Coluna, Notícia

Pegando o pepino

Por Nelson Neto

O blog HHomo nasceu alguns meses depois que sai de um portal erótico gay. Escrevi contos, algumas matérias cozidas e pequenas reportagens. Aprendi bastante. Percebi que os donos do negócio nunca chegariam a lugar nenhum se não investissem na redação e na área comercial. “Gay não quer ver apenas pau e cu”, em quase todas as reuniões de pauta eu dizia esta frase, que era rebatida “é o que vendemos”.

Inconformado com o que via dentro da própria redação que eu trabalhava e com a qualidade duvidosa da concorrência, juntei meu humilde bloquinho e caneta e embarquei para uma redação maior de seguimento completamente diferente – até um pouco fundamentalista e conservadora – como estagiário. Os meses passaram e resolvi criar o HHomo para tentar provar à minha pessoa que a comunidade gay brasileira está interessada em assuntos fora da militância e fora do erotismo. Pronto, blog criado. Ele foi evoluindo, as visualizações aumentando. Até que, em um belo dia, publico um post opinativo sobre um artigo do Guy Franco na revista Alfa. Imediatamente as visualizações saltaram e me empolguei com o serviço que estava prestando à sociedade.

Um pouco antes, entrei em contato com a revista Qüir e o portal Dezanove, ambos de Portugal, para colaborar escrevendo sobre comunidade LGBT brasileira. Fui à Parada Gay de São Paulo para tirar algumas fotos para o HHomo e percebi que algumas ficaram jornalisticamente boas, enviei um e-mail  para o editor-chefe da revista OUT, nos EUA, oferecendo minhas humildes imagens e tudo estava correndo regularmente bem. Até que vozes começaram a surgir em uma mente.

Algumas pessoas, que respeito muito como profissionais, me chamaram para aquela conversa de canto e falavam “Nelson, você não acha que está indo para uma área segmentada demais do jornalismo, você ainda está na faculdade, não sei até que ponto uma redação está disposta a enfrentar um profissional tão aberto em relação as ideias sociais da comunidade LGBT”. Outros já foram direto ao ponto “Nelson, você não está se queimando no mercado, com um blog gay?”.

Por fim, nos últimos dois meses, resolvi parar de atualizar o blog e parar com todos os projetos que tinha em mente voltados para a comunidade LGBT. Por orientação divina, um tipo de “Jesuscidência”, tomei a decisão de parar. Mas meu espírito jornalístico, aquele que ainda nem se formou academicamente e tem muito o que aprender, teve outra decisão e não posso negar este peso. Me lembrei de um café que tomei com uma editora. Sentados, enquanto eu assoprava o café depois de discursar sobre o jornalismo dedicado ao público LGBT e os bloqueios que eu estava enfrentando, ela disse “Nelson, não existe jornalismo cultural, jornalismo policial, jornalismo político. O que existe é o jornalismo bom e o jornalismo ruim”.

Resolvi pegar o pepino e voltar com as atualizações periódicas no blog. Sem medo de ser feliz e buscando fazer o melhor do jornalismo que prático nestas linhas virtuais. Conversar não só com a comunidade LGBT brasileira, mas com toda a sociedade interessada por uma cidadania mais justa no Brasil.

Sei que é muito provável que irei enfrentar muito preconceito por apenas exercer minha profissão, nada mais do que informar. Mas vou com a ideia de que não estou me segmentando ao “jornalismo gay”, apenas estou buscando melhorar um segmento que acredito estar carente de informação. Continuo com capacidade de escrever sobre qualquer tema: educação, direito, arte, economia… Só espero que o mercado veja com estes olhos.

Obrigado,

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