Cachola

Alguém salva a Gaybriela perdida na Paulista?

Compreendo quando os membros Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo preferiram se acomodar no exercício do pensamento e lançar a campanha de 2015 com o seguinte tema: Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeita-me!

A neurociêntista Suzana Herculano-Houzel já diz que pensar “não é só uma questão de motivação. Pensar – usar neurônios específicos para resolver um problema específico – cansa mesmo”. E se pensar dá canseira, imagina abrir um debate inclusivo, com todos os grupos de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros! Deve dar ainda mais cansaço para os membros da Associação.

Agora é oficial, marcada para o dia 7 de junho de 2015, a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo terá como tema a “Modinha para Gabriela” do compositor e músico Dorival Caymmi.

O tema foi reduzido às questões biológicas da sexualidade. E a Genética está distante de calar as construções das normas baseadas no ideal ocidental cristão. Em resumo, a entidade, mesmo querendo incluir as questões de identidade à pauta do debate, na verdade excluiu. Questionar a despatologização da transexualidade pra quê? A pauta mais importante é a das Gaybrielas.

Tudo bem, a tentativa que os responsáveis – é preciso responsabilizar as pessoas – de decidir por este tema pode seguir um raciocínio de combate ao discurso lgbtfóbico de que ser “gay” é uma escolha. Mas para sambar na cara da tradicional sociedade que vivemos é preciso de um pouquinho mais do exercício do pensamento e conhecer o Samba.

Já pensou que os modelos normativos da sexualidade que existem atualmente é uma mera construção social para se encaixar ‘perfeitamente’ ao modelo patriarcado; que é branco, machista, homofóbico e todo errado?

Sugiro deixarmos a questões biológicas de lado e partir para o debate filosófico, social e político para começar a respeitar alguns pensadores como Simone de Beauvoir. Na frase que inaugura o segundo volume da sua obra mais famosa: O Segundo Sexo, ela afirma que não se nasce mulher, torna-se mulher.

Pode parecer difícil para as Gaybrielas entender e compreender que o senso comum de sexo entre o que é ser homem e o que ser mulher é uma construção criada historicamente de um determinado grupo dominante da sociedade. E essa construção não é nova, Aristóteles ao naturalizar o sexo em prol da construção de uma família que resulte em uma prole diz: é preciso, inicialmente, reunir as pessoas que não podem passar umas sem as outras, como o macho e a fêmea para a geração. Esta maneira de se perpetuar não é arbitrária e não pode, na espécie humana assim como entre os animais e as plantas, efetuar-se senão naturalmente. É para a mútua conservação que a natureza deu a um o comando e impes a submissão ao outro.

Para quem não sabe, é preciso informar que o pensamento aristotélico, em torno do homem e sua organização social; e o ptolomaico em torno da concepção do mundo cósmico é, em grande parte, a base argumentativa que sustenta o discurso religioso cristão ainda hoje, no XXI. Vide o que Aristóteles fala sobre “macho e fêmea” na citação acima. Bem parecido com a fala de muitos deputados por aí, no Congresso brasileiro, não?

Não é preciso se importar se existe uma explicação biológica para a homossexualidade ou transexualidade. A Associação poderia se pautar no questionamento dessa normatização da sexualidade humana, empoderada pela igreja e sociedade patriarcal, para que haja avanço no debate de políticas públicas para as letrinhas L-G-B-T-T-I (e mais todas as outras denominações que meu limitado conhecimento pode desconhecer), e não cair na armadilha do “eu nasci assim”.

É claro que com o caminhar da História, o encenação dos papeis entre homem e mulher (e outras identidades de gênero) mudaram, mas a essência estava ali: o homem superior a mulher, e todo o conceito do que é ser homem e do que é ser mulher baseados entre ‘macho’ e ‘fêmea’.

Por exemplo, a partir do século XIX, com as revoluções industriais, a mulher deixa de ser apenas o objeto de procriação, e agora é “valorizada” como a mãe que educa os filhos e dá atenção aos trabalhos domésticos.

A cientista política australiana Raewyn Connel fala dessa hierarquia de gênero: entre a masculinidade hegemônica com maior poder e a masculinidade homossexual com menos poder. E a relação da feminilidade nesse contexto.

Afirmar, eu nasci assim, eu cresci assim, eu vou ser sempre assim: respeita-me é quase cair na cilada desse tal empoderamento do sexo biológico em detrimento dos pequenos avanços conquistados pelos direitos da população LGBT e de uma discussão mais sóbria.

Como sugestão, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo poderia, nas próximas edições, exercitar melhor o pensamento – mesmo que canse e dê trabalho.

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