Cachola

Dá para ser viado todo dia?

DEPOIS de quatro anos seguidos acompanhando a Parada do Orgulho LGBT de SP pelos bastidores, ou seja, cobrindo o evento para diversos veículos de comunicação brasileiros e internacionais, tive a oportunidade de ir como expectador. Entretanto, meu olhar de repórter não se separou do meu olhar de participante. O lado bom é que, além de ter ido acompanhado do meu namorado, fui sem a correria que jornalistas precisam enfrentar durante toda a festa.

Festa. Vamos começar por esta palavra que pode dizer muito sobre as Paradas mundo a fora, e a de São Paulo não foge à regra. Considero a Parada uma manifestação de celebração.

É preciso entender que o dia do Orgulho LGBT, que é originalmente comemorado dia 28 de junho e este ano foi antecipado por conta dos eventos do Mundial de Futebol, é um dia que toda a população tem a chance de sair do seu homofóbico quotidiano e se expressar de forma livre e plural.

Muitos lgbt parecem ter esquecido o quanto é difícil dizer de forma individual a intensa frase ainda condenatória em nosso País: “eu sou gay”. O dia da Parada é um sopro na alma para estas pessoas manifestarem de forma coletiva e se sentirem, por um breve momento do ano, parte de um todo que ainda vive pelos guetos das cidades espalhadas pelo território nacional.

A partir deste momento é possível chamar atenção para o questionamento que este texto propõe: dá para ser viado todo dia?

Para alguns sim. Mas ainda é uma parcela muito pequena da população lgbt brasileira. A outra parte só pode ser bicha, trans, gay, sapatão, viado, andrógeno, crossdresser, trava, bissexual, ou qualquer outra denominação que queria se dar o direito de expor o que é de verdade, no dia da festa.

Do ponto de vista político e de gestão, ainda a Parada tem muito que evoluir. É preciso que os envolvidos no evento sejam mais transparentes.

É necessário entender que a militância ligada à sexualidade independe de partido político ou de ideologia.

Ser gay, lésbica, bissexual, trans ou qualquer outra identidade de gênero em grande parte do País faz com que, querendo ou não, o indivíduo seja militante. Aí que entra a importância da Parada, sendo ela bem ou má administrada, a militância individual sempre irá se sobressair durante a passeata sobre a Avenida.

Com todo o direito, outros lgbt podem até apontar o dedo para quem pisar sobre a Avenida Paulista neste dia e discursar sobre a vulgaridade, a promiscuidade, a perversão que alguns expõem durante a Parada. Mas qual o problema? Eu não vejo nenhum e mesmo tendo direito, não aponto o dedo para nenhum dos lados, apenas tento enxergar o quanto cada lado pode contribuir para que ambos tenham o direito de ser cidadão por completo.

Lembro da primeira Parada que participei. Era 2010. Enquanto eu subia as escadas da Estação Metrô Brigadeiro, por volta das 10h30 da manhã, o som dos trios elétricos ia aumentado de intensidade e as batidas do meu coração seguiam junto.

O ainda projeto de jornalista sorria bobo para todos e mirava a lente da câmera para todos os lados até se emocionar e as lágrimas de felicidade, por descobrir que não está tão sozinho, começarem a cair.

Naquela época não importava as ideologias políticas, os militantes profissionais ou até mesmo aqueles que não ligavam para qualquer opinião.

Pela primeira vez eu não me senti sozinho. Nos anos seguintes, e ainda hoje, continuo com o mesmo sentimento.

Nem tudo é perfeito

Eu sei, nem tudo é perfeito. Como já disse, há muito que melhorar dentro da militância, da política e também da população de modo geral.

É importante que o espírito individual e a vontade íntima de querer um mundo melhor permaneçam dentro de cada um que nos outros 364 dias do ano voltem aos seus armários.

Sou otimista demais? Pode até dizer que sim, mas provavelmente é este mesmo otimismo que faz com que centenas de milhares de pessoas com o mesmo intuito saem à Avenida para dizer que existem e descobrirem que não estão sozinhas.

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2 comentários sobre “Dá para ser viado todo dia?

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