Revista Junior, Trabalho

Elke, a Maravilha!

Elke Maravilha, foto: Horta do Rosário

Elke Maravilha, foto: Horta do Rosário

Seu pai foi condenado como traidor da pátria após lutar contra a Rússia na década de 1930 na chamada Guerra das Neves. Elke Maravilha conta a história da sua vida, sentada em um banquinho no apartamento de um amigo no Centro de São Paulo. “Em 1939, a última vontade da União Soviética era conquistar a Finlândia para a Cortina de Ferro. Meu pai achou aquilo uma covardia, você sabe que a Finlândia ainda hoje tem um milhão e meio de habitantes. Ele foi para a Finlândia com outros soldados russos e ele lutou como guerrilheiro voluntário pela Finlândia, e o país não tinha armamento, não tinha nada. Eles fizeram aquela guerrilha com 30, 40 graus abaixo de zero. Tanto que a Finlândia não foi anexada à Cortina de Ferro, foi a famosa Guerra das Neves. E claro, a partir daí ele virou traidor da pátria, ele lutou contra a terra dele.”

A mulher que ficou conhecida como Elke Maravilha após começar sua carreia como modelo no Brasil. Só conheceu seu pai aos seis anos de idade: “meu pai foi preso na Sibéria, naquela época, minha mãe estava grávida de mim de três meses. E consta que eu quase o matei. Não conhecia aquele homem, o vi beijando minha mãe, peguei o martelo e BUM! na cabeça dele. Ele guardava o martelo, eu já não era boazinha”, ela conta rindo e tragando seu cigarro.

Elke Maravilha durante entrevista. Foto de Horta do Rosário.

Elke Maravilha durante entrevista. Foto de Horta do Rosário.

“Não tenho memória de primeira infância, mas lembro dos golfinhos que seguiam o navio que nos levava da Europa para o Brasil, lembro do meu avô alemão me ensinando a ler, não tive B-A-Ba, sabe? Aprendi ler em um livro alemão chamado ‘O Holandês voador’, de Mondrian. Nós chegamos ao Brasil e fomos despejados na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, perto de São Gonçalo, a Ilha das Flores era a quarentena de imigrantes. O imigrante ficava ali até fazer exames médicos para não trazer novas doenças para o Brasil e só saía depois que achava emprego. Meu avô achou emprego primeiro. Meu avô paterno veio também e era azerbaijano e minha avó era mongol, da facção dos tártaros. Minha mãe alemã e meu pai russo. Aí eu me lembro de algumas coisas. Me lembro das pessoas, muita gente junta, mas parece com sonhos meio vagos. De lá fomos para uma fazenda de Minas Gerais, quem deu o trabalho para meu pai foi Amenta Jaques de Morais. Lembro do papai contando que durante a conversa da oferta de trabalho, Morais disse que tinha um problema: ‘tem muitos negros na fazenda’, papai respondeu: ‘então todos viraremos negros.’”

A infância de Elke foi marcada por poucas raízes, a família mudou para várias cidade até que aos 20 anos, com 20 dólares no bolso, ela foi para a Alemanha. “Fui para a Alemanha para o autoconhecimento, queria saber o que daquela cultura eu poderia ou não agregar na minha vida. Fui trabalhar como tradutora, depois de um ano fui para a Grécia e eu casei com a Grécia. Meu ex-marido que é grego hoje é um dos meus melhores amigos. O grego é maravilhoso, eles têm passado, mas têm presente, quando cheguei lá pensei: ‘tenho que aprender esta língua com urgência, esse povo tem muito o que me ensinar’.”

Casada, Elke e seu marido resolveram fazer uma longa viagem pela Europa para conhecer as diferentes culturas do país, mas não tinham dinheiro suficiente para viajar de trem. “Juntamos todas nossas economias, até que compramos um carro velho e decidimos morar nele durante toda a viagem pela Europa e assim se passou um ano e meio da minha vida. Fomos de aldeia a aldeia, de cidade em cidade. Nós batizamos o carro de Cucaracha, tomávamos banho em galões de água, um dava banho no outro, e também tinham algumas pessoas no caminho que deixavam a gente dormir em suas casas. Foi uma ótima experiência.”

Sempre Maravilha
“Depois desta viagem pela Europa voltamos para o Brasil, meu ex-marido validou o diploma dele de jornalista aqui no Brasil e eu precisava trabalhar. Foi quando meu ex disse: ‘você vai ser modelo, tenho um contato para te apresentar ao Guilherme Guimarães’. Eu achei um absurdo eu ser modelo, até que meu ex me levou até na frente do prédio do Guimarães, eu pensei em pegar o elevador, subir e descer, e dizer para meu ex que não tinha dado certo, mas, enquanto eu estava no elevador pensei: ‘vou tentar’. Bati na porta do Guimarães ele abriu, a gente se olhou, conversamos brevemente e ele me disse: ‘a prova é tal dia e o desfile é tal, não esqueça’. Respondi, desci o elevador e pronto.”

“Me lembro do primeiro desfile, foi no Golden Hall do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, toda a elite brasileira estava presente. De repente me deu os cinco minutos.” Em meio a modelos da Coco Channel e outras importantes marcas estrangeiras Elke pensou: “o que eu estou fazendo aqui?’ Parei e pensei melhor, eu serei como sou, tranquila. Como nunca tinha desfilado, cometi erros grotescos, tirei a blusa do lado errado. E sabe o que foi mais divertido? Disseram que inovei”. Mais gargalhadas encheram a sala do apartamento, “fui capa de várias revistas, dei entrevistas para vários jornais, foi ótimo”.

“Um dia recebi uma ligação, era do programa do Chacrinha me convidando para ser jurada. Eu nunca tinha assistido a um programa do Chacrinha. Papai nunca deixava a gente ver televisão, ele dizia que emburrece as pessoas, e estava certo. Eu aceitei, quase nunca falo não, mas depois me bateu um desespero, naquela época não tinha internet que você assistia os programas anteriores, e minha participação já seria naquela mesma semana da ligação. Aí, liguei para um amigo desesperada perguntando como era o programa, falei que ia ser jurada e ele disse que era de calouros, e eu ia falar se o cara era bom ou não no que estava fazendo. Esse meu amigo falou da corneta do Chacrinha, foi quando consegui uma parecida, era uma corneta daquelas que os indianos usam naquele veículo puxado por homens. Pronto, todo mundo gostou quando foi para o ar e foi assim. O Chacrinha era uma ótima pessoa, prova disso é que ele é lembrado até hoje e é elogiado.”

Ponto de vista
Qual a opinião de Elke Maravilha sobre a legalização da maconha, sobre o aborto e sobre os direitos dos homossexuais no Brasil? Ela tem um ponto de vista bastante fixo. “Sobre a maconha eu sou muito clara, não tem que haver uma legalização sobre o tema, o povo tem que ser livre e pronto. Esses dias eu estava conversando com o Ney Matogrosso sobre como nossa geração usava drogas para o autoconhecimento. Eu usei todas possíveis, menos heroína que não tenho coragem, mas vale lembrar que eu usei a droga, não fui usada. Hoje eu dou alguns tragos em cigarro e bebo alguma coisa alcoólica. O jovem de hoje usa a droga como fuga e é aí que está o problema de tudo.”

“Eu abortei e a cada dia que fico mais velha acredito mais ainda e tenho mais razões que o melhor que fiz foi ter pedido para tirar o feto. Não faço apologia ao aborto, nunca fiz, o que quero dizer é que no meu caso foi o melhor para mim. Nunca seria uma boa mãe. Hoje em dia você não pode bater para educar que vem o Conselho Tutelar e acaba contigo. Existem crianças que precisam ser adestradas. Se o ser humano fosse bom ele não precisaria ser educado.”

“Não vamos dar audiência para Feliciano (o pastor e deputado Marco Feliciano do PSC-SP), meu ponto de vista sobre os direitos dos gays no Brasil é bem clara: a coisa está feia como está para você porque vocês deixaram chegar assim. Respeito os gays, e acredito que todos devem ter os mesmos direitos. Mas casamento? Não! Eu pensava que gay era inteligente, mas querer cometer os mesmos erros dos héteros?”, ela ri, dizendo que ama os gays e que todos devem ser mais ativos na política.

A entrevista acaba, Elke e eu descemos o elevador conversando sobre música. “Qual é a última cantora que você ouviu antes de me entrevistar?”, ela pergunta. “Etta James”, respondo. “Ela é muito foda, não é verdade?”, solta dando uma gargalhada.

*Publicado na Revista Junior e no Portal MixBrasil por Nelson Neto

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