Contos, Crônicas & Outros textos

Diabético ou alcóolico?

Na fila do caixa do supermercado, a atendente passa vagarosamente o código de barras de cada produto da compra do cliente para ser contabilizado e cobrado…

Maçã. BIP! Bolacha. BIP! Carne moída. BIP! Enquanto isso, a fila cresce. Cada um com suas necessidades nas mãos, cesta ou carrinho de compras. Já tentou pensar que é possível imaginar o perfil de cada um pelo o que ela está comprando?

Observe esta mãe, aparentemente, solteira com seus dois filhos pequenos. Um ainda é de colo. Pela leitora de código de barras passam fraldas. BIP! Papa de bebê. BIP! Bolacha com receito. BIP! Absorvente. BIP! Feijão. BIP. Costela bovina. BIP! Trinta e dois reais. Diz a atendente. Dinheiro ou cartão? Quer CPF na nota? Aparentemente é uma mãe atenciosa. Como é início de mês e fim de ano, e com o 13º salário na conta, ela resolveu agradar os filhos.

Próximo! Chama a moça do caixa. É uma senhora que coloca na esteira: suco de laranja pronto. BIP! Alface. BIP! Tomate. BIP! Azeite. BIP! Banana. BIP! Bolacha água e sal. BIP! Manteiga. BIP! Vinte e oito reais e setenta e cinco centavos, senhora. Diz a moça do caixa. Enquanto a senhora abre a bolsinha porta-moeda, penso que ela, provavelmente, vive sozinha, não tem paciência para preparar sua própria alimentação, já que compra suco pronto, mas é preocupada com a saúde pela alface. E só vai ao supermercado para comprar o necessário porque não consegue carregar as compras de todo um mês.

Nesta onda de observar o que os outros compram, descobri que o amor não é algo inexplicável, muito menos está em palavras rebuscadas escritas em prosa ou verso. É possível prever as contraindicações entre amar ou ser solteiro pelo o que está dentro da cestinha de compras das pessoas.

Após a senhora pagar sua compra e começar a empacotar a mercadoria. Próximo. Anuncia a moça blasé-cansada do caixa. Na minha frente há um casal apaixonado e eles começam a colocar seus itens na esteira e a atendente a contabilizar. Morango. BIP! Manga. BIP! Maçã. BIP! Creme de leite. BIP! Chocolate em barra. BIP! Leite condensado. BIP! Quarenta e cinco reais e vinte centavos. Dinheiro ou cartão? Enquanto ele responde e a namorada o abraça por trás, eu começo a fazer uma comparação com o que tinha em minha cestinha. Era claro que eles são um casal feliz, que em um fim de tarde de sábado farão um fondue pra lá de romântico, pré, durante ou pós uma transa maravilhosa. CPF na nota? Questiona a moça do caixa, ainda com ar blasé.  Ele diz que não. A namorada já ultrapassa a conversa e diz: eu quero!

Enquanto eles começam a empacotar seus ingredientes do amor, eu começo a colocar a minhas necessidades básicas de um sábado noturno na esteira e a moça a passar na maquininha leitora de código de barras. Cervejas (dois fardos). BIP! Cachaça. BIP!  Salgadinhos com gosto de isopor salgado. BIP!Mais alguma coisa, senhor? Pergunta a moça. Talvez eu respondesse que um amor seria bacana. Mas me reservei ao: só isso, obrigado. Como solteiro, comparando minha cesta de compras com a cesta do casal, concluí que enquanto a solteirice pode causar alcoolismo, o amor pode causar diabetes. Sem escapatória.

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