Contos, Crônicas & Outros textos

Dizem por aí que devo morrer

Há cerca de cinco anos eu caminhava com meu pai, de mãos dadas, pela Avenida 9 de Julio, em Buenos Aires, na Argentina. Naquela época eu esperava alguns documentos serem oficializados para poder estudar Ciências Políticas na Universidad Católica de Buenos Aires, meu pai precisava estar presente para assinar alguns papeis, já que eu tinha apenas 17 anos. Caminhando, ainda de mãos dadas com ele pela famosa avenida mais larga do mundo, passamos em frente a uma boate de prostitutas, algumas garotas de programa entregavam flyers de uma festa da casa. Meu pai, todo saidinho, quis ler o que estava escrito no papel e foi em direção àauma das garotas e recebeu um “no, esta fiesta no es para gays”. Expliquei que éramos “papa y hijo”, a mulher, sem graça, pediu desculpas e ofereceu até alguns drinques grátis, mas, pode ter certeza que não faço a linha de frequentar puteiros. Eu senti um arrepio em saber, que mesmo não sendo assumido naquela época, que sempre sofreria algum tipo de preconceito por ser gay.

Alguns anos antes. Aos 15 anos. Lembro do verão de 2006 que escreveram na rua de casa, e na calçada da casa que eu morava que “no número 2854 mora um viadinho”, e outros insultos que preferi esquecer.

Os anos passaram, voltei para o Brasil, me formei em Jornalismo e há algum tempo trabalho no segmento LGBT, e claro, saí do armário para minha família. Mas sabe como vivo? Com medo de um dia, um dia qualquer, sair de casa para trabalhar, ou para se reunir com amigos, e não voltar para casa. Parece um paradigma, não? Dizem por ai que a palavra gay vem do inglês “pessoa feliz”, viver feliz sendo quem sou é a única certeza que não tenho.

Em menos de um mês, dois seres humanos foram brutalmente mortos. Por mais que as fontes oficiais afirmam com todas as letras em seus Boletins de Ocorrência que foram no caso de Kaique Augusto Batista dos Santos um suicídio; e no caso de Bruno Borges de Oliveira, um latrocínio (roubo seguido de morte). Eu, como gay, tenho plena consciência de que esta não é uma verdade que condiz com a realidade.

No fim de 2013, em outubro, eu caminhava pela Rua Frei Caneca, sozinho, em direção a um hotel, já que era tarde da noite e não dava para voltar para casa. No caminho, fui surpreendido por três rapazes com uma faca, que me jogaram no meio da rua enquanto gritavam “sua bichinha de merda, vem dar o cu aqui, agora tem que apanhar”, enquanto me davam socos e chutes. Em posição fetal, eu tentava me proteger dos ataques. Não entendia o motivo de tanto ódio, só acreditei por alguns instantes que eu estaria estampado nas redes sociais do dia seguinte como mais uma vítima de “assalto” ou de “homofobia”. Me levaram a bolsa com meus pertences. Medo. É assim que vivo em um país ainda fundamentalista, dominado pela igreja e pouco moderno.

Enquanto uma parcela da militância LGBT discute o que é homofobia, transfobia e lésbofobia. Enquanto o Congresso engaveta leis que garantam a minha sobrevivência, enquanto a igreja marca seu território no poder político e enquanto seres humanos são mortos e descartados como seres desnecessários, eu vivo com medo.

Caminho pelas ruas do centro de São Paulo ou de qualquer outra cidade brasileira como se eu estivesse cometendo um crime apenas por existir. Me parece que sempre preciso viver escondido. Estranho pensar assim, ainda mais quando trabalho em uma das publicações para LGBT  mais importantes do país, a revista Junior.

Políticos fazem da minha sexualidade moeda de troca e negocia terrenos no poder com a bancada evangélica. Nesta esquizofrenia política, de um lado o Governo faz políticas pífias, que mais parecem propagandas para ninguém, dizendo que apoia os direitos LGBT. De outro lado, o mesmo Governo negocia com gente que quer ver meu sangue escorrer pela sarjeta da marginalidade. Enquanto isso, trabalho. Pago meus impostos. Não sei em quem votar. Preciso cumprir meus deveres civis. Tudo isso parece uma via de mão única em que só eu estou me ferrando.

No inicio de janeiro deste ano, no ato contra homofobia que fizeram em homenagem a Kaique, no Largo do Arouche, passei por uma situação questionadora. Na frente da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, depois que o ato chegou ao fim, meu amigo e também gay, junto com outra amiga hétero, ficamos cerca de cinco minutos questionando se deveríamos ou não caminhar por cerca de 30 metros em direção a entrada do Metrô Anhangabaú. Cinco minutos um olhando para o outro se deveríamos ou não passar por ali, apenas porque somos gays e poderiam nos violentar por algum estranho.

Não é só aqui, mas também não me consola

Assistindo um documentário britânico, intitulado “O pior lugar para um gay viver”, fiquei chocado quando o documentarista pergunta para pessoas comuns na rua da capital de Uganda o que elas pensam sobre os gay, e todos querem que sejamos mortos. Lá, nós gays aparecemos nas capas de jornais e revista para sermos procurados pela população, apenas por amar. Dizem por ai que eu devo morrer.

No Irã, a homossexualidade é crime e passível de pena de morte. Mas, a transexualidade não, inclusive o governo apoia a cirurgia de readequação de sexo, um paradoxo. Muitos gays acabam se submetendo à cirurgia apenas para não serem presos e apedrejados pela lei islâmica. Lá, também dizem que devo morrer.

Em cerca de 75 países, ser homossexual é crime. Em cerca de 20 a pena é decretada com a morte de quem praticou o ato de amar. E aqui no Brasil, a legislação fica em silêncio e deixa a sociedade dar a sentença. O Governo fica calado, não se pronuncia, não se coloca em ação, apenas dialoga dos dois lados da moeda para ver por onde ganha mais espaço, mais poder.

Enquanto isso, sangue de seres humanos escorrem pelas sarjetas da cidade. Um ódio pelo ato de amar, que realmente não sei de que lugar foi criado. Será que estas pessoas não têm consciência do que estão fazendo?

No fim do ano passado, saindo de um salão de cabeleireiro na Rua Augusta, bem perto do lugar que Bruno foi assassinado, meu amigo e eu fomos atacados por um rapaz. Assim que pisamos na calçada, ele simplesmente disse: “eu odeio vocês viadinhos, vocês devem morrer”, e armou um soco na nuca de meu amigo. Saímos correndo. Fomos até a delegacia registrar um B.O, qual a preocupação do atendente de plantão? Se eu realmente tinha cortado o cabelo, e se nós (meu amigo e eu) éramos um casal ou apenas amigos mesmo. O B.O foi registrado? Não. Enquanto o Estado não me dá o direito de oficializar uma agressão.  Fica na minha cabeça a sentença: “vocês devem morrer”.

Um aviso

Se um dia, espero que isso não ocorra, meu sangue escorrer pelas sarjetas deste País. Quero que minha morte seja investigada com o mínimo de seriedade. Antes de qualquer registro leviano, não sou um suicida em potencial. Muito menos vitima de um mero latrocínio não investigado, só porque levaram meus velhos All Stars e meu celular comprado a prestação nas Casas Bahia.

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