio. Naquele ano, não me lembro qual – acho que 2000 ou 2001 – a internet discada foi virando passado com a chegada do moldem dsl e a gente já começava a ter acesso livre ao mundo da web durante o dia. Um dia, acessando o Uol o impacto foi inevitável: havia uma aba no canto esquerdo do portal com uma palavra de três letras – G.A.Y.

Eu não passava dos doze anos de idade. Meu coração palpitou forte, o que será que há neste link? A pergunta se repetia em um looping frenético. Quero! Quero! Quero! Mas, querer não é poder. Principalmente quando você não é assumido para os pais, sua mãe está rodando pela casa e seu pai pode chegar a qualquer hora do trabalho, na verdade você nem sabe muito bem o que é. Triste tradicional família brasileira.

Eu precisava aguardar eles irem dormir. Teria a sala só para mim. Era só apertar o botão que liga a CPU bem devagarinho para eles não ouvirem o clique e aí matar a curiosidade – ou melhor, acalmar os hormônios.

O Jornal Nacional nunca foi tão longo. A novela que seguia também. Nossa, o filme da Tela Quente será um máximo!, meu pai ensaiava ficar acordado até o filme acabar, lá pelas tantas da madruga. Não! Não! Não! Eu berrava por dentro.

O cansaço do trabalho fez com que ele resolvesse ir para cama antes mesmo da novela acabar. Agora era só esperar minha mãe ver o último bloco. Melhor eu fingir que vou para a cama primeiro que ela. Estico o braço, enceno um bocejo muito mal articulado. Vou dormir, mãe. O sono bateu. Ela achou estranho eu ir tão cedo para a cama, já vai? Deus te abençoe.

No quarto, eu só estava na miúda, tentando ouvir o momento que ela apertaria o botão que desliga a televisão. Naquela época os televisores ainda eram de tubo. Ao ligar e desligar o aparelho um estalo era feito pelo fusível.

Um silêncio completo pela casa. Tudo escuro. Lentamente abro a porta e nas pontas dos pês chego até a escrivaninha com o computador que está num canto da sala. Delicadamente aperto o botão que liga a velha CPU que faz um discreto clique. A tela do monitor de tubo – que ocupava mais da metade da mesa – começa a acender.

Na época, meu computador ainda era um Windows 98. Ele era iniciado pelo DOS (só os fortes sabem o que é isso – uma eternidade para ligar). No meio do caminho lembro que as caixinhas de som estão ligadas: Ai! Meu Deus! O som! O sistema da Microsoft fazia um barulhão ao iniciar. Em tempo, consigo desplugar os conectores.

Tudo em ordem, a internet começa a ser conectada. Demora para a home da UOL abrir. Até que aparece, lá no canto esquerdo a tentadora aba: G.A.Y.

Clico e um mundo se abre. Naquela madrugada acontecia a maior descoberta sobre minha própria pessoa. Até então eu só ouvia a palavra ‘gay’ como um xingamento, como era possível um palavrão ser uma aba na home de um site tão grande como o Uol? Eu me questionava, o que é ser gay, então? Eu pensava.

Eu queria saber de tudo. Tinha imagens, vídeos, textos… era uma Disney para meus olhos. Quantos homens! Vibrava por dentro e tremia de medo por fora. G Magazine, Mix Brasil (mal sabia eu que anos depois trabalharia para este portal ao lado de gente como Marcelo Cia, André Fischer e Hélio Filho), Garotos do Brasil, Pau Brasil (ops!). Tem um chat só para gay! Tem mais de mim! Eita, pera: Tem mais de mim?! É isso, sou gay mesmo?

Até que encontro uma chamada para um site chamado PortaCurtas. Era uma resenha de um curta-metragem chamado “Sargento Garcia”, dirigido por Tutti Gregianin.

Meu sargento
São quase cinco horas da manhã, logo mais meu pai vai acordar para tomar o café da manhã e ir trabalhar, às sete preciso estar em aula. Mas queria muito muito saber do que se tratava aquele curta-metragem.

Então, depois de longos minutos o curta começa a rodar, boto os fones:

 

Nunca mais fui o mesmo. Foi com Caio F. Abreu que descobri do gostava: meninos.

“Que queres tu de mim?
Que fazes junto a mim?
Se tudo está perdido, amor.
Tira a roupa.
Então que culpa tenho eu?
Se até o pranto que chorei por ti não sei.
Que mais me tens a dar?
Que mais me podes dar?
A marca de uma nova dor.
Se até o pranto que chorei
Se foi por ti não sei.”

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‘Não curto afeminados’, diz a gay

Vamos começar essa conversa com um acordo: concordamos que a feminilidade, o feminino e a mulher não devem ser categorias utilizadas como sinônimos de características negativas tampouco como xingamentos contra qualquer pessoa.

Já estou beirando os trinta anos de idade. Pouco mais de um terço dessa viva foi vivido como uma bicha fora do armário, mas não significa que todo esse tempo fui uma ‘bicha segura de si’, e garanto para vocês: metade dessa insegurança está nas relações cotidianas — sabemos muito bem que vivemos numa sociedade misógina, racista, lgbtfóbica, machista, enfim, uma sociedade fóbica — e a outra metade dessa insegurança está justamente dentro dos espaços de socialização da própria ‘comunidade gay’.

Aparentemente, sem generalizar e tentando respeitar aquelas mais conscientes do tamanho do buraco que estamos enfiadas nesse processo todo, há uma grande quantidade de gays que não estão refletindo muito sobre o que significa colocar em perfis para relacionamentos de aplicativos digitais: ‘não curto afeminados’.

Vamos por partes, ao convite para essa reflexão. É sabido, por muitos de nós, que no campo das relações cotidianas, em toda nossa trajetória de vida, vira e mexe nossa masculinidade é posta à prova para validez. Na escola, ainda no Ensino Fundamental a primeira abjeção que me apontavam e apontavam às outras crianças com ações não heterossexuais masculinas era justamente aquilo que me fixava como menos ‘menino’, para isso, não faltavam os adjetivos e dedos apontados gritando: ‘você age como mulherzinha’, ‘lá vem a menininha’, ou ‘fale que nem homem, para com esse trejeito de mulher’. Acredito que muitos podem concordar comigo e, inclusive, compartilhar essas histórias nos comentários caso sinta à vontade.

Foi no Ensino Médio, quando iniciamos nossa entrada na adolescência, que os xingamentos foram ficando mais elaborados: ‘bicha’, ‘viado’, ‘viadinho’, ‘baitola’ (adoro essa), ‘sentador de quibe’ (quem dera se aos treze anos de idade eu já houvesse tantos quibes à disposição) e também havia o ‘gayzinho’.

É interessante observar que, dentro da estrutura heteronormativa e cisnormativa (palavras pesadas), a mulher e o feminino são tão subalternizados que ganham o valor negativo quando colocadas compulsoriamente no corpo masculino e assim criar outras categorias de homens: daqueles que estão dentro da norma até aqueles que estão na outra ponta da margem.

Crescemos e alguns conseguem sobreviver contra esse combo de violências que inclui desde o xingamento verbal, o preconceito abstrato e tímido até a agressão física (da surra em praça pública até o assassinato).

Quando já grandinhos (às vezes nem tanto assim) começamos a nos reconhecer, a nos encontrar, a compartilhar nossas vivências e é aí que o bicho pega. Não sei se todos sabem, mas a palavra ‘gay’ era utilizada de modo pejorativo, até meados do século passado, contra homossexuais. ‘Gay’ significa ‘pessoa feliz’ em inglês. Com a historicidade dos movimentos gays percebe-se que ressignificamos o sentido dela e começamos a gritar aos sete ventos: “SIM! SOU GAY!”.

Hoje em dia, o que era uma ofensa virou sinônimo de pride (orgulho).

Posso estar bastante errado, mas, com o avanço dos movimentos identitários, talvez, em um possível diálogo com alguns feminismos (muitas virgulas, não? Desculpa), muitas bichas (ma.ra.vi.lho.sas #amo/sou) começaram a ressignificar esse feminino que sempre foi dado como pejorativo e dar um valor positivo sobre ele.

Ou seja, o que estou querendo dizer é: mais ou menos o que rolou com o termo ‘gay’ começa a rolar não mais apenas com uma palavra (afeminada), mas também com o seu próprio significado e seus atravessamentos neste corpo masculino, de homem, e que se relaciona com outro homem. Deixa aí no comentário o que você acha disso.

Mas é claro que este movimento não seria homogêneo. Algumas pessoas ficam de fora desse processo todo, por muitas questões, e aí chegam na vida adulta, longe de casa, tendo que pagar conta de água, luz, gás, condomínio, aluguel, parcela do carro… e aí a vida amorosa fica um pouco de lado — de lado não, escondidinha nos guetos sem tanta luz — e nesse corre todo há uma possibilidade, um caminho muito fácil (ou nem tanto assim), de poder apenas reproduzir o que as relações sociais nos atravessam e não ter tantos problemas como quando tinham na infância e adolescência. Abre-se um perfil no aplicativo de pegação, tira uma foto do abdômen?, ou seria do mamilo?, ou seria do peito peludo?, não, só dos pês mesmo? E aí na descrição, não vale as coisas positivas que tem e que procura em uma pessoa, tudo o que se quer é continuar bem longe de tudo, mas ainda sim gozando: “Não curto afeminados”.

Ninguém é obrigado desejar todos os corpos, mas é importante entender que muitos dos nossos gostos são reflexos de nossas trajetórias e como essas normativas de como devemos nos comportar e com que devemos nos relacionar nos atravessam.

Dizer que não curte ‘afeminado’ só demonstra o quanto a masculinidade é tão frágil e o quanto os ‘afeminados’ tão seguras de si sendo bicha, homem e ‘afeminada’.

PS.: Sobre a origem da palavra bai.to.la. Havia, no Ceará, um engenheiro ferroviário proveniente da Inglaterra que era reconhecidamente homossexual. Ele era chamado de Mr. Hull — nome de uma das mais importantes avenidas de Fortaleza (CE). Como o Mr. Hull era inglês, ele pronunciava o espaço entre os trilhos, que em português se chama bitola, de “báitóla”. Então, ao se aproximar dos funcionários da estrada de ferro, sua chegada era anunciada pelos colegas: “Lá vem o baitola!”.

Imagem em destaque: Gavin Butt – I wanna be an artist, still
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Brasil

Lula sozinho, dentro ou fora das eleições, não vai resolver nosso problema

As eleições não serão apenas ‘presidenciais’. Se de um lado há o protagonismo da imprensa (tradicional ou não) em torno da cobertura dos candidatos à Presidência da República do outro há todo um legislativo deixado de lado.

Do que adianta lutarmos por Lula na presidência, na ânsia da garantia do mínimo de democracia que nos resta se não garantirmos também um cenário favorável na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas dos Estados?

São pelo menos 1653 cargo políticos que votaremos em outubro para esse ano. Estamos falando de 81 senadores, 513 deputados federais e mais 1.059 deputados estaduais (se os números se manterem como nas últimas eleições).

Enquanto a corrida presidencial continua obscura com a condenação de 12 anos de prisão do ex-presidente Lula nessa última quarta-feira (24), a extrema direita, conservadora e fundamentalista capitaneada por Jair Bolsonaro articula com as igrejas evangélicas uma estratégia para invadirem um terço das cadeiras no Senado e aumentar a bancada da bíblia na Câmara dos Deputados a partir de janeiro de 2019.

Definitivamente, Lula sozinho, dentro ou fora das eleições, não vai resolver nosso problema com o avanço da elite brasileira no saqueamento dos poucos direitos conquistados nos últimos anos. Se você reclamava antes, trago más notícias: vai piorar.

As manifestações esvaziadas, nos últimos dias, daqueles que acreditam que a prisão do ex-presidente Lula seja a solução para a conservação dos seus privilégios e a ‘salvação do Brasil’, não deve causar a ilusão de que a Esquerda Brasileira (seja lá o que isso quer dizer) esteja em um momento de reorganização e união.

É sabido que em meio a massa votante brasileira há contradições frente às urnas. Há aqueles que votam em Lula (ou qualquer outro/a candidato/a à Esquerda), por exemplo, e ao mesmo tempo em um candidatado ao cargo de deputado estadual, federal ou ao senado indicado pelo líder da sua igreja. Desse modo criasse uma balança desproporcional entre a representatividade real da população e aquela que é eleita.

Isso sem contar o quanto esses partidos políticos irão se aproveitar do sistema proporcional que garante a eleição de candidatos ainda mais destoantes dos interesses reais da política brasileira.

O desafio está lançado à Esquerda, e não é novo. As lideranças políticas dos partidos socialistas e comunistas brasileiros são capazes de unificar o voto popular para suas legendas?

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Brasil

Com Lula condenado erramos e continuamos errando

Lula foi condenado. Com o espetáculo jurídico-partidário que acompanhamos nessa quarta-feira (24), jamais pensei que minha geração, jovens nascidos após a Assembleia Constituinte de 1988, pudesse voltar a viver os tempos tão sombrios de pobreza, desigualdade de direitos e censura do pensamento que nossos pais e avós viveram no passado.

A sentença contra Lula não é uma novidade. Não é uma novidade quando vivo em um país que ocupa o quarto lugar no mundo com a maior população carcerária. Em 2014, de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), eram 622.202 presos, dos quais 61,6% negros e pobres.

Ora, mesmo com um diploma de presidente da República, para a elite branca, rica, eurocentrada e cristã, Lula continua sendo um metalúrgico, nordestino, pobre, sem estudo e que ousou ocupar um espaço que esta elite julga não pertencer a nós. Lula não foge a regra.

E por não fugir a regra, Lula e Dilma juntos ao Partido dos Trabalhadores cometeram sim erros graves na condução do Estado durante seus mandatos. Entretanto, tais erros estão longe ter sido crimes. Entre os erros graves gostaria de destacar dois, que provavelmente muitos concordarão com a exposição.

O primeiro erro está no campo Econômico, principalmente, quando Lula e Dilma se aproximam justamente de seus algozes para o que chamamos de conciliação de classes. Ainda hoje os pobres são quem paga a maior taxa de impostos e juros. A lógica não inverteu.

O segundo erro está no campo Político. Como um partido que tirou um quarto da população da pobreza, abriu Universidades Federais em todos os Estados, oportunizou o ingresso de negros e negras e pobres às estas universidades públicas e às privadas por meio de programas sociais, fechou a OTAN, inaugurou o Mercosul, abril o diálogo com a América Latina, colocou o Brasil no protagonismo mundial e exemplo de mobilidade social no Ocidente e, ainda assim, com todas essas conquistas sociais, não foi capaz de formar uma massa politizada ao ponto de reconhecer tais conquistas?

Esse segundo erro não pesa a culpa apenas ao Partido dos Trabalhados, mas todos nós que gozamos desse direitos conquistados e hoje servimos à classe dominadora, à elite brasileira. Não tenho dúvida sobre esse sentimento.

Com a condenação em segunda instância do ex-presidente Lula, a elite brasileira inaugura um farol na história atual do Brasil. Esse farol ilumina a obscenidade que é a Justiça Brasileira sua elite. Uma Justiça servida à manutenção dos poderes dessa elite empobrecida politicamente. É provável que esse horizonte onde os valores morais cristãos e liberais juntos comandarão e gritarão ainda mais qual é o lugar do pobre saqueando direitos.

Erramos e continuamos errar. O que resta agora é a questão à ação: será que continuaremos errando?

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Cafezinho

“Não basta apenas pedir desculpas”, diz pesquisador sobre missões cristãs em aldeias indígenas

 

Jamais a expressão jornalística ‘entrevista de gaveta’ caiu tão bem com o que vos apresento, caras, caros e cares internautxs. O que segue para nosso deleite é uma troca de e-mails que tive com o professor doutor Estevão Fernandes da Universidade Federal de Rondônia em 2015.

Dois anos depois, ele se destaca na imprensa e no mundo acadêmico apresentando suas pesquisas sobre as questões de gênero e sexualidade em um contexto indígena. Recentemente redescobri esta entrevista em meus arquivos e eu os apresento.

A entrevista é longa, já adianto. Ela foi feita no contexto de 2015, na ocasião o Papa Francisco pedia perdão pelas violações contra pessoas LGBTQIA+.

Sem dúvida vale a leitura.

Em seu texto “Homossexualidade Indígena no Brasil: desafios de uma pesquisa” você fala sobre a existência, no Brasil, de diversas referências às sexualidades indígenas operando fora do modelo heteronormativo desde a colonização. Em que ponto estão as pesquisas que dão luz às questões de gênero nas populações indígenas brasileiras?
Bastante avançadas, mas, ainda assim, com muito a se desenvolver. Dito de forma bastante genérica, há diversas linhas de pesquisa sobre o tema.  Temos pesquisadoras, e me refiro aqui particularmente à antropologia, que apontam para a importância dos estudos de gênero em povos indígena, com perspectivas bastante inovadoras, as professoras Cecília McCallum e Vanessa Lea certamente são referências a quem queira trabalhar o tema. Esta linha de pesquisa dialoga diretamente com os avanços da etnologia brasileira e da teoria antropológica mais recente.  Além dessa perspectiva, temos outras autoras, como Ângela Sacchi, por exemplo, que buscam trabalhar gênero em povos indígenas com um diálogo mais direto com os movimentos de mulheres indígenas. Esse tipo de perspectiva é bastante interessante, por dar visibilidade a um segmento do movimento indígena que foi, historicamente, esquecido por antropólogos, organizações indigenistas e, por vezes, pelo próprio movimento indígena. Digo isso generalizando, claro, mas fato é que os movimentos de mulheres indígenas não alcançaram historicamente, no Brasil, uma visibilidade que fizesse frente à enorme importância que sua luta representou e representa pela conquista dos direitos indígenas no país. Haveria aí uma série de hipóteses para essa invisibilidade e algumas pesquisadoras pelo país vêm buscando recuperar essa trajetória (Ana Aline Furtado Soares, por exemplo, vem realizando um excelente trabalho junto às mulheres Tapeba, em Caucaia, CE). Nesse sentido, caso um dos leitores do Esquerda Diário tenha interesse no assunto, recomendo o excelente artigo da Prfoa. Maria Rosário de Carvalho, “A questão do gênero em contextos indígenas” e da Profa. Cecília McCallum “Notas sobre as categorias ‘Gênero’ e ‘Sexualidade’ e os povos indígenas” Temos, ainda, vários trabalhos sobre indígenas queer sendo escritos ou redescobertos, autores como Luiz Mott, Martinho Tota, Paulo de Tássio Silva, e eu mesmo, que chamam a atenção para a heteronormatividade como uma das pedras angulares do processo de colonização. Penso, contudo, que podemos avançar ainda em alguns pontos. Um deles é uma maior interlocução com estudos e escritos de indígenas e pensadoras latino-americanas – uma autora que vem fazendo isso com bastante êxito é a Profa. Rita Laura Segato. Alguns canais importantes, como a Revista Estudos Feministas oferecem excelentes recursos a quem queira se inteirar sobre o tema, mas, apesar disso, ainda sabemos relativamente muito pouco sobre o que acontece na América Latina.

Você cita, no mesmo texto, uma série de ‘nomenclaturas’ usadas pelos próprios indígenas para definir membros que praticam relações com outros do mesmo sexo. Tais termos como tibira, çacoaimbeguira, cudinhos, kudina, guaxu… são usados de forma pejorativa, com injúria, ou não?
Boa parte desses nomes referem-se mais a papéis sociais do que a práticas sexuais, somente. Infelizmente os registros sobre o tema são, apesar de vários, bastante breves e pouco aprofundados, mas todos trazem em comum uma ideia que pode ser resumida da seguinte forma: o que chamamos hoje de homossexualidade era aceito como algo comum em várias etnias no Brasil. A carga pejorativa veio ao longo do processo de colonização que se estende até hoje. Dessa forma, seja pela ação de missionários, nas escolas, nos processos de “nacionalização”, “integração”, “pacificação”, ou qualquer nome que se dê às formas de incorporação compulsória dos povos indígenas ao sistema moderno/colonial/capitalista/patriarcal; ou mesmo no convívio cotidiano com os diversos agentes do contato, o lugar de enunciação dos povos indígenas, suas sexualidades, cosmologias, religiosidades, etc, foi sendo sistematicamente apagado, subalternizado e violentado. Historicamente, o que se buscou até recentemente, foi transformar o indígena em um trabalhador braçal pobre, com uma família nuclear adequado ao modelo hegemônico, cristão e heterossexual. A colonização é misógina, racista e homofóbica. Veja bem, eu disse “é”, e não “foi”, pois as estruturas de poder, de ser e de saber tornaram o projeto colonial algo possível ainda persistem, tendo sido invisibilidades e incorporados às relações que se mantêm com os povos indígenas no Brasil, ainda hoje. Nesse sentido, o que se vê é o surgimento de casos de injúria, preconceito, agressões e suicídios envolvendo jovens indígenas homossexuais no Brasil.

Como são as relações entre pessoas do mesmo sexo nas comunidades indígenas? De algum modo, é possível afirmar que existem relações sociais de afeto e aproximação entre índios que se relacionam com o sexo diferente e aqueles que praticam uma sexualidade com parceiros do mesmo sexo?
Cada etnia é uma realidade diferente, e com a sociodiversidade que temos no Brasil, não arrisco dar uma resposta. Além disso, há pouquíssimas pesquisas sobre o assunto no país. Uma das poucas que conheço é o excelente texto de Patrícia Carvalho Rosa (Unicamp) publicada na Cadernos Pagu n.41, em 2013 (disponível aqui) sobre o relacionamento entre duas primas Tikuna (AM) e a forma como isso é visto naquela sociedade. Acho que o texto oferece uma direção bastante promissora para os estudos a esse respeito, e espero que, a medida que as pesquisas avancem, possamos ter uma perspectiva mais realista sobre essas questões.

Em sua pesquisa, você faz um paralelo entre a experiência indígena norte-americana com a nossa.  Onde, assim como aqui, as sexualidades fora do modelo europeu-cristão foram também perseguidas por portugueses, ingleses, franceses e espanhóis. Não raro, nos deparamos com notícias onde citam expedições de religiosos à aldeias para disseminar o cristianismo. Tal colonização cristã ainda continua? E como se dá, atualmente, tal catequese e expansão do pensamento cristão e imposição de uma sexualidade padrão branca no meio indígena?
Há um caso que ilustra bem isso. Trata-se do caso que Luiz Mott chamou de “o índio tibira do Maranhão” (tibira é a denominação que os Tupinambá davam aos indivíduos homossexuais do sexo masculino): o padre Yves D’Evreux narra a brutal execução de um indígena, por sua homossexualidade, no início do séc. XVII – ele teve seu corpo amarrado a uma bala de canhão, que foi atirada, partindo seu corpo em dois. No início da colonização, havia um tronco localizado no centro dos aldeamentos missionários para punir os indígenas que andassem nus, fossem polígamos, faltassem a missa ou praticassem “sodomia”. Mas não precisamos ir tão distantes para termos relatos assim: Gersem Luciano dos Santos (índio Baniwa, AM) narra, em sua tese de Doutorado, como ele e um conjunto de amigos foram castigados por um padre por serem acusados de homossexualidade (“algo que só na mente dele [do padre] se passava, uma vez que, para os Baniwa, viver coletivamente  é regra básica”). Ysani Kalapalo, participando do X congresso LGBT em 2013, relata que para os Kalapalo, até a chegada dos missionários, o relacionamento entre mulheres era algo comum. Mesmo na fala de várias lideranças indígenas, ainda hoje, se percebe uma carga pejorativa no que diz respeito à homossexualidade. É bastante provável que isso se deva não apenas à ação missionária nas aldeias, mas também à própria gênese do movimento indígena brasileiro, estreitamente ligado a movimentos da igreja católica. A ideia de “sodomia” é, em si, bastante emblemática nesse sentido. Se lermos a passagem de Gênesis 19 (destruição de Sodoma) com Juízes 19 (história na qual, assim como em Sodoma, também há uma tentativa de estupro coletivo sobre um homem), veremos como as duas se parecem; mas a Sodomia (categoria surgida no século XI, por São Pedro Damião) “pegou”, e penso que isso se dê por uma razão: não se trata a história de Sodoma de homossexualidade. Selermos as passagens bíblicas que se referem a Sodoma e Gomorra com atenção, veremos que se trata de uma história sobre punição divina pela desobediência. Além disso, trata-se de uma punição sobre o coletivo por ações individuais, ou seja: não importa se você é um bom católico praticante, se seu vizinho não for, você pode morrer por causa dele! Isso é uma ideia poderosa, pois ela legitima um policiamento moral das condutas individuais, com o argumento de que disso dependa a sobrevivência do grupo. Se pararmos para pensar, essa ainda é o argumento usado por políticos, pastores, e setores mais conservadores da igreja católica, para justificar seus posicionamentos contra o combate a homofobia, por exemplo. Ou seja, isso não se restringe às aldeias.

Boa parte do que chamamos de Estudos de Gênero são pesquisas consideradas avançadas e produzidas na Europa e Estados Unidos. Entretanto, aqui cabe uma crítica, são estudos focados em um sistema ético-político bastante estruturado de uma moral europeia secular. O filósofo espanhol Paul B. Preciado nos alerta, por exemplo, que a patologia da sexualidade começa no século XVI. No que você acredita que o estudo de culturas não contaminadas por tais sistemas éticos que tornam a sexualidade um importante controle do corpo e do social chaves para o entendimento de outros modos de nos relacionar pode colaborar para uma sociedade menos violênte e controladora dos corpos, afetos, expressões e suas identidades?
Sinceramente, nunca parei para pensar nisso – e certamente não dessa forma. É uma perspectiva interessante. algo que me chama a atenção é o fato de que em várias das etnias pesquisadas até aqui, se um indígena pratica sexo com pessoas do mesmo sexo aquilo não é uma questão. Outras coisas são mais importantes: suas habilidades manuais, a atenção que dá aos seus parentes, se é trabalhador etc.

Ao observar seu histórico de orientações e participação em bancas de trabalhos acadêmicos é possível perceber o pouco interesse de estudantes e pesquisadores na pesquisa científica que busca explorar a sexualidade no contexto indígena. Quais são os problemas que você acredita para a realização de tais pesquisas: falta de interesse dos discentes, ou preconceito por parte da acadêmia?
Talvez um pouco das duas. Dito de forma franca e despretensiosa, acho realmente que o espaço para renovação das C. Sociais brasileiras está situado nas periferias da academia hegemônica. Não é a velha história de “complexo de primo pobre”, muito pelo contrário: temos aqui a possibilidade de incorporar, epistêmica e politicamente as falas daqueles alunos e colegas indígenas, quilombolas, camponeses, atingidos por barragens, ribeirinhos. Talvez o desafio seja realizar o que o semiólogo argentino, Walter Mignolo, chama de “giro epistêmico”. Agora, se há espaço para realizar esse giro na academia brasileira, são outros quinhentos. Trata-se de incorporar outras perspectivas de ética, estética, ser, saber, pensar ao próprio conceito de paradigma. Veja bem, não digo aqui transformar esses saberes em paradigma, pois isso equivaleria a destitui-los de sua originalidade, encapsulando-os em nossa perspectiva de paradigma. Sou muito mais radical, nesse sentido: acho possível e necessário tomar seus saberes em paradigmas. Assim, deixam de ser “saberes” e se tornam “conhecimento”. Deixam de ser um fim para se tornar um meio… Minha impressão geral é que a academia brasileira ainda reproduz em determinados setores, muito das relações de poder e hierarquia que estruturaram a construção da desigualdade no Brasil. Entretanto, sou otimista, acho que há vários espaços a serem conquistados – mas vai ser um processo longo, com certeza.

É possível adotar as praticas e performances da sexualidade indígena como reivindicação de uma cultura silenciada há séculos por meio de uma jornada civilizatória de grande devastação cultural? Ou, em outros termos, como as populações urbanas podem contribuir para o que você chama de ativismo homossexual indígena?
Se formos levar a sério o que dizem os ativistas two-spirit na América do Norte, não muito. Para eles, a crítica à homossexualidade compulsória é uma crítica anti-colonial. Segundo eles me disseram, eles têm muito mais a ver com um índio heterossexual brasileiro, do que com um branco homossexual norte-americano, posto que povos indígenas estiveram submetidos a relações de poder, violência, subalternização e invisibilidade subsumidos às relações coloniais que tornaram a heterossexualidade “o” padrão a ser seguido, assim, suas críticas são com relação a todo esse processo.

Em sua última visita à América Latina, o Papa Francisco pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica durante a colonização da América Latina. É possível, entre os crimes que a santidade trás à luz contemporânea, atribuir crimes de ódio contra a população indígena não-heteronormativas?
À luz do que dissemos anteriormente, com certeza, mas não basta apenas pedir desculpas pelos deslizes realizados anteriormente é essencial, sim, adotar outras práticas.

Como a Funai trabalha com essa população indígena?
Até onde pude constatar em minha pesquisa, nem Funai, nem ninguém desenvolve qualquer tipo de trabalho específico sobre o assunto. Pelo que ouvi, essas instituições são provocadas por demanda e, até onde sei, essas demandas não chegaram até esses órgãos. Tive notícias de que a Defensoria Pública da Paraíba foi a algumas aldeias após receber denúncias de agressões homofóbicas, mas, até onde sei, é uma das poucas iniciativas no Brasil a esse respeito.

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Cachola

A culpa nunca é nossa

Aparentemente o que acontece em Brasília não é problema nosso. Assim que muitos de nós, cidadãos comuns e meros mortais, agimos frente aos escândalos expostos em praça pública.

O Distrito Federal longe de nós geograficamente, acaba por eximir de nós a responsabilidade que é também de todos. Tal pensamento só cede mais espaço para o avanço da corrupção dentro do governo e ainda nos dá o papel de conivência com o crime.

É fato que a corrupção está enraizada no cotidiano do brasileiro. Não vamos confundir o ‘jeitinho brasileiro’ com a carência do debate em torno da nossa ética, moral e valores culturais.

Uma profunda ferida está aberta e a ‘solução’ encontrada por muitos é dizer que ‘todo político é corrupto’, que todo ‘partido é corrupto’ como se os empresários fossem coitadinhos vítimas de um sistema que os autoriza serem corruptos.

Há que ser lembrado, que é muito importante. Todos somos seres sociais, e sendo seres sociais, somos político. Como ser um ser social sem utilizar da política para que esta sociabilidade ocorra?

Logo, afirmar que ‘todo político é corrupto’ é afirmar que você,um ser social e político, também é corrupto. Fica a reflexão, caro leitor, onde cabe a sua corrupção no dia a dia?

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Outra pergunta, aparentemente tão óbvia quanto a primeira, é qual a nossa responsabilidade na corrupção institucional praticada? Esta questão não deve estar relacionada a afirmação do nosso ‘poder de voto’, mas o próprio exercícios do voto pós-eleição.

Quais foram as motivações que fizeram você votar em determinada pessoa nas últimas eleições? Tais motivações estão em movimento de serem efetivadas no exercício do mandato do seu vereador, prefeito, governador estadual e federal, senador e presidente? O quanto você cobra diretamente os políticos que receberam seu voto?

As perguntas são muitas e as respostas, que não são poucas, só você pode responder. E não, eu não sou um exemplo. Confesso que de todos os cargos públicos que votei nas últimas eleições acompanho apenas uma vereadora de São Paulo, só agora entendi o quanto isso é importante e necessário para que a democracia seja sustentada de modo saudável.

Uma vez ouvi de um grande amigo a seguinte frase que cabe muito aqui: ‘precisamos entender que na política é assim, sempre haverá alguém para ocupar o lugar que negamos estar’. Depois, não culpe os corruptos.

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