Cachola

Quando a bandeira sangra por dentro

Me espanta um tal perfil enlatado que é imposto dentro da comunidade LGBT sobre como cada um deve ser. É como se existisse um manual – e existe em um inconsciente coletivo desta comunidade colorida – sobre como devemos nos portar na vida pública e privada. Gay não pode ser viado; bicha, nem pensar. Lésbica não é sapatão; caminhoneiras passam longe do pedágio da inclusão. Trans tem que ser feminina de verdade; e crossdresser é só modinha. Isso cansa e não ajuda, sabia?

Mas vou me reservar a falar apenas da categoria das gays, porque não sou lésbica, não sou trans e não sou travesti. Sou gay. Facilita na discussão empírica da porra toda.

Existem uma áurea moralista e conservadora nesse grupinho tão pequeno. De um lado quer impor que gay não deve amar uma única pessoa que nossa sexualidade é plural – viva o poliamor! – os Tribalistas já cantaram: “não sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”.

Tudo bem, se você é feliz assim; seja. Mas não seja moralista em impor que a sua escolha de expressar a sua forma de amar é a correta e que o outro é vítima de um sistema político e econômico e judaico-cristão; e mais um monte de blá bla blá.

Já andei escrevendo por aí que ser gay não é ser contracultura ou transgressor, inovador ou qualquer outra balela – damos e comemos o cu desde sempre, querida.

Não é novidade, não é pop, não é moderno, não é pós.

O que nos faz por na condição de tamanha atenção na vida social e política do País – e em tantos outros no Ocidente e Oriente próximo – não é o que somos por natureza, mas sim as limitações de compreensão da sexualidade humana que uma determinada classe da população tem sobre nós.

Existem gays que vivem como se não houvesse amanhã. E que bom, mas respeite as mais velhas. Se hoje pode extravasar na pista é por causa delas, querida. Ferver na pista pode, assim como também pode querer ficar em casa, de boa, assistindo Friends e comendo brigadeiro de panela.

Tem bicha que quer casar um dia. E pra ela é muito importante isso! Ter filhos, fazer almoço de domingo prazamiga e ainda alimentar os goldens no quintal de casa. “Ah! Mas isso é coisa da heteronormatividadee o escambal do caralho a quatro”. Gente, deixa a bicha ser feliz! Assim como quem não tem esses planos também tem o direito disso.

Aplaudo de pé estas pessoas que querem casar. Quer forma de combate da intolerância do que mostrar para os héterosnormativos e o escambal do caralho a quatro que S-I-M É P-O-S-Í-V-E-L duas pessoas do mesmo sexo constituírem uma família como a deles, como patrimônio, com filho e com o almoço de família de domingo?

Cansa ver a homossexualidade como uma lifestyle. Não, não é lifestyle,minha querida; ser viado é só ser viado, e não uma forma de consumir qualquer mercadoria enlatada.

Tem gente que acha que viado tem que sair distribuindo-geral-muito-cheirado. Isso não é uma lifestyle gay, é uma lifestyle humana, um privilégio que héteros também podem usufruir, me entende?

O mais chato de tudo é que, geralmente, esta normatização gay, vem de lideranças pífias da militância LGBT – que na verdade é mais GGGG do que LGBT –, geralmente preocupadas em criar nomenclaturas para fobias que até poupo meus dedos de digitar aqui. Rola uma certa ‘militância’ que não representa tampouco a letrinha G e, como muito pastor por aí, está mais interessado na ‘verba’ para algum programa que não dará nenhum resultado do que resolver o problema coletivo. Pasmem.

Não quero dizer que não exista gente compromissada, que existe sim! E quem é compromissado, a carapuça do paragrafo acima não serviu.

É preciso entender que tem viado pra tudo qualquer gosto! Tem quem goste do Cristianismo, tem que é budista, tem quem gosta de usar barba, tem quem gosta de quem usa barba, tem quem goste de tudo depilado, tem quem gosta de usar gloss! É assim mesmo, sabe! Tem quem goste de pedir benção para os pais a cada ligação, tem que goste da esquerda, e quem goste da direita, mas ambas são preconceituosas.

Não seja inocente, Do mesmo jeito que tem comunista homofóbico, tem capitalista inclusivo que não quer seus pink moneys.

Aí as mais fervidas chamam as outras de conservadoras e vitimas da heteronormatividade e o caralho a quatro; enquanto as conservadoras dizem que as fervidas não representam o time. Pasmem novamente!

Enquanto ficam aí se gladiando para saber quem tem o troféu joinha das bee! Querida, tem gente morrendo só por amar.

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