Memória. Foi com Caio F. Abreu que descobri: gostava de meninos

Ainda estávamos na primeira década do segundo milênio. Naquele ano, não me lembro qual – acho que 2000 ou 2001 – a internet discada foi virando passado com a chegada do moldem dsl e a gente já começava a ter acesso livre ao mundo da web durante o dia. Um dia, acessando o Uol o impacto foi inevitável: havia uma aba no canto esquerdo do portal com uma palavra de três letras – G.A.Y.

Eu não passava dos doze anos de idade. Meu coração palpitou forte, o que será que há neste link? A pergunta se repetia em um looping frenético. Quero! Quero! Quero! Mas, querer não é poder. Principalmente quando você não é assumido para os pais, sua mãe está rodando pela casa e seu pai pode chegar a qualquer hora do trabalho, na verdade você nem sabe muito bem o que é. Triste tradicional família brasileira.

Eu precisava aguardar eles irem dormir. Teria a sala só para mim. Era só apertar o botão que liga a CPU bem devagarinho para eles não ouvirem o clique e aí matar a curiosidade – ou melhor, acalmar os hormônios.

O Jornal Nacional nunca foi tão longo. A novela que seguia também. Nossa, o filme da Tela Quente será um máximo!, meu pai ensaiava ficar acordado até o filme acabar, lá pelas tantas da madruga. Não! Não! Não! Eu berrava por dentro.

O cansaço do trabalho fez com que ele resolvesse ir para cama antes mesmo da novela acabar. Agora era só esperar minha mãe ver o último bloco. Melhor eu fingir que vou para a cama primeiro que ela. Estico o braço, enceno um bocejo muito mal articulado. Vou dormir, mãe. O sono bateu. Ela achou estranho eu ir tão cedo para a cama, já vai? Deus te abençoe.

No quarto, eu só estava na miúda, tentando ouvir o momento que ela apertaria o botão que desliga a televisão. Naquela época os televisores ainda eram de tubo. Ao ligar e desligar o aparelho um estalo era feito pelo fusível.

Um silêncio completo pela casa. Tudo escuro. Lentamente abro a porta e nas pontas dos pês chego até a escrivaninha com o computador que está num canto da sala. Delicadamente aperto o botão que liga a velha CPU que faz um discreto clique. A tela do monitor de tubo – que ocupava mais da metade da mesa – começa a acender.

Na época, meu computador ainda era um Windows 98. Ele era iniciado pelo DOS (só os fortes sabem o que é isso – uma eternidade para ligar). No meio do caminho lembro que as caixinhas de som estão ligadas: Ai! Meu Deus! O som! O sistema da Microsoft fazia um barulhão ao iniciar. Em tempo, consigo desplugar os conectores.

Tudo em ordem, a internet começa a ser conectada. Demora para a home da UOL abrir. Até que aparece, lá no canto esquerdo a tentadora aba: G.A.Y.

Clico e um mundo se abre. Naquela madrugada acontecia a maior descoberta sobre minha própria pessoa. Até então eu só ouvia a palavra ‘gay’ como um xingamento, como era possível um palavrão ser uma aba na home de um site tão grande como o Uol? Eu me questionava, o que é ser gay, então? Eu pensava.

Eu queria saber de tudo. Tinha imagens, vídeos, textos… era uma Disney para meus olhos. Quantos homens! Vibrava por dentro e tremia de medo por fora. G Magazine, Mix Brasil (mal sabia eu que anos depois trabalharia para este portal ao lado de gente como Marcelo Cia, André Fischer e Hélio Filho), Garotos do Brasil, Pau Brasil (ops!). Tem um chat só para gay! Tem mais de mim! Eita, pera: Tem mais de mim?! É isso, sou gay mesmo?

Até que encontro uma chamada para um site chamado PortaCurtas. Era uma resenha de um curta-metragem chamado “Sargento Garcia”, dirigido por Tutti Gregianin.

Meu sargento
São quase cinco horas da manhã, logo mais meu pai vai acordar para tomar o café da manhã e ir trabalhar, às sete preciso estar em aula. Mas queria muito muito saber do que se tratava aquele curta-metragem.

Então, depois de longos minutos o curta começa a rodar, boto os fones:

 

Nunca mais fui o mesmo. Foi com Caio F. Abreu que descobri do gostava: meninos.

“Que queres tu de mim?
Que fazes junto a mim?
Se tudo está perdido, amor.
Tira a roupa.
Então que culpa tenho eu?
Se até o pranto que chorei por ti não sei.
Que mais me tens a dar?
Que mais me podes dar?
A marca de uma nova dor.
Se até o pranto que chorei
Se foi por ti não sei.”

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