Subversão

Mário de Andrade e sua homossexualidade

Veja como tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão

Assim que o escritor paulista Mario de Andrade se refere à sua homossexualidade em carta, escrita em 7 de abril de 1928, ao escritor Manuel Bandeira. O documento que faz referências diretas à sua sexualidade só foi liberada nessa quinta-feira, 18, pela Fundação Casa de Rui Barbosa após luta judicial entre o jornalista Marcelo Bortoloti, da revista Época, e a instituição.

O documento estava lacrado há 35 anos nos arquivos da fundação. Na carta, Mário de Andrade fala sobre as pressões que sofria por causa da sua fama de gay, e não desmente os boatos a esse respeito.

“Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar a grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade?”

Mário ainda afirma que “Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui e sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas.”

Por uma questão de: “honra”

A carta só foi aberta por uma determinação da Controladoria-Geral da União, atendendo a pedido, via Lei de Acesso à Informação, do jornalista Marcelo Bortoloti, em fevereiro.

Vale lembrar que a primeira recusa, de várias, da Casa de Rui se deu sob o argumento de segui “o que recomenda a Lei 12.527/11, quando ao respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais”.

Ou seja, para a Fundação que guarda a carta, a homossexualidade é um algo que fere a honra do ser humano.

Em março o caso foi parar na CGU, e então a instituição passou usar o argumento de que os direitos autorais das cartas de Mário estão protegidos até janeiro do próximo ano, já que a morte dele completou 7o anos neste ano.

A CGU entendeu que a vigência dos direitos autorais não poderia impedir a “mera consulta dos documentos” por pesquisadores. Em maio foi determinado a liberação do documento, mas a Casa Rui tentou mais um recurso.

Até que no último dia 9 a CGU manteve a decisão de liberar a carta. E a carta foi liberada no meio dia desta quinta-feira.

Editada no passado

A carta foi originalmente publicada pelo próprio Manuel Bandeira, em 1958, com um “X” substituindo um nome próprio e alguns parágrafos omitidos, sem o aviso de que fora feita uma edição. Os trechos, então revelados,  estão riscados com caneta vermelha e não se sabe por quem.

Leia o trecho da carta:

Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim porque em toda vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialisão absolutamente desprezível duma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo pra minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu há de tê-lo bem catalogado e especificado, há de ter tudo normalizado em si, si é que posso me servir de “normalizar” neste caso. Tanto mais, Manu, que o ridículo dos socializadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruências e contradições em que caem. O caso de Maria não é típico? Me dão todos os vícios que por ignorância ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos e no entanto assim que fiz duma realidade penosa a “Maria”, não teve nenhum que caçoasse falando que aquilo era idealização para desencaminhar os que me acreditavam nem sei o que, mas todos falaram que era fulana de tal.

Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas. Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar, e me deixe ao menos pra você, com quem, apesar das delicadezas da nossa amizade, sou duma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num casos como este onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis.

Eis aí uns pensamentos jogados no papel sem conclusão nem sequencia, faça deles o que quiser.”

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