Cafezinho

Tomando um cafezinho com Hroðgar Hämäläinen

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Reprodução – Facebook

Transfeminista e queer finlandesa, Hroðgar Hämäläinen é considera uma das queer ativistas de respeito no Brasil. Possui graduação em Filosofia e Artes pela Universidade de Helsinki; mestrado em Filosofia pela Universidade de Reims, França; Doutoranda em Filosofia pela FFLCH/USP. Com ampla produção artística no Brasil e no exterior. E é pesquisadora colaboradora do Suomen Queer-tutkimuksen Seura (Sociedade de Estudos Queer da Finlândia).

Então, carxs leitorxs, sinta-se convidadxs para o nosso cafezinho. Açúcar ou adoçante?

O que é a Teoria Queer?

A Teoria Queer é um amplo campo de estudos interdisciplinares que enseja analisar e explicitar, através do método genealógico, os diversos dispositivos (saberes, discursos, instituições) que constituem e solidificam, mantém, dissolvem e, sobretudo, estigmatizam identidades e/ou subjetividades.

Originária como alternativa aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais, a Teoria Queer direciona seu olhar nos conhecimentos/saberes que organizam ontologicamente o todo social em pretensas categorias universais de gênero e sexualidade. Ela se preocupa com a construção de identidades no interior de redes microscópicas de poder/saber.

Tributária de correntes filosóficas que descentraliza, desconstrói e subverte noções clássicas de sujeito, consciência, linguagem, verdade e dualismos metafísicos, este campo vai se estruturar em uma recusa radical de estruturas ontológicas. Sendo assim, é Nietzsche quem vemos preparar o solo para que Foucault, Deleuze e Derrida possam desenvolver suas reflexões e servirem de bases para os teóricos queers.

Mas não é só da filosofia que se compõe este corpo queer. Os Estudos Culturais norte-americano , o Pós-Estruturalismo francês e os estudos pós-coloniais são componentes fundamentais para sua corporificação.

A Teoria Queer não é o estudo das minorias, mas dos diversos dispositivos, saberes, poderes que criam dualismos identitários, logo, totalmente diversa do que se fazia outrora nos estudos sociológicos.

Marca fundamental, queer é um termo que, num dado momento da história, foi usado para oprimir, ofender; doravante, signo de empoderamento visando assim demarcar àqueles que não se permitem sujeito aos diversos dispositivos de normatização.

Não obstante, a Teoria Queer foca nas identidades e performances que vão alem de um pretenso e quimérico binarismo. Dai seu olhar nas subversões de pessoas transgêneras, transexuais, travestis, drag e etc.

É importante salientar que não há consenso entre os teóricos ao que seja uma Teoria Queer efetiva. Seu fazer-se é múltiplo assim como seus “objetos” de análise.

Como se deu o teu contato com a teoria e prática queer?

 Bom, a Finlândia- e a Escandinávia como um todo- há muito vem discutindo e problematizando noções clássicas e binárias de gênero. Enamorada com o flerte entre a sócio-construção e o ideal pedagógico de empoderamento e eqüidade entre sujeitos, a Finlândia tem se esforçado em promover a pesquisa e pratica do que hoje poderíamos chamar de uma pedagogia queer. Nesse sentido, encontra-se escola onde papéis sexuais e de gênero não são territórios forçadamente reconhecíveis, outrossim , há  sua completa dissolução. Tarefas ditas masculinas e femininas perdem seu caráter organizador e territorializado. Todos executam as mesmas tarefas sem pretensão idéias absurdas de “isto é coisa de menino e isto é de menina”.

Soma-se a isto o fato de que lingua finlandesa não tem gênero, logo a  estruturação lógico gramatical permite uma certa indefinição enunciativa e, como já havia dito, performativa. Nunca sofri preconceito por ir à escola de saia, por exemplo. Tampouco era forçada a me narrar dentro de estruturas logico-gramaticais fortemente binarista onde um termo é subjugado por um outro dominante.

No ambiente familiar em muito me ajudou o fato de eu ter uma avó feminista e acadêmica. Foi com ela que tive meu primeiro contato com obras feministas escritas fora da Finlândia. Simone de Beauvoir era , portanto, minha serie” vaga lume finlandesa. “

Criada num ambiente como este, não pude me deixar convencer pelas grandes metanarrativas de representação e enunciação binárias de gênero. Era-me- e ainda o é- sufocante a ideia de ser um homem, uma mulher ou um terceiro gênero. Mais ainda, é-me inaceitável tomá-los como universal. Se temos uma obsessão ocidental pelo Ser. Minha cultura, com sua estruturação gramatical, mostra-me possibilidades outras de ser/estar e me narrar no mundo. Possibilidades estas que nada tem a ver com IDENTIFICAÇÃO, mas sim com CRIAÇÃO/DESTRUIÇÃO CONTINUA DE SI.

No segundo ciclo, equivalente ao ensino médio brasileiro, iniciei o meu, digamos, caso amoroso com Nietzsche e Antonin Artaud. De Nietzsche, a suspeita sobre o ser e a hipótese libertadora do Ūbermensch colocou-me no umbral da experimentação. De Artaud, o conceito de Corpo sem Orgãos perseguiu-me a adolescência.

Sob suas idéias, coloquei-me como obra de arte de mim mesma para além dos diversos dispositivos normatizadores.

Minha adolescência foi uma fase onde explorei ao maximo a pergunta “O que pode um corpo?”. Cumpre ressaltar que , nesta época, eu não havia tido contato com Butler, Preciato, Bourcier.  Minha base era única e exclusivamente   Nietzsche e Artaud.

 Findo este alegre introito da e na vida, ingressei na graduação em Filosofia e Artes na Helsingin Yliopisto (Universidade de Helsinki). No departamento de Artes, fui apresentada ao Artivismo e ao Body Performance. As reflexões da adolescente começam, aqui, a ganhar corporeidade no exato momento em que é o corpo, ele mesmo, ė desconstruído. No departamento de Filosofia, os estudos pos estruturalistas deram-me bases solidas para minha reflexão queer. Não obstante, frequentei as aulas de sociolinguística, psicologia social e esquizoanalise. Nesta profícua interdisciplinaridade a que um estudante  é convidado tão logo ingressa em qualquer sistema educacional finlandês, explorei muitos áreas do conhecimento sobre um mesmo fenômeno. Mal sabia que isto seria fundamental para meu olhar queer. E foi ai que conheci a obra de Judith Butler, Joan Scott, Beatriz Preciado (Paul Beatriz), Marie-Helene Bourcier entre outros.

Entrar em contato com suas obras possibilitou-me experiências corpóreas e intelectuais diversas. Se lá na adolescência foi Nietzsche e Artaud, quem me deu bases para um cuidado de si, na graduação foram estas quatro teóricas que me fodiam. E que foda, hein?! Datam desta época a minha primeira tentativa de tomar hormônios. O medo fora maior e mais forte. Mas a reflexão e os experimentos no pensamento e no corpo eram mais e mais fortes.

Mas ai, como todo acadêmico, tive que fazer uma escolha entre meus objetos de estudos. Era-me exigido uma dissertação para me formar e, como tal, era necessário trabalhar apenas sobre um destes grandes pensadores. O  dilema personificou-se: Nietzsche ou os teóricos queer?

Por fim, foi Nietzsche quem venceu. É ele quem sempre vence em mim. (risos).

Ao terminar a graduação, problemas familiares forçavam-me a vir para o Brasil.

Mal havia botado meus pés devidamente calcados por lindas sandálias de salto e virei motivo de chacota, empurrões e ombradas. As mais abusivas violências verbais eu vivenciei. Os preconceitos que me eram estranhos se apresentaram á mim rapidamente.

Em que pese o aspecto negativo, tomo esta fase como fundamental para o meu empoderamento, afirmação enquanto pessoa trans e atuação política. Pode-se dizer: no inferno aprendi a rezar.

De lá para cá, morei na França, onde também sofri preconceito, para fazer meu mestrado em Filosofia. Ao retornar para o Brasil eu sofri o mais duro golpe: o preconceito institucional oriundo de acadêmicos. Ao explorar a estética dita andrógina  nua e sua representação fotográfica usando como pano de fundo um dos instrumentos musicais mais caros à tradição cristã: o órgão, sofri as mais severas reprimendas eclipsadas em admoestações meramente academicamente. Fruto de diversas maledicências, tornei-me persona non grata no meio musical erudito no Brasil. Professores, outrora tão amistosos, tornaram-se rivais, maledicentes; colegas músicos ofereceram-me o escárnio e pedras em formas de julgamentos.

O fato gerou-me experiências dolorosas que ate hoje sangram. Todavia, o ocorrido fez-me desembocar no Queer Artivismo.

Por Queer Artivismo entendo o fazer artísticos (seja qual for a linguagem artística) para dar visibilidade às inúmeras questões queer.

Hoje sou a pioneira na aplicação do Queer Artivismo na praxis da música erudita.

Como se vê, minha trajetória é uma mescla indefinível do pensar e do viver. Entre vida e pensamento não há distinção, outrossim, cópulas selvagens onde um faz o outro ranger os dentes de dor e prazer.

Quando a gente pensa na militância LGBTTI, em quais pontos o Queer dialoga e contrapõe?

Quando eu penso na militância LGBTTI, eu penso numa militância exclusivamente GAY HOMONORMATIVA ASSIMILACIONISTA. Não há espaço e voz das outras siglas se manifestarem. Todavia, falar em militância LGBTTI é ignorar pautas e demandas específicas que cada sigla advoga. Não obstante, dentro de cada sigla há mais uma infinidade de partículas organizacionais reivindicando pautas distintas, logo é difícil pensar a militância LGBTTI como uniforme.

A Teoria Queer se distancia da militância a partir do momento que se luta para a assimilação, ou seja, o entrar-se dentro da norma. Há um entendimento que estas demandas só visam reforçar as estruturas das quais se pretende desconstruir. Sua contraposição reside justamente em ir na contramão de qualquer proposta de assimilação. Seu ensinamento, um “contrato contrasexual” . (risos)

Existe um movimento queer no Brasil, ou ainda está limitado em pesquisas acadêmicas?

No Brasil, os estudos queer engatinham ainda. Sua inserção na academia ainda é anêmica e limitada aos estudos sociológicos.  Na filosofia, temos pouquíssimos trabalhos concluídos e uma forte resistência quanto ao seu , digamos , uso e estudo.

A práxis queer- que, por excelência, é um devir estratégico- ainda é limitada a um certo esteticismo, ou seja, é na fusão de objetos, roupas e adornos lidos como masculinos e femininos que se performa uma , digamos, estética queer.

Longe de compor um movimento com demandas claras e precisas, estes sujeitos ditos queer operam , a meu ver, uma nova performance tribal.

Cumpre dizer, o que se tem convencionado chamar de sujeito queer em muito se distancia do proposto lá na teoria.

Se na teoria visamos um sujeito queer que está em constante combate contra as diversas normatizações (subjetivas, de expressão, gosto e desejo) e, assim sendo, cria varias linhas de fuga e não se deixa modelar, na pratica vemos sujeitos mantendo referenciais sobre representação e formas de enunciação de gênero a- histórica, ontológica, essencialista. Ainda nessa linha, não ha uma desconstrução de si enquanto sujeito de desejo. Assiste-se assim o preterimento afetivo-sexual de biotipos que fogem às regras sob a absurda ideia de um gosto pré histórico, fixo. Nesse sentido, encontra-se muitos dos ditos queer preterindo afeto-sexualmente o gay afeminado, o obeso, o negro e se “prefere” o biotipo que está na ordem do dia. Hoje é o gay barbudo com estilo vintage.

Aliás, temos aqui alguns apontamentos para estudos queer sobre a atual práxis queer.

Quando penso na Teoria Queer, me vem à cabeça a luta contra as classificações tradicionais das identidades e orientações sexuais. E quando vejo o movimento LGBT brigando por protagonismo e não por ações afirmativas pró a nossa população, penso que o movimento Queer poderá colaborar para essa quebra. É isso?

A Teoria Queer não luta contra as formas tradicionais de classificação de gênero e sexualidade. Seu enfoque é nos diversos saberes/poderes que constituem identidades e diferenças. Pensar na teoria queer como luta contra as formas clássicas de classificação pressupõe, sub repticiamente, a possibilidade de uma nova forma de classificação mais adequada e não ha nada mais anti queer , usando as palavras de Beatiz Preciado, do que pensar num terceiro sexo/gênero, ou seja, numa nova forma de classificação mais adequada.

Continuando em torno das classificações tradicionais identidades e orientações sexuais, vale lembrar que muito dessa segregação está ligada à religião dominante. A religião é a principal barreira contra os queers?

Religião? Temos muitas ,não? Se pensarmos com Foucault, não. As classificações tradicionais remontam ao advento da sexologia e não com a religião. Colocar na conta da religião problemas macro estruturais é, a meu ver, resvalar num superficialismo enfadonho.

É possível um gay ou lésbica, trans ou bissexual se denominar Queer. Mesmo estando dentro dos atuais padrões de gênero?

Bom, pensar regras de como ser queer, quem pode ou não se narrar como tal é coisa para quem acredita em clube da Luluzinha.

Como podemos pensar em um movimento Queer não elitista, fora da academia? Ou seja, dentro do movimento LGBT nós temos uma classe social e étnica dominante, geralmente gay e branca de classe média.

 Mas o queer não pode ser elitista. É uma teoria que não é pensada em termos elitista, outrossim, totalmente dentro de mudanças de paradigmas sociais, políticos e culturais profundas. Não tem como pensar no queer proposto na teoria copulando com ideais elitistas. Isto é um absurdo!

Tenho a impressão que enquanto parte do movimento LGBT tenta “desconstruir” a heteronormatividade, o movimento Queer busca “libertar” o indivíduo dos padrões tradicionais. É isso?

 De certa forma, sim. O sujeito se empodera ao se desconstruir de multiplas normas que lhe são impostas a todo momento acaba por trazer a tona praticas e reflexões que , de um jeito muito salutar, pode acabar empoderando outras pessoas.

O que você acredita que falta para o Brasil avançar no conceito proposto pela Teoria Queer?

De mais estudiosos (risos). Arromba-se muitas portas abertas; divulga-se trabalhos feitos no EUA, mas quase não se tem produção genuinamente brasileira. Isto se deve, é claro, ao próprio hermetismo da academia.

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