Cafezinho

Um cafezinho com Suzane Jardim para falar sobre racismo e mídia

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Suzane Jardim, 25 anos, é formada em História pela USP e atua como pesquisadora na área com foco em dinâmicas e representações raciais. Ela realiza uma série de trabalhos em escolas públicas e outras instituições, geralmente dando aulas e palestrando sobre trajetórias do povo negro, racismo institucional, acesso às universidades públicas. Suzane está entre as colaboradoras voluntárias para fazer acontecer a ideia do jornalista Iran Giusti, a Casa 1, oferecendo  um workshop sobre a  Estereótipos Racistas na Mídia. O tema é importante e então resolvi tomar um cafezinho com ela aqui no blogue para conversamos mais sobre mídia, racismo e representações raciais. Ah! Não esquece de curtir a pagina do Blogue lá no Facebook também.

Quando falamos em mídia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a imprensa tradicional. Mas mídia é um pouco mais amplo e abarca aí, a publicidade e propaganda e as redes sociais, para citar algumas. Os estereótipos racistas mudam de forma, ou de modos, de acordo com o formato da mídia?
Como costumo dizer em minhas aulas, estereótipos são um arsenal de pré-concepções mentais criadas e compartilhadas por toda uma comunidade. Todo ser humano estereotipa o tempo todo, porém alguns estereótipos são instrumentalizados pela política, pela mídia e pela propaganda para fortalecer o discurso de certas opressões institucionalizadas, com o é o caso da estereotipação do povo negro. Partindo disso, posso dizer que todos os veículos de mídia compartilham do mesmo arsenal mental de estereótipos racistas – o que muda de fato é o uso e a aceitação que se tem em diferentes mídias desses usos. Muita coisa que é disseminada na TV aberta sem problema algum não passaria do mesmo modo em uma propaganda veiculada na internet, assim como em certos espaços das redes sociais (páginas de humor e afins) estereótipos racistas causam um riso que provavelmente não apareceria se estivessem em uma revista política impressa. Creio que os diferentes usos desses estereótipos vária conforme o público e o espaço.

Infelizmente, no jornalismo, assim como em diversas outras áreas profissionais e do saber, há poucos negros. Estas práticas racistas podem ocorrer por esta falta de representatividade dentro do jornalismo?
Tenho certo pé atrás em dar uma resposta completamente positiva a essa pergunta pois considero que nem todas as pessoas negras estão de fato interessadas nesse tipo de discussão. Pessoas negras não nascem já sabendo e militando contra a opressão, compreende? Creio, sinceramente, que as praticas racistas que ocorrem atualmente dentro do jornalismo são muito mais um retrato óbvio do quanto os profissionais da área não estão preparados para lidar com a diversidade nacional e do quanto os cursos de jornalismo e comunicação não se preocupam em discutir esse tipo de questão. Os profissionais se formam sem o mínimo de debate sobre o assunto e tendem a repetir padrões racistas que nunca foram questionados e que muitas vezes criaram raízes nas mentalidades – e isso não ocorre apenas no jornalismo, é uma tendência geral em vários campos de estudo. A presença de jornalistas ou demais profissionais negros nesses espaços poderia criar uma nova sensibilidade, mas partindo do princípio que esses profissionais negros também tenham um compromisso com a luta anti-racista, caso ao contrário, vira apenas representatividade vazia.

Li, recentemente, uma postagem no perfil de Jéssica Ipólito no Facebook, uma afirmação que me trouxe reflexões. Ela diz que representatividade é importante, mas não é tudo. De imediato me veio a eleição do vereador negro e gay para a Câmara Municipal de São Paulo. Embora há representatividade em seu fenótipo (é certo dizer assim?) e em sua orientação sexual, ele ainda carrega um discurso bastante conservador, inclusive contra políticas públicas para grupos no qual ele mesmo pertence. Quais são os desafios dentro da própria militância para formação de base. Entender as obrigações e funções do Estado, o que é política pública, e sobre a própria história do seu povo?
Concordo totalmente com a afirmação de que representatividade é importante, mas não é tudo. Como pesquisadora de estereótipos sempre penso muito nessa questão, principalmente porque, para mim, não adianta em nada uma marca, veículo de mídia ou a própria imprensa tradicional aparecer com uma preocupação repentina em representar o negro se os mesmos não tem nenhum compromisso com a população negra e colaboram com a precarização dessa população em outros espaços (que é o caso de marcas que podem usar o negro em seus comerciais enquanto ainda sucateiam a mão de obra negra em suas fábricas). Creio que o efeito psicológico que a representatividade positiva causa no negro é importante, porém muitas vezes as marcas usam desse trunfo para manter bons níveis de lucro e conquistar um novo público consumidor, mantendo sem questionamento a máxima de que no capitalismo não existe riqueza sem de a miséria. Fernando Holiday é um grande exemplo do que citei na pergunta anterior – uma pessoa negra sem compromisso com a luta anti-racista e que por isso não dialoga com toda uma população na subalternidade. Creio que ele não é um fenômeno isolado – negros, como seres humanos complexos, são capazes de ter diferentes ideologias e diferentes concepções de mundo – por isso mesmo, não é todo negro que tem uma performance que de fato é representativa. Quanto à militância e seus desafios, creio que assim como em todos os outros setores da luta política e social, não existe apenas uma militância negra – são diferentes militâncias, cada qual com suas concepções de mundo, de economia, de história e afins. Creio que atualmente a principal dificuldade é manter o diálogo entre esses diferentes setores pois por mais que tenhamos um objetivo comum, há diversas discordâncias quanto aos métodos para chegarmos a ele.

O PEC 241 acabou de ser aprovada em segunda votação na Câmara dos Deputados. Se aprovado no Senado, também em duas votações, os investimentos em programas sociais importantes na área da Educação, Saúde, Segurança Pública e tantas outras estarão em jogo. Os primeiros afetados serão os pobres e negros. Qual é o seu olhar sobre este avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo?
Hahahah Nelson, mas o modo que tu formulou essa pergunta me deixa sem ter o que responder, afinal você já falou tudo. “Os primeiros afetados serão os pobres e negros.” e “avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo” – o juízo da questão já está posto, só me resta concordar. Quer reformular a pergunta ou tentar fazer outra, talvez?

A cada 23 horas, no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pelo Senado sobre a violência contra jovens aponta que um jovem negro/negra é morto. Vendo esses dados, como é possível combater o discurso daqueles que dizem que movimentos como de negros, mulheres e LGBT se colocam como vítimas da sociedade?
Eu combato o discurso do “vitimismo” com estudo e apresentação de dados como esse que você citou. Sou educadora e o meu trabalho é ensinar o público jovem, principalmente o periférico, sobre todas as nuances históricas e sociais que fizeram dessa uma sociedade nociva para negros, mulheres e LGBTs. A questão é de jogar essa verdade ao mundo até que a situação mude. Não é um problema denunciar vítimas quando existe de fato um Estado agressor. E é essa nuance que tento fazer ser entendida através do meu trabalho.

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