Cafezinho, Portal MixBrasil, Trabalho

Confira a entrevista com escritor de Águas Turvas

O escritor e jornalista Helder Caldera, 35 anos, conversou com o Mix sobre seu novo livro “Águas Turvas”, lançado em fevereiro deste ano. Colunista das revistas On e Leia ele já publicou três livros de não-ficção voltados para a área de Jornalismo e agora, pela editora Quatro Cantos, se aventura no mundo do romance com temática LGBT. Confira:

Como foi o processo de escrita do “Águas Turvas”?
“Águas Turvas” era uma história que morava no inconsciente das minhas predileções. Sou fascinado por dois aspectos que integram o cerne da obra: o choque de culturas e, principalmente, a busca por um lugar onde pertencer. Dá-se o ponto de partida da trama: Gabriel deixa o Brasil e seu passado e vai morar em Massachusetts, na Costa Leste dos Estados Unidos. Ele queria encontrar um novo lugar. Acabou encontrando um novo alguém: Justin. No “pacote”, uma tradicional família republicana norte-americana e uma tragédia que coloca o jovem Matthew na história. A partir daí, veio o extenso trabalho de pesquisa para integrar essas personagens a um cenário real: a pacata cidade de Holden, nas belíssimas colinas do Condado de Worcester. Cada detalhe dos cenários é absolutamente real. Foi árduo o trabalho para pesquisar desde o cardápio de restaurantes até os dados meteorológicos exatos daquela região, no tempo da obra. Aliás, o tempo que serve de pano de fundo à trama também é importante: a crise econômica que sacudiu os EUA entre os anos de 2008 e 2011. Como a população norte-americana reagiu ao choque financeiro e a percepção de alguém que não era de lá, são fatores fundamentais para compreender a dinâmica das relações expostas no livro. A história de amor de Gabriel e Justin é capaz de sobreviver a tantas intempéries, a águas tão turvas? Só lendo pra descobrir…

Quanto tempo você demorou para escrever?
Bom, como já disse, o trabalho de pesquisa foi muito extenso. Além disso, jamais começo a escrever um livro, um artigo ou qualquer que seja o texto, sem antes saber exatamente de onde ele parte e onde pretende chegar. Tenho um termômetro: se consigo sentar com alguém e contar a história do início ao fim, estou pronto para levá-la às páginas. Foi assim com “Águas Turvas”. Após cerca de um ano de pesquisa, consegui finalmente narrá-lo à íntegra para outra pessoa. Estava, afinal, pronto para escrever. Foram cerca de quatro semanas, 18 horas por dia, exclusivamente dedicadas ao ato de escrever a obra. E posso assegurar: valeu cada segundo de empenho. Quando coloquei o ponto final, chorei. Estava profundamente feliz com o resultado.

Existe abertura para escritores que exploram a sexualidade e romances com temática homossexual no Brasil?
Não só há espaço, como há uma enorme demanda. Quantos autores brasileiros contaram histórias sobre a Bahia? Muitos. Quantos eternizaram personagens gaúchos e os belos pampas? Vários. Há incontáveis clássicos sobre índios, sobre o Rio de Janeiro, sobre tétrico período escravocrata. Enfim, como um país de proporções continentais, fortemente miscigenado e com uma cultura amplíssima, o que não faltam são histórias pra contar… e outras tantas já contatas. No entanto, é possível elencar nos dedos de uma mão a quantidade de autores que dedicaram uma obra à temática homoafetiva e que ela tenha sido reconhecida pela crítica e pelos leitores. Por óbvio, há uma série de anacrônicas condicionantes sociais que em nada favorecia o surgimento de tais obras. Ainda assim, aqueles que ousaram, tornaram-se flâmulas de um tempo, como Aluízio Azevedo e, mais recentemente, Nelson Luiz de Carvalho. Noutras palavras: há uma enorme estrada a ser trilhada pelos romances brasileiros com temática homoafetiva.

Seu livro tem sido bastante aceito pelos leitores a até pela crítica, onde está o ‘pulo do gato’ na narrativa?
Não acho exista um “pulo do gato”. Ou você conta bem uma boa história, ou fim de papo. O estilo e as técnicas de narrativa são fundamentais. É como uma novela: você precisa se apaixonar pela obra no primeiro capítulo e ter uma distribuição de argumentos ao longo da trama de tal forma a ser conduzido até o ponto final sem deixar pairar sequer a possibilidade de interrupção. Esse é o grande desafio do escritor: literalmente enredar o leitor. Particularmente, eu gosto de um recurso muito utilizado nos bons roteiros cinematográficos: o Cliffhanger, que é a exposição de uma personagem ou situação a um confronto dramático e a subsequente transferência do foco para outro ponto da história. Esse recurso cria uma expectativa no leitor, o anseio por conhecer a conclusão daquele confronto. Quando bem executado, o cliffhanger atua como a linha que irá costurar todas as tramas de uma obra. Aos críticos, especializados ou não, só posso agradecer pelas palavras mais que gentis e generosas que são rendidas ao livro e ao autor. É sempre uma emoção. Tenho dito com frequência: nunca tive a pretensão de utilizar minha obra literária para mudar a vida das pessoas. Mas, posso lhe assegurar: hoje, são os leitores que estão transformando a minha vida… e pra melhor, muito melhor. Como é possível agradecer algo assim? Dizer “obrigado” é pouco. Muito pouco!

Qual é o seu ponto de vista sobre a atual produção de romances com temática homossexual, principalmente a produção brasileira? Existem bons escritores com bons romances sendo produzidos?

Como eu disse, há um longo caminho a ser trilhado pela literatura ficcional homoafetiva. Há alguns autores conhecidos e um manancial gigantesco de novos escritores surgindo à esteira das mídias sociais. O mercado editorial brasileiro, em amplo sentido, ainda é bastante hermético. Mas, esse cenário está mudando. Outro detalhe importante: as mídias sociais, ao tempo que criam “balões de gás”, dada a velocidade da comunicação e o perfil de interação e participação dos brasileiros, também permitem uma incrível visibilidade para os novos autores, especialmente para aqueles que, noutros tempos, só alcançariam os mercados da sua cidade ou, no máximo, de sua microrregião. Ainda que tivessem uma obra extraordinária, as fronteiras eram bem evidentes. Hoje é diferente. Ainda que seja desconhecido do “grande público”, se um autor tiver uma boa obra literária, mais cedo ou mais tarde ele conseguirá uma editora e será publicado. Se já está publicado, ele tem as mídias sociais à disposição para comunicar seu trabalho e conquistar leitores. Há resistências setoriais? Claro que sim! Não poderia ser diferente. Mas, no fim das contas, quem ganha é a Literatura.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler “Águas Turvas”. Mas, lendo o que chega à redação e consumo deste tipo de romance, observo que o erotismo, às vezes, até mesmo o pornográfico sujo e raso está enraizado nos romances, uma pena. Como você encara este tipo de produção? Ela é valida?
A literatura homoerótica só existe porque há público pra ela. Aliás, um público-consumidor fortíssimo e, ouso dizer, predominante na segunda metade do século 20. Portanto, é válida. Atendeu e ainda atende uma demanda. No entanto, ao raiar da última década, houve uma importante inflexão na sociedade contemporânea sob vários aspectos, inclusive e principalmente, no que tange à sexualidade. A fatia do mercado editorial mundial que mais cresce é a Literatura de Entretenimento e esta é minha praia. Eu sou cria dessa transformação social. O reconhecimento rendido ao romance “Águas Turvas” é fruto dessa sociedade em transformação e suas novas demandas, desejos, buscas.

Uma vez, João Silvério Trevisan me disse que os escritores são “clandestinos”. É um fardo a ser carregado?
Não acho que escritores são “clandestinos”.  Enquanto arte, pura e simples como é, escrever é um instrumento de libertação da alma. Dizem que os olhos são a janela da alma. Escrever é a porta. O que pode haver de “clandestino” nesse constante convite para que os leitores entrem? Nesse sentido, é difícil crer que, em pleno século 21, preconceitos e hipocrisias ainda possam criar amarras à produção literária. Enquanto arte, essas “trancas” só existem na cabeça dos próprios autores. Já pela ótica do mercado editorial brasileiro (num país que lê pouco e os recursos financeiros são parcos), imaginar que o público-leitor não tem interesse por histórias homoafetivas é uma tremenda estupidez. Na verdade, trata-se de um quinhão expressivo da Literatura que é fartamente carente de boas obras. “Águas Turvas” talvez seja um bom exemplo dessa dinâmica. Protagonizado por um casal homoafetivo masculino, o livro vem recebendo ótimas críticas e está alcançando um público absolutamente plural, com especial destaque entre os jovens. Não há nada de marginal nessa abordagem literária. Ao contrário. O que existe é uma demanda enorme. Reitero: o mercado que não enxerga essa demanda é porque, estupidamente, faz apostas erradas e está perdendo público. Da mesma forma, não acho que escrever seja um fardo. No meu caso, escrever é necessidade vital. O dia que passo sem conseguir escrever algo, um parágrafo que seja, fico com a sensação de que minha alma está presa. Com o passar do tempo, fui descobrindo que a minha vida está condicionada às palavras. Preciso ser leal ao verbo escrever, compreende?! “É ter com quem nos mata, lealdade”, parafraseando obliquamente os versos de Camões.

Podemos dizer que o escritor tem seu lado leitor da própria obra, ou seja, é como se existisse um “eu-escritor e um eu-leitor”, o que seu lado leitor tem para dizer sobre sua própria obra?

Sempre acho uma temeridade o autor falar de sua própria obra. Aliás, diante da obra, é comum o autor alternar sentimentos: primeiro ele acha que é uma obra-prima; ao reler, pensa ter escrito um absurdo, uma porcaria; num terceiro momento, já vê com olhos mais amenos; e assim por diante. Encontrar a serenidade é uma jornada! Já no prólogo, Matthew diz: “A era digital, com toda evolução tecnológica, conduz as pessoas como que numa correnteza, chocando-as umas às outras, mas raramente as unindo. São como seixos rolados, pedras lisas vitrificadas, interagindo todo o tempo, mas sem qualquer aderência. (…) Essa dinâmica escorregadia está provocando nos seres humanos uma necessidade de criar poros, garras, arestas inaparáveis ou qualquer coisa capaz de nos manter juntos”. Quando um escritor liberta sua alma, abre a porta e convida os leitores a entrar, não é possível prever qual será o resultado. Eu estou vivendo aquele momento quando os leitores estão sentados à sala, lendo “Águas Turvas”, tomando café e estamos batendo um papo agradável.  Alguns dividem suas impressões, outros dividem seus dilemas pessoais, há quem compartilhe experiências e a conversa segue animada. Eu olho pra eles e sinto-me plenamente realizado ao vê-los unidos à minha sala, esse que é o melhor cômodo que há em mim.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s