Bandeira, bem-estar

O último trago

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Dia 9 de janeiro de 2017, às 23h40. Assim como um condenado no corredor da morte que pede sua última refeição, quando vi o último cigarro no maço, fui à cozinha para meu café ‘nicotinado’.

Peguei a cafeteira italiana made in China e preparei uma xícara grande de café do melhor pó que meus últimos putos na conta bancária poderiam comprar neste mês de janeiro. Diferente do condenado que caminha pelo corredor da morte após sua refeição, minha xícara de café com cigarro é para uma vida mais saudável.

Liguei para minha mãe. Vou fumar parar de fumar. Falo com ela, às onze e pico da madrugada. Ela fala baixo comigo, da sala do asilo que trabalha.

Enquanto isso, mexo nos sete maços vazios acumulados em minha escrivaninha. Acho mais um cigarro perdido. Que merda, ajuda destino! Ela ri do outro lado. Melhor, ou pior, poderia fumar um do começo da xícara e outro até o último gole já quase gelado.

Lá fora chove.

Está um calor da porra.

O ventilador assopra forte minhas pernas para que os pernilongos não ataquem tanto. O vento só aumenta o consumo da nicotina pela brasa. Subo o braço para o alto na tentativa de desviar do sopro da máquina. O último cigarro. Trago até toda a fuligem tóxica adentrar meu peito até os pulmões.

Largamente trago, ao máximo, tentando trazer o prazer do vício.

Fumei até então cerca de dois maços por dia. 40 cigarros. Quarenta cigarros por dia.

Já cheguei a pensar que a cada tragada não era só o cigarro e suas mais de quatro mil substâncias tóxicas que adentravam meu corpo até os pulmões, artérias, nervos e cérebro. Eu também era tragado por ele.

Maldito!

Olho para meus livros espalhados. Olho para o teclado. Olho para todos os espaços da mesa. Olho para o chão do quarto que tenho que limpar. Tudo a minha volta é como um grande cinzeiro. Eu sou um cinzeiro.

Levanto em direção à cozinha para devolver a xícara. Volto ao quarto e sinto o cheiro dos cigarros.

Lembro do primeiro trago.

Do primeiro, quantos até o último?

A boca saliva. Passo a mão esquerda por entre minhas coxas magras. Passo o polegar por entre os indicador e médio da mão direita. É lugar que, na última década, sempre esteve ocupado pelo falo que adianta a morte até ser reduzido em bituca.

Mas não mais.

Agora será só Depois do Último Trago.

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