Contos, Crônicas & Outros textos

Provisórios – Estação Amor

O sinal de fechamento das portas do vagão do Metro alerta que a locomotiva irá partir. O maquinista avisa: próxima estação, Trianon-MASP. Impulso dado, o trem começa a se locomover.

Do outro lado do vagão o rapaz lê atentamente seu livro. Apoia o braço na janela. Em meio ao balanço da locomotiva que movimenta seu corpo, ele vira mais uma página. Até reparar que eu o observo. Em um primeiro momento, desconsidera minha ação e volta para a sua leitura.

Sorrio. Ele percebe. Vira mais uma página e o vagão continua balançar. Agora mais forte, já que ganha velocidade. Outra página é virada. Continuo olhando. Ele volta o olhar para minha direção e oferece um sorriso de canto de boca. Olho para outra direção. Disfarço, mas retribuo o sorriso com um olhar de aprovação.

Ele coça a orelha. Fecha o livro, pega o celular e verifica alguma coisa. Quem é este rapaz? Penso. Quantos anos? Uns vinte e poucos, mas chegando aos trinta, eu acho. Tento acertar a idade. Sorrio, sendo pego pelos meus pensamentos. Ele olha pra mim mais uma vez.

Como seria se eu o encontrasse em outro lugar mais sociável?

Qual o problema de rolar um primeiro encontro dentro de um vagão de trem? Dou mais uma risada, mais alta.

Ele olha. Olhos verdes. Barba mal feita. Mãos bem cuidadas com dedos longos e juntas salientes. Os lábios são finos, de sorriso maroto. Depois de olhar minha pequena gargalhada, ele sorri de volta e vira para a janela.

Qual será o seu nome?

Ele está gostando de mim? Será que é minha cara de pau que chamou a atenção dele? Meus cabelos? O que será?

Até que meus devaneios são interrompidos. O trem começa a diminuir sua velocidade. Já é possível ver uma pequena multidão de pessoas esperando para entrar na locomotiva que se aproxima. O maquinista avisa: estação, Trianon-MASP. O sinal das portas é acionado. Ela abre. O cara levanta. Ele olha para minha direção enquanto sai. Um amor provisório se vai e somos jogados ao improvável universo com seus encontros e desencontros.

A porta começa a fechar.

Correndo com a camisa amarrotada, outro rapaz entra quase sem fôlego pela brecha que ainda resta na entrada do vagão. Mais um amor de estação.

Hummm… que bonito… Sorrio. E ele também.

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