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Plano Municipal de Educação é o último dos reais interesses do fascismo brasileiro

O próprio discurso da ala conservadora e descaracterizada da Igreja Católica contra a PME de São Paulo revela os ideais golpista e fascista da direita brasileira

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Quem circula pelo espaço do debate político, em torno do Plano Municipal de Educação (PME) de São Paulo, com olhar e ouvidos mais atentos e apurados, pode perceber que o único debate que não interessa à ala fundamentalista, fascista e conservadora da Igreja Católica e Evangélica neopentecostal, juntos a liderança golpista da direita brasileira, é o debate do PME.

Em qualquer reportagem, ou notinha, da imprensa que um leitor comum pegue para observar a fala dos religiosos que protestavam na Câmara Municipal de São Paulo nesta última terça-feira, 11 de agosto, percebe o grande coro dos participantes; falas como: “ideologia de gênero” ou “querem destruir a família”.

A chamada de atenção foi quando, em um determinado momento, foram enumerados pontos gerais que o PME se pretende como meta a ser cumprida para os próximos 10 anos do Município e não faltaram palmas dos próprios cristãos presentes, que até então exaltavam falas contra o próprio projeto.

Pontos como: diminuição da quantidade de alunos por sala; valorização dos/as professores/as; aumento do número de vagas; universalização do Ensino Fundamental; e o aumento do orçamento para a Educação.

Ou seja, o debate pautado pela ala golpista que manipula seus fiéis eleitores não é, de fato, o PME. Fica transparente, não só o desconhecimento da massa reprodutora do discurso golpista, mas também a consciência da importância da força da igreja neste atual cenário brasileiro. Vale lembrar que no próximo domingo, 16, estão programadas manifestações contra o Governo por todo o País.

A unidade

Não é só a unidade do discurso repetido rigorosa e exaustivamente por todos favoráveis ao retrocesso e golpe que revela o desconhecimento; e ao mesmo tempo a consciência; da face fascista, machista, racista e lgbtfóbica do setor mais conservador da Igreja Católica e dos protestantes evangélicos neopentecostais.

Os principais traços do fundamentalismo e fascismo vão destes a monocromia da vestimenta (branco), em forma de uniforme, até suas atitudes comportamentais quase que sincronizadas de tamanha organização estruturada. Ou seja, do lado direito da Câmara Municipal, assim como na Revolução Francesa, estava presente um bloco representando um único ideal, uma única ideologia, uma plataforma e plano político estrategicamente definido e que não dialoga com qualquer outra visão de mundo.

Bem diferente do lado esquerdo da galeria da mesma Câmara, onde estavam presentes as mais diversas vertentes de lutas, militâncias, organizações e grupos. Mulheres, negros/as, lésbicas, homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais, comunistas, socialistas, trotskistas, marxistas, apartidários, trabalhadores, empresários, acadêmicos… Do lado esquerdo da Câmara era possível observar um aprofundamento do entendimento do PME e da sua importância para a Educação.

Estado Laico e um pouco de História sem papo clichê

Assistir a chegada de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida à Câmara pode assustar aqueles que têm o mínimo de consciência política. Afinal, se espera que nosso Estado seja Laico. Mesmo que dentro da própria arena política, na “casa do povo” já existe um crucifixo sobre a cabeça dos vereadores.

A questão que deve ser posta é: o que significa um Estado Laico? Em qual contexto este ideal foi fundado? E não cabe nesta discussão usar como base a definição de Estado Laico dada pela Constituição Brasileira, mas fazer um resgate histórico.

Durante os séculos V e XV a Europa viveu sob domínio do Cristianismo e seu apogeu feudal até o a decadência do Vaticano sobre a nobreza e burguesia que, irritada em pagar seus títulos terrenos e lotes no paraíso, começam um movimento reformista. É neste período que surgem, em vários pontos do Velho Continente, as intrigas com a sede católica. Nascem, por exemplo, na Inglaterra, a Igreja Anglicana; e na Rússia, a Igreja Ortodoxa Russa.

Por mais que os ricos – não à toa que a base protestante, assim como a mais conservadora da Igreja Católica, dialoga com o neoliberalismo atual (quanto mais acúmulo de capital e bens, mais próximo você estará de Deus) – estivessem economicamente se desvinculando das rédeas papais, o Vaticano persistia no poder político. Para acabar com isso, aproveitando o enfraquecimento dos católicos na Europa, o movimento reformista cristão é sustentado por uma ‘laicidade’ do Estado, ou seja, a suposta separação entre Estado e Igreja. Sendo mais claro, nas entrelinhas os reformistas reivindicaram seu espaço na política promovendo uma ideologia laica.

Avançando no tempo, podemos perceber que durante 400 anos, no Brasil, a única religião aceita e legal no País foi o Catolicismo, ou seja, de 1500 até 1889. Afinal, era necessária tal vigília com mãos de ferro do Vaticano sobre suas novas propriedades impedindo o avanço reformista por aqui.

Neste contexto, o Estado Laico garante, ainda no século XXI, não a diversidade e seguridade das mais diversas religiões como as ameríndias e raízes africanas; o que é garantido é a “diversidade das teologias cristãs” no Estado. A pergunta fica no ar: Estado Laico para quem?

Convergências/cruzamentos

O Cristianismo no Ocidente atua de forma sistemática e infecciosa em diversas esferas. No campo político, pautando os congressos e parlamentos; no campo sociocultural, vide os principais feriados nacionais e outras datas festivas; no campo econômico, quando reveza suas teologias de acordo com o cenário socioeconômico; no campo dos afetos, determinando relações que são aceitáveis dentro das relações sociais, os corpos que são marginalizados e rebeldes, daqueles que seguem a cartilha e no campo institucional, quando as próprias igrejas administram tais locais; no campo jurídico, quando são discutidas questões como aborto e diminuição da maioridade penal; e no campo étnico, veja a situação da África; só para citar algumas convergências.

Não há como, no terceiro milênio, tratar a ideologia religiosa cristã como um tema de fórum privado e íntimo. O Cristianismo, nas suas mais variadas formas e estruturas está presente desde as pequenas narrativas do cotidiano corriqueiro até nos grandes discursos fascistas, misóginos, lgbtfóbicos, racistas, neoliberais e de ‘globalização’.

Será que alguém chegou a ler até aqui?

Tratar o PME apenas como um plano que pretende discutir uma suposta (e inexistente) ‘ideologia de gênero’ e tratar aqueles que reproduzem o discurso cristão contra as políticas públicas que visam garantir a cidadania para grupos violentados pelo Estado como desconhecedores é deixar de lado todo um contexto histórico que merece, constantemente, ser revisitado.

Existe desconhecimento e despreparo político por parte desta grande massa religiosa que sustenta o neoliberalismo e todas as mazelas sociais do País? Existe. Mas do mesmo modo, também existe uma unidade consciente da massa que sabe o que tem nas mãos. Além uma unidade mediadora do discurso conservador e fundamentalista que entende e domina as mais diferentes convergências que a cosmologia cristã permite fazer com os diferentes campos sociais do ser humano ocidental.

Estratégia

O Cristianismo não é ator de um monólogo nesta grande encenação sócio-participativa que vivemos na atualidade. Ou seja, ele não é o único que deve ser vaiado quando as cortinas se fecham.

O quero dizer é que existem diversas mediações em diferentes pontos da sociedade onde a religião, neste caso, é o ator que aparece em cena. Mas para um espetáculo acontecer é preciso ter uma produção, direção, dramaturgo, bilheteiro, propagandista, chapelaria, iluminador, sonoplastia, patrocinador, plateia pagante…

É preciso compreender que as igrejas, atualmente, funcionam como uma grande rede que conecta e sustenta um projeto bastante corrosivo ao Brasil e sua população, principalmente aquela marginalizada diariamente.

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