Cachola

O País de infantis

Somos curumins. Maria Bethânia finaliza a resposta de uma pergunta feita pela jornalista Luiza Franco, do jornal Folha de S. Paulo, em entrevista publicada na última quarta-feira (10). Curumim, para quem não sabe, é uma palavra de origem tupi que significa criança. Ora, mas em que contexto a artista disse que somos crianças?

A pergunta queria saber qual é a opinião da artista sobre o boicote, feita pelos evangélicos, à novela “Babilônia”. Para ela o Brasil oscila. Dá sinais de uma modernidade, de uma natureza que é real, nossa. É o Brasil de dentro. As pessoas são lindas, encantadoras. E de repente recua quilômetros e dá uma topada feia. Sai do paraíso para o inferno, do inferno para o paraíso em tudo: política, religião, amor, preconceito. Temos essa coisa muito estremada, muito perdida ainda. Acho que é um pouco infantil. Somos curumins.

Leio a entrevista de Bethânia em um momento que minha cabeceira é ocupada pelo romance “O Velho Negro e a Medalha”, do escritor camaronense Ferdinand Oyono. O romance coloca em xeque as promessas feitas aos africanos do seu país (Camarões) pelos ‘chefes brancos’ em nome de um hipotético tratamento igualitário que jamais se cumpriria. No livro, o tratamento de igualdade entre negros e brancos só existiria se os africanos se curvassem a Deus e engolisse a cruz que Jesus levou.

Para aqueles que conhecem o mínimo da História do Brasil, e o colonialismo no continente latino-americano, é possível fazer diversas conexões (mesmo com as particularidades da História de cada lugar) entre os processos coloniais no continente africano e no nosso.

Comparo o romance de Oyono com o brasileiro “Iracema”, de José de Alencar. Embora o nosso romance explore outro contexto, é possível chocar com a crítica do autor em torno do nascimento do brasileiro; um filho do estupro. Para além do ‘amor’ entre Iracema e o homem branco que veio do outro lado do atlântico, sabemos muito bem como se davam essas relações marcadas por violência física, psicológica, sexual e com a escravidão à flor da pele.

E a igualdade? Na hierarquia social estava a igreja cristã, abaixo a monarquia, os coronéis, os índios batizados e ungidos pela palavra de Deus e lá embaixo, juntos aos animais (como deveriam ser tratados) os negros africanos que não se curvaram a doutrina cristã quando a “civilização” chegou em suas terras, na África.

Vamos dar salto de pouco mais de cinco séculos? Estamos na manhã de quinta-feira, (11), de junho de 2015. O mesmo jornal que entrevistou Bethânia tem, e entre suas manchetes, as seguintes reportagens: “Sob pressão da igreja, Câmara de SP tira palavra gênero de plano de educação”; “Fogueira na PUC”; e “Evangélicos protestam e rezam Pai-Nosso no plenário da Casa”.

Não saímos da Idade Média
A História nos conta que o fim da Idade Média; também conhecida como Idade das Trevas; se dá quando o cristianismo começa a perder território (e poder) na Europa e dá lugar ao Renascimento, período em que a Ciência e a Razão começam a questionar paradigmas impostos pela igreja.

É no fim da Idade Média que os europeus cristãos, correndo de um desastre financeiro e de fé, embarcam em suas caravelas e começam um processo que chamam de ‘levada da civilização aos outros povos’. A premissa é de que eles, os europeus cristãos, tinham a potência do que é ser “civilizado” e deveriam educar os outros. Com essa premissa que desembarcaram na África e na América Latina.

O que quero dizer? A Idade Média apenas mudou de lugar e tempo. Ela apenas saiu do seu berço. A ética e a moral a que adestra os colonizados é a mesma que matou, estuprou e escravizou em nome de um sagrado que sustentava um poder já falido na Europa.

Bethânia está certa. Somos curumins. Ou crescemos para nos tornar guerreiros e pajés da nossa história, ou continuaremos sendo mortos, estuprados e escravizados em tudo: na política, na religião e no amor.

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