Cachola

Domesticados e higienizados

Reprodução

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RESUMO. Todos os dias – santos ou não – caminhamos para a domesticação e a higienização de nossas vidas públicas e privadas. Somos domesticados no campo do comportamento. Assim, a tábua de valores e morais é posta em público como juízos daquilo que é aceitável ou não por aqueles que nos cercam; onde deve estar cada objeto e cada indivíduo nos diferentes extratos sociais: ricos e pobres, pretos e brancos, mulheres e homens, lgbts e heterossexuais, letrados e analfabetos. Assim somos domesticados na compreensão de onde estará e quem terá acesso ao que é considerado cultura. A domesticação passa desapercebida aos olhos de muitos por ser algo enraizado na cultura não só do brasileiro, mas do latino-americano de modo geral. A higienização acontece quando micro-culturas convergem e, claro, a considerada marginal pisa para dentro das fronteiras daquela cultura considera a alta-cultura.

ENTRA na última semana, até 19 de maio, a 3ª Bienal Internacional de Grafitti Fine Art no Pavilhão de Cultura Brasileira, Parque do Ibirapuera. Um ótimo exemplo do que é domesticação e higienização no campo da arte. A priori o grafitti, assim como outras formas de arte de rua, é de não ter regras. Viu um muro livre, o artista vai lá e pinta. Pronto.

Mas, por ser uma expressão marginal; já que a liberdade de expressão amedronta alguns grupos específicos da sociedade; o grafitti precisava ser domesticado. Eis que nasce uma bienal específica para ele. Um local, ainda, agressivo para boa parte da população brasileira não acostumada e à vontade com galerias, museus, teatros, cinema e outros espaços culturais.

A higienização fica por conta das técnicas, dos temas, dos artistas, e o que vai ser exposto neste local determinados pela organização do evento. Afinal, existe um curador específico para isso.

Fazer uma bienal de grafitti é só um exemplo sutil do sistema agressivo que cada um de nós está exposto. Um sistema que visa domesticar e higienizar pessoas para serem aceitos dentro de círculos sociais.  Um sistema que separa aquilo que é estranho, esquisito e anti-social daquilo que não é. Um sistema que separa aquilo que é patrimônio público e não é, aquilo que é cultura e não é – como se isso fosse possível.

Assim que a indústria cultural transformou as letras de funk em algo menos ‘grosseiro’ ou ‘vulgar’. É nesse ritmo de domesticação e higienização que o cinema brasileiro se transformou nos últimos anos.

Com algumas variáveis, mas sem muitas mudanças, é assim que seguimos sendo domesticados diariamente no modo de pensar, no modo de consumir, no modo de socializar e aos pouquinhos sendo higienizados; ou seja, a cada esquina que percorremos no mundo real, ou a cada clique de curtir, um pedaço de nós que nos identifica e não é considerado o padrão é deletado.

Fomos transformados em matriculas, registros e algoritmos binários. E aqueles que insistirem, e ainda há quem insista, em não transformar sua solidez em objetos líquidos e sintéticos será transformado em marginal, clandestino e ilegal.

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