Reportagem

Quando a literatura sai do armário

Por Nelson Neto
Foto de divulgação de Sergio Viula

“Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo a corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite  selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia distância do  esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por debaixo dos cobertores.”

 

Este é um trecho de “O bom crioulo”, considerado o primeiro conto homoafetivo do ocidente. Foi escrito por Adolfo Ferreira Caminha, nascido 1867 na cidade de Aracati,  Ceará. Romances com temáticas homoafetivas não são novidade no Brasil, entretanto, há cinco anos esse tipo de tema está em evidência. Muito da repercussão é atribuída à evolução da sociedade brasileira que, mesmo a passos curtos, tem progredido em relação aos diversos debates envolvendo questões relacionadas à comunidade LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis).

Assumir a sexualidade, hoje no Brasil, é mais fácil do que há 30 anos. Por um lado, esse avanço nas relações de gêneros é positivo. Entretanto, como afirma o escritor Raphael Mello, ainda é preciso discutir o amadurecimento do homossexual. Este é o tema do seu livro “Mentiras sobre o travesseiro”.

Nicho de mercado

Quando questionado sobre o homossexual como um nicho de mercado para a literatura, o escritor diz ter ficado surpreso com a quantidade de leitores homossexuais. “Antes  creditava que o gay tinha outras preferências de consumo cultural. Mas quando lancei o livro percebi que há um público bem assíduo”, comenta, observando que, no entanto, não são apenas gays que compram seu livro. Algumas editoras classificam os livros com temática LGBTT como literatura gay. Mas a maioria dos editores e escritores não consideram adequado fazer esse tipo desclassificação. “O que existe é um conteúdo LGBT, que pode vir sob a forma de qualquer gênero literário já criado”, explica Sergio Viula, autor do livro “Em busca de mim mesmo”.

Raphael Mello vai um pouco mais longe, questionando: “se o meu livro tivesse como personagem principal um rapaz com câncer, a obra deveria ser catalogada como literatura de saúde?”, indaga. Giselle Jacques e Roberto Muniz Dias, editores da Editora Escândalo, especializada nessa área, explicam que seu objetivo editorial é selecionar textos (poesia, romance, texto acadêmico e literatura infantil) de forma a expor uma literatura de qualidade,distanciando-se de qualquer rótulo que possa colocar as obras em condição inferior à literatura convencional. Ou seja, para eles, não existe um gênero literário gay, como não existe um gênero literário hetero. “O que temos são diversos formatos de literatura que usam a temática homoafetiva como enredo principal”, argumentam.

Militância e literatura

“Sobre o livro como afirmação do público, diria que uma obra com temática LGBTT, que desconstrua preconceitos sem se tornar refém da pieguice hipócrita do moralismo fundamentalista, é, de fato, um meio de emancipação fantástico para a comunidade LGBTT como um todo”, defende Viula, concordando que um livro que conta uma história homoafetiva pode ser apreciado por um leitor hetero. “Mas o objeto literário acaba sendo um produto que afirma esse tipo de consumidor, público e cidadão que tem necessidades como qualquer pessoa”, diz.

O autor do livro “Mentiras sobre o travesseiro” não acredita no livro como uma militância politizada. “Não escrevo querendo dizer algo que contribua diretamente com a sociedade  como um todo; apenas quero contar uma história”, explica Raphael Mello.

Giselle e Roberto, da Escândalo, enfatizam que abordar a literatura gay ou homoafetiva é falar sobre personagens além da ficção, buscar o protagonismo, uma escritura corporal, sobretudo masculina. “É falar sobre um passado que não pôde ousar tanto quanto o modelo hodierno; sobre uma militância velada, às vezes nem tanto; sobre um sentimento universal”, atestam.Talvez o mais importante, como defende Viula, é que enquanto se discute isso existem autores produzindo, editoras lançando,lojas vendendo e leitores desfrutando de conteúdo diversificado e enriquecedor sob os mais diversos pontos de vista da experiência humana. “Vamos nos livrando do encapsulamento psicológico e social a que todos somos submetidos muito antes de podermos raciocinar sobre isso”, conclui.

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3 comentários sobre “Quando a literatura sai do armário

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    Apreciei muito está reportagem. Como o li o livro, posso dizer que os comentários feitos traduzem o que penso sobre ser homossexual no Brasil e suas implicações. Parabéns.

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