‘Não curto afeminados’, diz a gay

Vamos começar essa conversa com um acordo: concordamos que a feminilidade, o feminino e a mulher não devem ser categorias utilizadas como sinônimos de características negativas tampouco como xingamentos contra qualquer pessoa.

Já estou beirando os trinta anos de idade. Pouco mais de um terço dessa viva foi vivido como uma bicha fora do armário, mas não significa que todo esse tempo fui uma ‘bicha segura de si’, e garanto para vocês: metade dessa insegurança está nas relações cotidianas — sabemos muito bem que vivemos numa sociedade misógina, racista, lgbtfóbica, machista, enfim, uma sociedade fóbica — e a outra metade dessa insegurança está justamente dentro dos espaços de socialização da própria ‘comunidade gay’.

Aparentemente, sem generalizar e tentando respeitar aquelas mais conscientes do tamanho do buraco que estamos enfiadas nesse processo todo, há uma grande quantidade de gays que não estão refletindo muito sobre o que significa colocar em perfis para relacionamentos de aplicativos digitais: ‘não curto afeminados’.

Vamos por partes, ao convite para essa reflexão. É sabido, por muitos de nós, que no campo das relações cotidianas, em toda nossa trajetória de vida, vira e mexe nossa masculinidade é posta à prova para validez. Na escola, ainda no Ensino Fundamental a primeira abjeção que me apontavam e apontavam às outras crianças com ações não heterossexuais masculinas era justamente aquilo que me fixava como menos ‘menino’, para isso, não faltavam os adjetivos e dedos apontados gritando: ‘você age como mulherzinha’, ‘lá vem a menininha’, ou ‘fale que nem homem, para com esse trejeito de mulher’. Acredito que muitos podem concordar comigo e, inclusive, compartilhar essas histórias nos comentários caso sinta à vontade.

Foi no Ensino Médio, quando iniciamos nossa entrada na adolescência, que os xingamentos foram ficando mais elaborados: ‘bicha’, ‘viado’, ‘viadinho’, ‘baitola’ (adoro essa), ‘sentador de quibe’ (quem dera se aos treze anos de idade eu já houvesse tantos quibes à disposição) e também havia o ‘gayzinho’.

É interessante observar que, dentro da estrutura heteronormativa e cisnormativa (palavras pesadas), a mulher e o feminino são tão subalternizados que ganham o valor negativo quando colocadas compulsoriamente no corpo masculino e assim criar outras categorias de homens: daqueles que estão dentro da norma até aqueles que estão na outra ponta da margem.

Crescemos e alguns conseguem sobreviver contra esse combo de violências que inclui desde o xingamento verbal, o preconceito abstrato e tímido até a agressão física (da surra em praça pública até o assassinato).

Quando já grandinhos (às vezes nem tanto assim) começamos a nos reconhecer, a nos encontrar, a compartilhar nossas vivências e é aí que o bicho pega. Não sei se todos sabem, mas a palavra ‘gay’ era utilizada de modo pejorativo, até meados do século passado, contra homossexuais. ‘Gay’ significa ‘pessoa feliz’ em inglês. Com a historicidade dos movimentos gays percebe-se que ressignificamos o sentido dela e começamos a gritar aos sete ventos: “SIM! SOU GAY!”.

Hoje em dia, o que era uma ofensa virou sinônimo de pride (orgulho).

Posso estar bastante errado, mas, com o avanço dos movimentos identitários, talvez, em um possível diálogo com alguns feminismos (muitas virgulas, não? Desculpa), muitas bichas (ma.ra.vi.lho.sas #amo/sou) começaram a ressignificar esse feminino que sempre foi dado como pejorativo e dar um valor positivo sobre ele.

Ou seja, o que estou querendo dizer é: mais ou menos o que rolou com o termo ‘gay’ começa a rolar não mais apenas com uma palavra (afeminada), mas também com o seu próprio significado e seus atravessamentos neste corpo masculino, de homem, e que se relaciona com outro homem. Deixa aí no comentário o que você acha disso.

Mas é claro que este movimento não seria homogêneo. Algumas pessoas ficam de fora desse processo todo, por muitas questões, e aí chegam na vida adulta, longe de casa, tendo que pagar conta de água, luz, gás, condomínio, aluguel, parcela do carro… e aí a vida amorosa fica um pouco de lado — de lado não, escondidinha nos guetos sem tanta luz — e nesse corre todo há uma possibilidade, um caminho muito fácil (ou nem tanto assim), de poder apenas reproduzir o que as relações sociais nos atravessam e não ter tantos problemas como quando tinham na infância e adolescência. Abre-se um perfil no aplicativo de pegação, tira uma foto do abdômen?, ou seria do mamilo?, ou seria do peito peludo?, não, só dos pês mesmo? E aí na descrição, não vale as coisas positivas que tem e que procura em uma pessoa, tudo o que se quer é continuar bem longe de tudo, mas ainda sim gozando: “Não curto afeminados”.

Ninguém é obrigado desejar todos os corpos, mas é importante entender que muitos dos nossos gostos são reflexos de nossas trajetórias e como essas normativas de como devemos nos comportar e com que devemos nos relacionar nos atravessam.

Dizer que não curte ‘afeminado’ só demonstra o quanto a masculinidade é tão frágil e o quanto os ‘afeminados’ tão seguras de si sendo bicha, homem e ‘afeminada’.

PS.: Sobre a origem da palavra bai.to.la. Havia, no Ceará, um engenheiro ferroviário proveniente da Inglaterra que era reconhecidamente homossexual. Ele era chamado de Mr. Hull — nome de uma das mais importantes avenidas de Fortaleza (CE). Como o Mr. Hull era inglês, ele pronunciava o espaço entre os trilhos, que em português se chama bitola, de “báitóla”. Então, ao se aproximar dos funcionários da estrada de ferro, sua chegada era anunciada pelos colegas: “Lá vem o baitola!”.

Imagem em destaque: Gavin Butt – I wanna be an artist, still
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Um comentário em “‘Não curto afeminados’, diz a gay”

  1. Interessante pensar também, para além da questão em torno do “não sou, não curto afeminados”, sobre a questão “não curto”. As imagens que você usa evidenciam, basicamente, três categorias: velhos, gordos e afeminados. Todas, obviamente, construções sociais distintas, pero no mucho. O padrão, o homogêneo, o militar, o musculoso, o macho, o masculino são construções realizadas desde sempre em torno do nosso eu ideal (a maneira como eu imagino aquilo que o outro espera de mim) para que eu me identifique com isso e não com outra forma de ser. Identificado, eu vou buscar simbolizar através do meu ideal de eu (como eu devo ser para poder desejar aquilo com que me identifico, para ser amado) a substituição daquilo que eu não posso desejar para aquilo que eu posso desejar. Esse posso é no sentido ideológico de poder mesmo. Há um externo que nos interpela, que nos (des)autoriza. Entendido isso, sua construção sobre por que o ataque ao afeminado se dá, faz todo o sentido. Minha única discordância é que, por vezes, pareceu um pouco casual, no sentido de acaso, como se a correria do cotidiano e a necessidade de praticidade na vida amorosa, fossem uma desculpa pra isso. Penso eu, serem construções psíquicas mais longas do que uma simples praticidade em torno de relações permeadas por atravessamentos. Mas acho que é preciso pensar também nos porquês em torno de gordos e velhos. Por quê?

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