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Conhece a Mulher Feijoada?

Mulher Feijoada relembra como engrossou o caldo na noite paulista

Mulher Feijoada relembra como engrossou o caldo na noite paulista

Por Nelson Neto

 Quem vê Marco Alério, 28 anos, andando pelas ruas da Zona Leste de São Paulo pode acreditar que é um “maloqueiro” qualquer, como ele mesmo se define, mas não sabe a história que o moço viveu até hoje para ser sócio de um salão de beleza e dar à luz à Mulher Feijoada. Este rapaz que nasceu em Itú, interior do Estado de São Paulo, aos oito meses foi para o Rio de Janeiro, onde passou toda a infância e começo da adolescência antes de chegar à selva de pedra chamada São Paulo.

 “Quando cheguei em São Paulo fui morar na casa de familiares, mas sabe como é, o preconceito fez com que eu saísse de casa sem destino. Foi quando me tornei morador de rua. Morei na rua por dois anos e lá que consegui meu primeiro trabalho na noite. Tudo começou na inauguração do Studio 420, eu queria arrumar um lugar para dormir, então, comecei a divulgar a festa no intuito de conseguir entrar na casa. Foi quando cheguei para o dono da festa, o Rubens. Eu não sabia que ele era o dono, mas fui lá divulgar a festa para ele. Quando comecei a falar que a festa é bacana e tinha boa música, ele me perguntou se eu gostava mesmo da casa. Eu não sabia, era a inauguração. Aí disse que na verdade estava fazendo a divulgação de graça para arrumar um lugar para dormir naquela noite. Não consegui dormir lá, mas ele me arrumou um cinemão para passar a noite. Quem me ajudou a arrumar um trabalho foi ele. Que depois me ajudou a comprar a minha primeira roupa de noite, mas não foi aí que nasceu a Mulher Feijoada. A minha primeira personagem foi como Dinny e o primeiro show foi uma merda. Até que o Robson teve a ideia de fazer um telegrama romântico na casa, e como não tinha caixa para isso, todo o dinheiro que eu conseguisse com a venda ficava comigo. E foi assim que consegui um trabalho.”

“Depois da Dinny que surgiu a Lilica Brasil. Que foi a personagem que trabalhei por mais tempo. Eu fazia show na festa The Choice, no clube Cabral. E foi lá que nasceu a Mulher Feijoada. Sabe quando você não tem texto, não tem piada, não preparou nada para apresentar? Então, foi em um dia assim que tudo aconteceu. Eu estava lá, contando algumas piadas de sempre, quando alguns héteros começaram a gritar ‘LACRAIAAA!’, e ‘Mulher Melancia!’. Foi quando eu disse: ‘Eu não sou a Lacraia, sou a Mulher Feijoada. Uma mulher completa com rabo e línguiça’, todo riram, e hétero você sabe como é, não faltaram os que diziam que tinham amigos que queriam comer meu rabo ou que curtiam a minha calabresa. Algumas semanas depois eu tinha uma apresentação com a Mulher Melancia, aproveitei este sentimento de, será que dá caldo a piada da Mulher Feijoada, e usei neste show. O engraçado é que no banner, na frente da casa que estava fazendo o show, estava escrito: ‘Mulher Melancia apresenta Lilica Brasil’, entrei como Lilica Brasil, mas saí como Mulher Feijoada.”

A parceria que não deu certo
“Eu tinha um amigo MC, falei pra ele da Mulher Feijoada e já disse que precisava de uma música. No carro mesmo de volta pra casa do show de nascimento da Feijoada a gente começou a bolar a música e começamos a fazer shows pelas comunidades, conhecidas também como favela. Nossa amizade acabou por conta de cachê.”

 “Eu tinha feito três shows em uma casa de funk dentro de uma favela e não tinha recebido dinheiro algum. No quarto show eu fui até a porta da festa, mas não desci do carro, disse para esse amigo MC que só desceria se o dono do morro me pagasse os outros três shows. O MC desceu do carro e foi conversar com o chefão, não sei o que eles conversaram, só sei que passou um tempo e apareceram três caras com as ‘peças’ nas mãos. Peça é arma, no linguajar do morro. Logo que vi já fui pondo o salto alto e me preparando para fazer o show. Não sou doida de negar nada nessas horas. Aí, eles me falaram que o dono queria passar o ‘resumo’, que é ‘conversar mais a sério’ comigo. Foi nesse ‘resumo’ que o primo do dono do morro disse que na verdade tinha pago todos os shows pra mim, e na verdade o MC que não me repassava o dinheiro. Desde este episódio nunca mais o vi.”

 “Eu faço cerca de oito apresentações por mês e ainda tenho um programa de rádio na Transamérica e meu salão. Não misturo nada. Hoje tenho minha casa, meu carro, tenho até geladeira com acesso a internet, que me manda mensagem quando a mistura está acabando. A Mulher Feijoada apareceu até no SBT. Quem faz a costura é minha vizinha e maquiagem é meu namorado, que lida melhor com essas coisas. De Marco sou um maloqueiro, se você me ver sem a roupa da Feijoada nunca vai me reconhecer. Eu vou de chinelo para a festa e lá me produzo, sou daquele que vai no Habib’s comer três esfiras de calabresa.”

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