Cachola

Jornalista, por qual motivo?

É uma quarta-feira chuvosa de dezembro. Depois de dias seguidos sem as nuvens aparecem, o mundo deságua sobre o jardim de casa, o quintal do vizinho e por todo o bairro; um alívio para quem enfrenta a estiagem que São Paulo (sobre)vive. A Capitu, minha cachorra, me observa deitada ao pé da cama; me observa a ansiedade que tenho em apertar compulsivamente a tecla F5 na página do Curso Abril de Jornalismo e saber se fui ou não convocado.

Já adianto, leitor benevolente, não fui. Até cheguei à segunda fase, participei da entrevista – que foi tranquila – mas não fui convocado para integrar uma das 60 cadeiras do curso de 2015.

O que vale é deixar aqui, aos aspirantes dos próximos anos e também aos meus leitores, o texto que me levou tão pertinho de conquistar a vaga de um dos cursos de Jornalismo, para recém-formados, mais importante do País, siga à leitura:

Só queria saber de onde saem as notícias

“Não faça isso”, advertia papai enquanto eu (uma criança de pouco mais de oito anos) colocava a mão dentro de uma lata de tinta preta. “Mas pai, quero saber de onde saem asnotícias”, a minha curiosidade – seria jornalística? – era devido ver meu pai imprimir o jornal local da cidadezinha do interior de São Paulo, Jales. Sempre o via na máquina offset apertando botões e verificando se a impressão estava boa ou não, das editorias de polícia, cotidiano, política e cultura. Não entendia oque estava escrito lá, mas a atenção do meu pai voltada à qualidade do impresso me instigava.

Até que ele tirou a dúvida e me deu outras: “as palavras não saem da tinta, são os jornalistas que escrevem”. Pronto, eu tinha que encontrar estes tais “jornalistas”. Quem são? Onde habitam? Do que se alimentam? Eu pensava. Até que descobri que tinha jornalista no jornal impresso, na televisão e no rádio. Eles estavam em todos os lugares e sabiam de tudo. “Eu quero ser jornalista, mãe”, afirmava para ela.

Com o tempo, Fernando Henrique Cardoso ganha a eleição presidencial do Brasil, Lula também conquista a faixa em seguida, as Torres Gêmeas são derrubadas em um ato terrorista e o Furação Katrina devasta parte dos Estados Unidos.Os diferentes estilos dos jornalistas de contarem a História me deixava encantado.

Quando completei 17 anos minha mãe perguntou: “você quer estudar Jornalismo mesmo? Não tem outra área que dá mais dinheiro?”. Papai e mamãe nunca me obrigaram a fazer nada, mas decidi agradá-los e mudei de opção de curso. “Mãe, decidi fazer Ciências Políticas. O que acha?”. Apenas o nome “Política” já agradava os ouvidos dos velhos. “Política é bom, dá dinheiro.”, afirmavam e aprovavam minha nova escolha.

Estudar custa muito, e como meu diploma escolar foi conquistado em escola pública, não conseguira passar das muralhas das imperiais universidades estaduais ou federais.

Em um momento eureka, saquei que poderia estudar na Argentina, por um custo muito baixo, e em uma instituição acadêmica importante. Era 2009, o dólar não passava de R$1,70. Assim embarquei, com passagem de avião só de ida, destino Buenos Aires para estudar Ciências Polícias na UniversidadCatolica de Argentina (UCA).

Claro que não deu certo. A crise imobiliária norte-americana eclodiu, o dólar subiu e não consegui ingressar na universidade. Assim embarquei, com passagem de ônibus só de volta, para o Brasil.

“Mãe, agora vou estudar Jornalismo”. E assim, no início de 2010 estava estudando o que sempre tive vontade: Jornalismo. Tudo bem, não estava matriculado em nenhuma dessas grifes acadêmicas como Cásper Libero, Mackenzie, ESPM, ou USP. Era na Universidade Paulista; onde dava para pagar a mensalidade em dia. Não dizem que quem faz a faculdade é o aluno?

Logo no primeiro semestre, o professor doutor do curso de Comunicação recebia um projeto de iniciação científica. A proposta era analisar a cobertura da greve dos trabalhadores da CPTM de 2009 sob a luz da Teoria do Enquadramento. Projeto aprovado e financiado pelo Santander Universidade.

No curso aprendi um punhado de assuntos relevantes, outros nem tanto. Até me questionei: ora, o que é ser jornalista?

Mergulhado na questão, a população brasileira começou ocupar as ruas em busca de melhorar a política do País, era junho de 2013. Hora de acompanhar a cobertura da imprensa. Em meio a coquetel molotov, bombas de gás e cassetete policial, acompanhei os colegas jornalistas neste trabalho. Quero ser jornalista para documentar a história. Eureka! Mais uma vez tinha a mente iluminada.

Escrever um texto com o tema “quem eu sou e por que escolhi o Jornalismo como profissão” é escrever o quanto a profissão esteve presente em minha vida. Meu pai, com seus cabelos brancos, ainda retorna para casa com as mãos sujas de tinta segurando o jornal que imprimiu, e agora, com as notícias que escrevi.

*Foto de Ygor Andrade
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