Cachola

O mistério do HSH e o machismo do Estado

Não tenho nenhum problema de dizer que faço pelo menos duas vezes por ano o teste de HIV/aids. Recomendo para amigos, ex-namorados, namorado, colegas, conhecidos e desconhecidos. Recomendo até você, leitor(a), fazer o teste. O HIV é só um dos vírus sexualmente transmissíveis que o exame detecta. Sempre me protejo; e além de incentivar o exame, também incentivo a proteção.

Nunca tive o azar de algum teste dar positivo; mas se um dia der, terei a sorte de resolver da melhor forma, dentro de um prazo seguro do contágio. Mas quero falar sobre o tal do HSH e minha revolta com esta sigla que apareceu algum tempo nas perguntas que os postos de saúde fazem quando se faz o teste.

Quem já fez sabe como são as perguntas da infectologista – até parece que você está em um confessionário despejando seus pecados. Para quem não sabe, cito algumas.

Quantos parceiros você teve nos últimos 12 meses? Quantas relações sexuais você teve nos últimos 12 meses? Praticou sexo com pessoa do mesmo sexo? Há quanto tempo? Quantos parceiros? Ativo ou passivo? Praticou sexo com pessoa do sexo oposto? Anal ou vaginal? Ambos? Quantas relações? Usou preservativo em todas? Usou drogas? Quais? Bebe? Com que frequência?Já fez o teste antes? Por qual motivo? Por qual motivo está fazendo agora? Tem filhos? É casado? Tem parceiro fixo? Profissão? Idade? Escolaridade? Solteiro? Você é homossexual, transexual, bissexual, heterossexual ou HSH?

Opa! Espera. Keep Calm! HSH? Tell me more about it…

É evidente que eu já sabia o que era a tal sigla, mas queria que a profissional da Saúde discursasse um pouco sobre o tema. Eu estava para conversa naquele dia.

A moça não titubeou na resposta, um pouco ensaiada. “HSH são homens que mantém relações sexuais com outros homens, por diferentes motivos, mas não se consideram homossexuais.”

Interessante, e quais são estes tais “diferentes motivos”?

E ela não demorou muito para responder “garotos de programa, homens heterossexuais que são se colocam na categoria de gays, mas tiveram nos últimos 12 meses alguma relação com outros homens, atores pornô… Estes motivos diferentes”.

Poxa, legal. Parece um avanço do Estado em considerar a sexualidade algo mais amplo e dinâmico do que o maniqueísmo macho e fêmea. Mas, por trás da máscara do progresso esconde um monstrinho estatal retrô, nada cool.

Pergunto se na ficha que contém estas perguntas rola a sigla MSM, pois, acredito que as mulheres provavelmente contemplem de tais regalias “diferentes” em suas vidas sexuais.

Não, não rola esta opção no cadastrinho do Ministério da Saúde. Resolvi terminar o papo por ali mesmo, dizer que sou homossexual e fazer o teste. Mas a reflexão ainda continuou em meus miolos.

Ora, será que sou um HSM?
Sou réu confesso. Já andei pulando a cerca e desonrando a bandeira gay entre quatro paredes (risos), será que sou menos gay por isso? (cutucando a onça com vara curta; perceba a ironia). Já me diverti com algumas afrodites por aí, de forma voluntária, no calor da emoção ou só porque rolou o clima mesmo e parei entre os lençóis. Mas em minha defesa, quero declarar que foram raras as noites de lua cheia que compartilhei a cama com outra mulher (perceba a ironia 2).

Portanto, se me declaro gay, serei um HSM? Um homem, gay, que por “diferentes motivos” se relacionou sexualmente uma ou duas vezes no último ano com uma pessoa do sexo oposto. Pergunta importante. Até anotei no bloquinho para o próximo deleite sobre o divã da minha analista. Mas deixei pra lá após perceber que era besteira.

Filosofando e politizando
Já sabemos que o Estado brasileiro passa longe de ser esclarecido sobre a sexualidade humana. Somos muitos, em “diferentes” situações. Afinal, se o que interessa ao Estado, no momento da realização do teste é a “forma” que nos relacionamos sexualmente e não afetivamente, por qual motivo perguntar ao paciente se ele é gay, lésbica, trans ou HSH? A resposta pode parecer óbvia, mas é bem mais complexa do que a gente imagina. Poderia rolar um HSH, HSM, MSH, MSM e pronto, já que no caso do exame é a única coisa que realmente importa.

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