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Um estranho usa vestido

Nem homem, tampouco mulher. Quem sou? Essa foi a pegunta que meu íntimo fez quando olhei o espelho depois de maquiado, com peruca, vestindo um vestido e usando um salto quinze. Sempre tive problemas com meu corpo. Como gay, sempre achei meu corpo feminino demais, magro demais – embora algumas bichas invejarem meu 1m78 pesando 52 quilos – e sempre achei meu corpo um exagero de ossos para uma precariedade de carne e gordura.

Quando olhei ao espelho, na tarde de uma sexta-feira, no salão do Dicesar que fica na Galeria Arouche, fiquei parado me olhando por alguns segundos e disfarcei meus sentimentos para me concentrar na pauta: “sentir na pele o preconceito que transgêneros sentem”.

Mas, nestes vagos segundos, me olhando no espelho e vestido de mulher percebi o quanto sou masculino, o quanto meus ombros são largos, o quanto meus pés são grandes, como sou alto, como minhas mãos são enormes com dedos finos e juntas sobressalientes.  Sou homem. Pela primeira vez, depois de 22 anos, descobri que sou homem masculino.

Saí da loja do Dicesar com as pernas trêmulas, primeiro pelo fato de nunca ter subido em um salto 15 cm. Na verdade, uma vez, sequestrei os sapatos de uma amiga e subi em um salto 8 cm no meio de uma aula da faculdade, não deu muito certo. E depois, minhas pernas tremiam pois desde aquele momento não era mais eu. Na verdade, por dentro sabia quem eu era, mas os olhares alheios foram entrando como facadas em cada centímetro do meu corpo, a cada passo que dava nas ruas desta selva de pedra, chamada São Paulo, eu recebia uma flechada de preconceito.

O que eu passei durante esse dia como transgênero você pode conferir na edição da revista Junior. Não vale eu contar aqui. Mas, não sofri apenas durante a minha breve caminhada pela Avenida Paulista, centro econômico da América Latina, sofri também depois que voltei a me vestir como homem. Não demorou muito para surgir duas fotos minhas travestido nas redes sociais. Cerca de 20 pessoas me deletaram/bloquearam no Facebook. Algumas me ignoraram completamente quando precisei conversar algo relacionado a questões profissionais, e tantas outras que convivo diariamente simplesmente me ignoraram e levaram a entender que aquele momento da foto não existiu para mim e para elas.

Achei isso muito triste. O preconceito não está apenas na cabeça dos héteros, quando o assunto é transgênero  Confesso, eu me senti ferido ao me vestir como mulher, mesmo a pauta sendo idealizada e proposta por mim na redação da Junior. Durante duas noites antes de fazer a reportagem eu me peguei pensando no travesseiro da consciência o quanto valeria a pena me travestir. Afinal, eu já tinha superado todos os preconceitos sofridos na infância e na adolescência por ser homossexual, mesmo sendo óbvio para meus pais e familiares que sou gay mesmo sem ter me assumido. Ou seja, eu me questionei, antes de subir no salto quinze centímetros, se valeria a pena passar por mais preconceito.

Deixei de lado estes julgamentos primitivos e coloquei a máscara de jornalista comprometido com sua reportagem, vesti minha meia-calça roxa, o vestido curto, coloquei a peruca e em cima do salto quinze estavam minha dignidade e respeito. Me coloquei neste papel, tentei encontrar minha história como travesti e não encontrei, mas e se tivesse encontrado? Como seria? Mais uma batalha em minha vida seria travada? Tanto aquela pessoal, quanto a com os outros.

Então me veio outros questionamentos. Por qual motivo estas pessoas que não se identificam com sua sexualidade ao seu sexo precisam passar por isso? Por qual motivo tantos olhos tortos? Não sei explicar os motivos. Mas tentei imaginar o que estas pessoas, que eu tentava representar naquele dia, sofrem no cotidiano de suas vidas.Estar presso e condenado ao seu órgão genital pelo simples fato de ter nascido com um pênis ou com uma vagina já determina o que aquele ser humano será, deverá vestir, como se comportará, o que consumirá, que tipo de ambientes irá frequentar. Por qual motivo? Então, logo dentro da barriga, quando o sexo do bebê já pode ser visto pelo médico, a sentença daquele ser humano já está travado, julgado e condenado. Todos estes pensamentos passavam pela minha cabeça a cada passo que dava no meio da avenida.

Trabalhar nesta reportagem, sentir parte do que transgênero sente, foi uma experiência única não só para o Nelson, mas para o jornalista que a fez. Depois desta pauta, tenho certeza do que sou e do respeito que devo ter com o próximo.

 

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5 comentários sobre “Um estranho usa vestido

  1. Priscilla Carvalho disse:

    Além do texto que você escreveu acima, li também a sua reportagem. É realmente um choque ler tudo aquilo, porque acho que a maioria das pessoas nunca imaginou estar na pele de um transgênero. E por mais que a gente tente não ter preconceito ou levar tudo isso naturalmente, é complicado estar cara a cara com o diferente e não ter uma ação, quase um reflexo, de encarar. Essas palavras serviram para eu rever os meus conceitos. Sempre me vi como uma pessoa livre de todo e qualquer tipo de preconceito, mas me flagrei sendo uma dessas pessoas, que olhavam e olhavam, mesmo tentando não fazê-lo. Sem imaginar a dor e o desconforto que isso causaria no outro ser humano, alvo desses olhares. Obrigada pelo seu texto, obrigada por abrir os meus olhos e os de outras pessoas que, como eu, não tem a intenção de magoar, julgar ou marginalizar nenhum tipo de pessoa, simplesmente por ser diferente. Obrigada por ter escrito de uma forma tão intensa que me fez sentir na pele o que é ser discriminado. Continue com o ótimo trabalho!

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  2. Bruno Alves disse:

    Nelson, você esta de parabéns. Seu faro jornalistico para perceber a relevância dessa pauta foi incrível.

    Sou estudante de jornalismo e constantemente me preocupo com minha imagem, até por vontade de trabalhar em veículo audiovisual. Porém, você mostrou-se mais corajoso do que posso imaginar que alguém seria. Essa experiencia sem duvida faz de você, hoje, um homem diferente.

    Admiro seu trabalho e espero que um dia eu consiga atingir tal comprometimento com o jornalismo. Para pela forma com que você relatou esta experiencia!!

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