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Um cafezinho com Suzane Jardim para falar sobre racismo e mídia

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Suzane Jardim, 25 anos, é formada em História pela USP e atua como pesquisadora na área com foco em dinâmicas e representações raciais. Ela realiza uma série de trabalhos em escolas públicas e outras instituições, geralmente dando aulas e palestrando sobre trajetórias do povo negro, racismo institucional, acesso às universidades públicas. Suzane está entre as colaboradoras voluntárias para fazer acontecer a ideia do jornalista Iran Giusti, a Casa 1, oferecendo  um workshop sobre a  Estereótipos Racistas na Mídia. O tema é importante e então resolvi tomar um cafezinho com ela aqui no blogue para conversamos mais sobre mídia, racismo e representações raciais. Ah! Não esquece de curtir a pagina do Blogue lá no Facebook também.

Quando falamos em mídia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a imprensa tradicional. Mas mídia é um pouco mais amplo e abarca aí, a publicidade e propaganda e as redes sociais, para citar algumas. Os estereótipos racistas mudam de forma, ou de modos, de acordo com o formato da mídia?
Como costumo dizer em minhas aulas, estereótipos são um arsenal de pré-concepções mentais criadas e compartilhadas por toda uma comunidade. Todo ser humano estereotipa o tempo todo, porém alguns estereótipos são instrumentalizados pela política, pela mídia e pela propaganda para fortalecer o discurso de certas opressões institucionalizadas, com o é o caso da estereotipação do povo negro. Partindo disso, posso dizer que todos os veículos de mídia compartilham do mesmo arsenal mental de estereótipos racistas – o que muda de fato é o uso e a aceitação que se tem em diferentes mídias desses usos. Muita coisa que é disseminada na TV aberta sem problema algum não passaria do mesmo modo em uma propaganda veiculada na internet, assim como em certos espaços das redes sociais (páginas de humor e afins) estereótipos racistas causam um riso que provavelmente não apareceria se estivessem em uma revista política impressa. Creio que os diferentes usos desses estereótipos vária conforme o público e o espaço.

Infelizmente, no jornalismo, assim como em diversas outras áreas profissionais e do saber, há poucos negros. Estas práticas racistas podem ocorrer por esta falta de representatividade dentro do jornalismo?
Tenho certo pé atrás em dar uma resposta completamente positiva a essa pergunta pois considero que nem todas as pessoas negras estão de fato interessadas nesse tipo de discussão. Pessoas negras não nascem já sabendo e militando contra a opressão, compreende? Creio, sinceramente, que as praticas racistas que ocorrem atualmente dentro do jornalismo são muito mais um retrato óbvio do quanto os profissionais da área não estão preparados para lidar com a diversidade nacional e do quanto os cursos de jornalismo e comunicação não se preocupam em discutir esse tipo de questão. Os profissionais se formam sem o mínimo de debate sobre o assunto e tendem a repetir padrões racistas que nunca foram questionados e que muitas vezes criaram raízes nas mentalidades – e isso não ocorre apenas no jornalismo, é uma tendência geral em vários campos de estudo. A presença de jornalistas ou demais profissionais negros nesses espaços poderia criar uma nova sensibilidade, mas partindo do princípio que esses profissionais negros também tenham um compromisso com a luta anti-racista, caso ao contrário, vira apenas representatividade vazia.

Li, recentemente, uma postagem no perfil de Jéssica Ipólito no Facebook, uma afirmação que me trouxe reflexões. Ela diz que representatividade é importante, mas não é tudo. De imediato me veio a eleição do vereador negro e gay para a Câmara Municipal de São Paulo. Embora há representatividade em seu fenótipo (é certo dizer assim?) e em sua orientação sexual, ele ainda carrega um discurso bastante conservador, inclusive contra políticas públicas para grupos no qual ele mesmo pertence. Quais são os desafios dentro da própria militância para formação de base. Entender as obrigações e funções do Estado, o que é política pública, e sobre a própria história do seu povo?
Concordo totalmente com a afirmação de que representatividade é importante, mas não é tudo. Como pesquisadora de estereótipos sempre penso muito nessa questão, principalmente porque, para mim, não adianta em nada uma marca, veículo de mídia ou a própria imprensa tradicional aparecer com uma preocupação repentina em representar o negro se os mesmos não tem nenhum compromisso com a população negra e colaboram com a precarização dessa população em outros espaços (que é o caso de marcas que podem usar o negro em seus comerciais enquanto ainda sucateiam a mão de obra negra em suas fábricas). Creio que o efeito psicológico que a representatividade positiva causa no negro é importante, porém muitas vezes as marcas usam desse trunfo para manter bons níveis de lucro e conquistar um novo público consumidor, mantendo sem questionamento a máxima de que no capitalismo não existe riqueza sem de a miséria. Fernando Holiday é um grande exemplo do que citei na pergunta anterior – uma pessoa negra sem compromisso com a luta anti-racista e que por isso não dialoga com toda uma população na subalternidade. Creio que ele não é um fenômeno isolado – negros, como seres humanos complexos, são capazes de ter diferentes ideologias e diferentes concepções de mundo – por isso mesmo, não é todo negro que tem uma performance que de fato é representativa. Quanto à militância e seus desafios, creio que assim como em todos os outros setores da luta política e social, não existe apenas uma militância negra – são diferentes militâncias, cada qual com suas concepções de mundo, de economia, de história e afins. Creio que atualmente a principal dificuldade é manter o diálogo entre esses diferentes setores pois por mais que tenhamos um objetivo comum, há diversas discordâncias quanto aos métodos para chegarmos a ele.

O PEC 241 acabou de ser aprovada em segunda votação na Câmara dos Deputados. Se aprovado no Senado, também em duas votações, os investimentos em programas sociais importantes na área da Educação, Saúde, Segurança Pública e tantas outras estarão em jogo. Os primeiros afetados serão os pobres e negros. Qual é o seu olhar sobre este avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo?
Hahahah Nelson, mas o modo que tu formulou essa pergunta me deixa sem ter o que responder, afinal você já falou tudo. “Os primeiros afetados serão os pobres e negros.” e “avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo” – o juízo da questão já está posto, só me resta concordar. Quer reformular a pergunta ou tentar fazer outra, talvez?

A cada 23 horas, no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pelo Senado sobre a violência contra jovens aponta que um jovem negro/negra é morto. Vendo esses dados, como é possível combater o discurso daqueles que dizem que movimentos como de negros, mulheres e LGBT se colocam como vítimas da sociedade?
Eu combato o discurso do “vitimismo” com estudo e apresentação de dados como esse que você citou. Sou educadora e o meu trabalho é ensinar o público jovem, principalmente o periférico, sobre todas as nuances históricas e sociais que fizeram dessa uma sociedade nociva para negros, mulheres e LGBTs. A questão é de jogar essa verdade ao mundo até que a situação mude. Não é um problema denunciar vítimas quando existe de fato um Estado agressor. E é essa nuance que tento fazer ser entendida através do meu trabalho.

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Tomando um cafezinho com Hroðgar Hämäläinen

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Reprodução – Facebook

Transfeminista e queer finlandesa, Hroðgar Hämäläinen é considera uma das queer ativistas de respeito no Brasil. Possui graduação em Filosofia e Artes pela Universidade de Helsinki; mestrado em Filosofia pela Universidade de Reims, França; Doutoranda em Filosofia pela FFLCH/USP. Com ampla produção artística no Brasil e no exterior. E é pesquisadora colaboradora do Suomen Queer-tutkimuksen Seura (Sociedade de Estudos Queer da Finlândia).

Então, carxs leitorxs, sinta-se convidadxs para o nosso cafezinho. Açúcar ou adoçante?

O que é a Teoria Queer?

A Teoria Queer é um amplo campo de estudos interdisciplinares que enseja analisar e explicitar, através do método genealógico, os diversos dispositivos (saberes, discursos, instituições) que constituem e solidificam, mantém, dissolvem e, sobretudo, estigmatizam identidades e/ou subjetividades.

Originária como alternativa aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais, a Teoria Queer direciona seu olhar nos conhecimentos/saberes que organizam ontologicamente o todo social em pretensas categorias universais de gênero e sexualidade. Ela se preocupa com a construção de identidades no interior de redes microscópicas de poder/saber.

Tributária de correntes filosóficas que descentraliza, desconstrói e subverte noções clássicas de sujeito, consciência, linguagem, verdade e dualismos metafísicos, este campo vai se estruturar em uma recusa radical de estruturas ontológicas. Sendo assim, é Nietzsche quem vemos preparar o solo para que Foucault, Deleuze e Derrida possam desenvolver suas reflexões e servirem de bases para os teóricos queers.

Mas não é só da filosofia que se compõe este corpo queer. Os Estudos Culturais norte-americano , o Pós-Estruturalismo francês e os estudos pós-coloniais são componentes fundamentais para sua corporificação.

A Teoria Queer não é o estudo das minorias, mas dos diversos dispositivos, saberes, poderes que criam dualismos identitários, logo, totalmente diversa do que se fazia outrora nos estudos sociológicos.

Marca fundamental, queer é um termo que, num dado momento da história, foi usado para oprimir, ofender; doravante, signo de empoderamento visando assim demarcar àqueles que não se permitem sujeito aos diversos dispositivos de normatização.

Não obstante, a Teoria Queer foca nas identidades e performances que vão alem de um pretenso e quimérico binarismo. Dai seu olhar nas subversões de pessoas transgêneras, transexuais, travestis, drag e etc.

É importante salientar que não há consenso entre os teóricos ao que seja uma Teoria Queer efetiva. Seu fazer-se é múltiplo assim como seus “objetos” de análise.

Como se deu o teu contato com a teoria e prática queer?

 Bom, a Finlândia- e a Escandinávia como um todo- há muito vem discutindo e problematizando noções clássicas e binárias de gênero. Enamorada com o flerte entre a sócio-construção e o ideal pedagógico de empoderamento e eqüidade entre sujeitos, a Finlândia tem se esforçado em promover a pesquisa e pratica do que hoje poderíamos chamar de uma pedagogia queer. Nesse sentido, encontra-se escola onde papéis sexuais e de gênero não são territórios forçadamente reconhecíveis, outrossim , há  sua completa dissolução. Tarefas ditas masculinas e femininas perdem seu caráter organizador e territorializado. Todos executam as mesmas tarefas sem pretensão idéias absurdas de “isto é coisa de menino e isto é de menina”.

Soma-se a isto o fato de que lingua finlandesa não tem gênero, logo a  estruturação lógico gramatical permite uma certa indefinição enunciativa e, como já havia dito, performativa. Nunca sofri preconceito por ir à escola de saia, por exemplo. Tampouco era forçada a me narrar dentro de estruturas logico-gramaticais fortemente binarista onde um termo é subjugado por um outro dominante.

No ambiente familiar em muito me ajudou o fato de eu ter uma avó feminista e acadêmica. Foi com ela que tive meu primeiro contato com obras feministas escritas fora da Finlândia. Simone de Beauvoir era , portanto, minha serie” vaga lume finlandesa. “

Criada num ambiente como este, não pude me deixar convencer pelas grandes metanarrativas de representação e enunciação binárias de gênero. Era-me- e ainda o é- sufocante a ideia de ser um homem, uma mulher ou um terceiro gênero. Mais ainda, é-me inaceitável tomá-los como universal. Se temos uma obsessão ocidental pelo Ser. Minha cultura, com sua estruturação gramatical, mostra-me possibilidades outras de ser/estar e me narrar no mundo. Possibilidades estas que nada tem a ver com IDENTIFICAÇÃO, mas sim com CRIAÇÃO/DESTRUIÇÃO CONTINUA DE SI.

No segundo ciclo, equivalente ao ensino médio brasileiro, iniciei o meu, digamos, caso amoroso com Nietzsche e Antonin Artaud. De Nietzsche, a suspeita sobre o ser e a hipótese libertadora do Ūbermensch colocou-me no umbral da experimentação. De Artaud, o conceito de Corpo sem Orgãos perseguiu-me a adolescência.

Sob suas idéias, coloquei-me como obra de arte de mim mesma para além dos diversos dispositivos normatizadores.

Minha adolescência foi uma fase onde explorei ao maximo a pergunta “O que pode um corpo?”. Cumpre ressaltar que , nesta época, eu não havia tido contato com Butler, Preciato, Bourcier.  Minha base era única e exclusivamente   Nietzsche e Artaud.

 Findo este alegre introito da e na vida, ingressei na graduação em Filosofia e Artes na Helsingin Yliopisto (Universidade de Helsinki). No departamento de Artes, fui apresentada ao Artivismo e ao Body Performance. As reflexões da adolescente começam, aqui, a ganhar corporeidade no exato momento em que é o corpo, ele mesmo, ė desconstruído. No departamento de Filosofia, os estudos pos estruturalistas deram-me bases solidas para minha reflexão queer. Não obstante, frequentei as aulas de sociolinguística, psicologia social e esquizoanalise. Nesta profícua interdisciplinaridade a que um estudante  é convidado tão logo ingressa em qualquer sistema educacional finlandês, explorei muitos áreas do conhecimento sobre um mesmo fenômeno. Mal sabia que isto seria fundamental para meu olhar queer. E foi ai que conheci a obra de Judith Butler, Joan Scott, Beatriz Preciado (Paul Beatriz), Marie-Helene Bourcier entre outros.

Entrar em contato com suas obras possibilitou-me experiências corpóreas e intelectuais diversas. Se lá na adolescência foi Nietzsche e Artaud, quem me deu bases para um cuidado de si, na graduação foram estas quatro teóricas que me fodiam. E que foda, hein?! Datam desta época a minha primeira tentativa de tomar hormônios. O medo fora maior e mais forte. Mas a reflexão e os experimentos no pensamento e no corpo eram mais e mais fortes.

Mas ai, como todo acadêmico, tive que fazer uma escolha entre meus objetos de estudos. Era-me exigido uma dissertação para me formar e, como tal, era necessário trabalhar apenas sobre um destes grandes pensadores. O  dilema personificou-se: Nietzsche ou os teóricos queer?

Por fim, foi Nietzsche quem venceu. É ele quem sempre vence em mim. (risos).

Ao terminar a graduação, problemas familiares forçavam-me a vir para o Brasil.

Mal havia botado meus pés devidamente calcados por lindas sandálias de salto e virei motivo de chacota, empurrões e ombradas. As mais abusivas violências verbais eu vivenciei. Os preconceitos que me eram estranhos se apresentaram á mim rapidamente.

Em que pese o aspecto negativo, tomo esta fase como fundamental para o meu empoderamento, afirmação enquanto pessoa trans e atuação política. Pode-se dizer: no inferno aprendi a rezar.

De lá para cá, morei na França, onde também sofri preconceito, para fazer meu mestrado em Filosofia. Ao retornar para o Brasil eu sofri o mais duro golpe: o preconceito institucional oriundo de acadêmicos. Ao explorar a estética dita andrógina  nua e sua representação fotográfica usando como pano de fundo um dos instrumentos musicais mais caros à tradição cristã: o órgão, sofri as mais severas reprimendas eclipsadas em admoestações meramente academicamente. Fruto de diversas maledicências, tornei-me persona non grata no meio musical erudito no Brasil. Professores, outrora tão amistosos, tornaram-se rivais, maledicentes; colegas músicos ofereceram-me o escárnio e pedras em formas de julgamentos.

O fato gerou-me experiências dolorosas que ate hoje sangram. Todavia, o ocorrido fez-me desembocar no Queer Artivismo.

Por Queer Artivismo entendo o fazer artísticos (seja qual for a linguagem artística) para dar visibilidade às inúmeras questões queer.

Hoje sou a pioneira na aplicação do Queer Artivismo na praxis da música erudita.

Como se vê, minha trajetória é uma mescla indefinível do pensar e do viver. Entre vida e pensamento não há distinção, outrossim, cópulas selvagens onde um faz o outro ranger os dentes de dor e prazer.

Quando a gente pensa na militância LGBTTI, em quais pontos o Queer dialoga e contrapõe?

Quando eu penso na militância LGBTTI, eu penso numa militância exclusivamente GAY HOMONORMATIVA ASSIMILACIONISTA. Não há espaço e voz das outras siglas se manifestarem. Todavia, falar em militância LGBTTI é ignorar pautas e demandas específicas que cada sigla advoga. Não obstante, dentro de cada sigla há mais uma infinidade de partículas organizacionais reivindicando pautas distintas, logo é difícil pensar a militância LGBTTI como uniforme.

A Teoria Queer se distancia da militância a partir do momento que se luta para a assimilação, ou seja, o entrar-se dentro da norma. Há um entendimento que estas demandas só visam reforçar as estruturas das quais se pretende desconstruir. Sua contraposição reside justamente em ir na contramão de qualquer proposta de assimilação. Seu ensinamento, um “contrato contrasexual” . (risos)

Existe um movimento queer no Brasil, ou ainda está limitado em pesquisas acadêmicas?

No Brasil, os estudos queer engatinham ainda. Sua inserção na academia ainda é anêmica e limitada aos estudos sociológicos.  Na filosofia, temos pouquíssimos trabalhos concluídos e uma forte resistência quanto ao seu , digamos , uso e estudo.

A práxis queer- que, por excelência, é um devir estratégico- ainda é limitada a um certo esteticismo, ou seja, é na fusão de objetos, roupas e adornos lidos como masculinos e femininos que se performa uma , digamos, estética queer.

Longe de compor um movimento com demandas claras e precisas, estes sujeitos ditos queer operam , a meu ver, uma nova performance tribal.

Cumpre dizer, o que se tem convencionado chamar de sujeito queer em muito se distancia do proposto lá na teoria.

Se na teoria visamos um sujeito queer que está em constante combate contra as diversas normatizações (subjetivas, de expressão, gosto e desejo) e, assim sendo, cria varias linhas de fuga e não se deixa modelar, na pratica vemos sujeitos mantendo referenciais sobre representação e formas de enunciação de gênero a- histórica, ontológica, essencialista. Ainda nessa linha, não ha uma desconstrução de si enquanto sujeito de desejo. Assiste-se assim o preterimento afetivo-sexual de biotipos que fogem às regras sob a absurda ideia de um gosto pré histórico, fixo. Nesse sentido, encontra-se muitos dos ditos queer preterindo afeto-sexualmente o gay afeminado, o obeso, o negro e se “prefere” o biotipo que está na ordem do dia. Hoje é o gay barbudo com estilo vintage.

Aliás, temos aqui alguns apontamentos para estudos queer sobre a atual práxis queer.

Quando penso na Teoria Queer, me vem à cabeça a luta contra as classificações tradicionais das identidades e orientações sexuais. E quando vejo o movimento LGBT brigando por protagonismo e não por ações afirmativas pró a nossa população, penso que o movimento Queer poderá colaborar para essa quebra. É isso?

A Teoria Queer não luta contra as formas tradicionais de classificação de gênero e sexualidade. Seu enfoque é nos diversos saberes/poderes que constituem identidades e diferenças. Pensar na teoria queer como luta contra as formas clássicas de classificação pressupõe, sub repticiamente, a possibilidade de uma nova forma de classificação mais adequada e não ha nada mais anti queer , usando as palavras de Beatiz Preciado, do que pensar num terceiro sexo/gênero, ou seja, numa nova forma de classificação mais adequada.

Continuando em torno das classificações tradicionais identidades e orientações sexuais, vale lembrar que muito dessa segregação está ligada à religião dominante. A religião é a principal barreira contra os queers?

Religião? Temos muitas ,não? Se pensarmos com Foucault, não. As classificações tradicionais remontam ao advento da sexologia e não com a religião. Colocar na conta da religião problemas macro estruturais é, a meu ver, resvalar num superficialismo enfadonho.

É possível um gay ou lésbica, trans ou bissexual se denominar Queer. Mesmo estando dentro dos atuais padrões de gênero?

Bom, pensar regras de como ser queer, quem pode ou não se narrar como tal é coisa para quem acredita em clube da Luluzinha.

Como podemos pensar em um movimento Queer não elitista, fora da academia? Ou seja, dentro do movimento LGBT nós temos uma classe social e étnica dominante, geralmente gay e branca de classe média.

 Mas o queer não pode ser elitista. É uma teoria que não é pensada em termos elitista, outrossim, totalmente dentro de mudanças de paradigmas sociais, políticos e culturais profundas. Não tem como pensar no queer proposto na teoria copulando com ideais elitistas. Isto é um absurdo!

Tenho a impressão que enquanto parte do movimento LGBT tenta “desconstruir” a heteronormatividade, o movimento Queer busca “libertar” o indivíduo dos padrões tradicionais. É isso?

 De certa forma, sim. O sujeito se empodera ao se desconstruir de multiplas normas que lhe são impostas a todo momento acaba por trazer a tona praticas e reflexões que , de um jeito muito salutar, pode acabar empoderando outras pessoas.

O que você acredita que falta para o Brasil avançar no conceito proposto pela Teoria Queer?

De mais estudiosos (risos). Arromba-se muitas portas abertas; divulga-se trabalhos feitos no EUA, mas quase não se tem produção genuinamente brasileira. Isto se deve, é claro, ao próprio hermetismo da academia.

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No cassetete do Estado: Livro que chega às livrarias do País conta história dos LGBT durante a Ditadura

A opressão do Estado Militar brasileiro, no período de 1964 até 1985, passa longe de apenas um golpe de estado e a luta sangrenta entre os pensamentos de extrema direita contra o comunismo no Brasil. Foi durante este recente período em que o País passou que o papel de atuação de diferentes grupos sociais foi determinado por aqueles que ocuparam o poder de governo. Trabalhadores, negros, mulheres, pobres e também os gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Renan Quinalha, um dos organizadores do livro "Ditadura e Homossexualidades".

Renan Quinalha, um dos organizadores do livro “Ditadura e Homossexualidades”, que conversa com o Blog nesta entrevista

Muito há o que contar sobre qual era o cenário político e social em que homossexuais e transgêneros estavam inseridos nas duas décadas em que o Brasil viveu dentro de uma intensa nuvem de tempestade.

Para contar esta história, o Blog conversou com um dos organizadores, o advogado da Comissão da Verdade de SP Renan Quinalha, do livro “Ditadura e Homossexualidades”, junto com o professor e ativista James N. Green. O livro será lançado na próxima quinta-feira, 27 de novembro, na Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, nº94 no Centro de São Paulo. Confira:

Como surgiu o projeto de organizar um livro, junto com James Green, que abordasse o tema “Ditadura e Homossexualidades”?
O James já vem, há longa data, pesquisando a história da homossexualidade em nosso país e também temas relativos à luta contra a ditadura. Em meu mestrado e no meu doutorado, também tenho trabalhado a justiça de transição e a discussão em torno das articulações e tensões entre regime político autoritário e sexualidades. Dessa forma, quando James esteve no Brasil em novembro de 2012, fizemos uma audiência pública na Comissão da Verdade de SP, onde trabalho, para visibilizar, pela primeira vez de modo oficial, a repressão que a ditadura impôs sobre pessoas LGBT e também a resistência que estas empreenderam naquele momento. Depois fizemos uma audiência pública com a Comissão Nacional da Verdade, já em maio de 2013, no Memorial da Resistência em São Paulo, na qual apresentamos o projeto e as pesquisas prévias. Então podemos dizer que esse projeto é fruto do esforço coletivo dos/as pesquisadores/as que estavam, cada um/a em sua área do conhecimento e sua frente de militância, produzindo conhecimento e lutando por uma sociedade mais democrática e com mais respeito aos direitos humanos e à diversidade sexual. O que fizemos foi articular essas iniciativas que não estavam em diálogo mais próximo para influenciar, no contexto de diversas Comissões da Verdade em funcionamento em nosso país, o trabalho de memória e justiça em relação à ditadura, dando o merecido reconhecimento às diferentes formas de homossexualidades, como se dizia à época, e ao movimento LGBT, como se diz hoje.

Durante os estudos para o livro, como você enxergou a formação dos formatos regulares das sexualidades e quais seriam marginalizados e quais estariam no centro dos privilégios sociais?
A ditadura brasileira foi um regime político extremamente autoritário, inspirado pela Doutrina de Segurança Nacional, que justificava as violências do Estado por um discurso de combate aos que caracteriza como inimigo externo e interno. Institucionalizando visões médicas, religiosas e criminológicas conservadoras que já existiam no Brasil, a ditadura via a homossexualidade como um mal a ser extirpado, por degenerar a juventude brasileira e os valores da família tradicional. Além disso, a homossexualidade aparecia, segundo alguns militares, como uma estratégia dos esquerdistas e comunistas para enfraquecer o regime e sua moral.

As violências durante este período que o Brasil sofreu eram algo que estava dentro de um único pacote; ou não, o regime separava esta violência, por exemplo: comunistas eram de uma categoria (leia ameaça à ordem) diferente dos negros, que por sua vez eram diferentes dos LGBT, que, no entanto, eram vistos com diferença aos trabalhadores não registrados?
Em nosso país, a violência de Estado durante a ditadura atingiu proporções e níveis alarmantes. Temos de superar a visão de que apenas os militantes da resistência armada teriam sido vítimas da ditadura. Toda a sociedade brasileira sofreu com esse regime de exceção e, alguns setores tradicionalmente oprimidos, foram afetados de maneira particular nesse momento. Assim, diplomatas do Itamaraty foram cassados em 1969 pela “prática de homossexualismo” ou “incontinência pública escandalosa”. A orientação sexual de homossexuais foram colocadas nas fichas de registro e prontuários, demonstrando a discriminação no trabalho. Há documentos da repressão mostrando que vigiaram de perto encontros dos homossexuais durante o nascimento do movimento homossexual brasileiro ou mesmo “fichando” presos pela prática de “pederastia”. Travestis eram extorquidas e espancadas pelo delegado José Wilson Richetti no centro de São Paulo para a “higienização”, com respaldo da ditadura. Assim, nota-se que as pessoas LGBT eram também vistas como ameaças à ordem estabelecida pela identidade de gênero ou orientação sexual que expressavam nesse momento, demonstrando a importância desse olhar particular em relação à sexualidade no período.

O escritor e militante João Silvério Trevisan já afirmou, algumas vezes em entrevistas, que os LGBT não sofriam violência e repressão apenas do lado do Estado, durante a ditadura militar brasileira, também existia conflitos por parte da própria esquerda comunista e socialista. O livro aborda este tema?
João Silvério Trevisan foi um dos protagonistas do movimento homossexual brasileira, denunciando tanto a violência de Estado como de setores da própria esquerda e da direita nesse período. Os diversos agrupamentos políticos existentes nesse período, da direita à esquerda, não tinham ainda uma compreensão da questão LGBT minimamente afinada com o respeito aos direitos humanos e à diversidade. Isso levou muitos anos para acontecer e foi graças à atuação do movimento LGBT que foi possível mudar a visão desses outros atores políticos tradicionais. Essa questão não é foco do livro, que teve por objeto a violência de Estado, mas há artigos como o do James Green e o de Marisa Fernandes que tocam em alguns pontos dessa tensa relação entre a esquerda e as pessoas LGBT.

É citado por você e James, em um artigo no caderno Aliás, do O Estado de São Paulo que “houve também tolerância relativa de alguns setores às praticas homossexuais, contando que essas se mantivessem restritas a espaços bem demarcados: carnaval, lugares isolados de sociabilidade, profissões ‘delicadas’ ou ‘criativas’ para homens, bem como certos lugares reservados para mulheres masculinizadas”. Esta “demarcação” ainda existe, mesmo com a democratização do País?
Sim, a tolerância relativa de alguns setores a práticas homossexuais, desde que em guetos bem específicos e isolados, é uma marca que acompanha a história da homossexualidade em nosso país. No entanto, como foi durante os anos 50 e 60 que muitas mudanças importantes começaram a ocorrer, dentro e fora do país, no sentido de maior tolerância a comportamentos e experiências de sexualidades, a afirmação de espaços de sociabilidade LGBT coincide com o fechamento do regime político. Assim, essa tolerância não é fruto da ditadura, mas da efervescência do período anterior que teve impactos importantes na cultura e em outros esferas da vida social, como a sexualidade. Hoje a situação é ainda paradoxal, pois temos um mercado de consumo LGBT bastante desenvolvido nas grandes capitais e, ao mesmo tempo, enfrentamos uma situação de violência homofóbica em escala muito ampla. Ainda que não seja propagada essencialmente a partir dos órgãos de Estado, como chegou a ocorrer durante a ditadura, pode-se dizer, ainda hoje, que faltam políticas públicas decentes para o combate a esses preconceitos.

Somos um País esquizofrênico, quando o assunto é LGBT, visto que somos um dos primeiros países do mundo a descriminalizar a homossexualidade em seu código penal; um dos pioneiros no que diz respeito à despatologização da orientação sexual (mesmo que a transexualidade ainda é vista como transtorno sexual); e, ao mesmo tempo temos bancadas tão bem articuladas, formadas por militares e religiosos, para barrar o avanço de emancipação da cidadania dos LGBTs brasileiros?
A convivência entre o moderno e o atraso é uma marca da formação social brasileira. Esses dois impulsos, um de conservação e outro de mudança, que deveriam se tensionar reciprocamente, muitas vezes foram acomodados na tradição da conciliação e da governabilidade que se faz presente na vida política brasileira. Isso faz com que tenhamos algumas políticas avançadas em alguns setores e um enorme atraso em relação a outros, nas diversas pautas, inclusive a LGBT. Assim, ainda há muito a ser feito do ponto de vista do reconhecimento da cidadania LGBT em nosso país e isso só será possível se tivermos a força política necessária para impor uma ruptura em relação a esses setores mais conservadores que estão incrustados no sistema político.

Você é advogado da Comissão da Verdade de SP. É divulgado que cerca de 200 militares poderão ser condenados pelos crimes cometidos durante o regime; por meio da Comissão que você trabalha, é possível que alguém seja responsabilizado por perseguição contra homossexuais e/ou transsexuais?
James e eu ajudamos a redigir, com base nessas pesquisas, o capítulo da Comissão da Verdade sobre a questão LGBT. Ali, inserimos recomendações como a responsabilização dos autores das violações de direitos humanos a LGBTs e também que fossem retirados os “restos” autoritários da legislação em relação a essa população historicamente marginalizada. Inclusive a criminalização da homofobia foi algo que tentamos fazer constar, resta ver como ficou a redação final desse capítulo.

Caso exista a possibilidade de condenar estes responsáveis, pode haver a abertura de alguma brecha na lei para a criminalização da homofobia, visto que se o acusado for condenado sob este prisma, logo seria consagrada a existência de tal crime?
O debate sobre a punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura ainda terá de ser feito no sistema de justiça, pois as comissões da verdade apenas poderão apontar os nomes, sem poder de punição. Isso caberá ao Ministério Público e ao Judiciário. Mas, sem dúvidas, se conseguirmos visibilizar e punir a homofobia do passado, certamente abriremos uma via para punir as homofobias do presente. Estão intimamente associadas.

Como o livro pode colaborar para a sociedade, e a população, compreender melhor as raízes homofóbicas e transfóbicas que o Brasil ainda carrega através da sua história?
Nossa preocupação sempre foi de organizar esse livro não como uma contribuição histórica apenas para a memória dos LGBT e do movimento no Brasil. Lembrar esse passado, para nós, é uma forma de agir no presente. Visibilizar e reconhecer o sofrimento imposto às pessoas LGBT permitem elaborar esse passado para que desenvolvamos mecanismos para que nunca mais se repitam no presente e no futuro. Somente enfrentando esse fantasma do passado, que ainda se faz tão presente, é que conseguiremos desnaturalizar as violências e alcançar uma sociedade mais justa, mais democrática e com mais diversidade sexual.

Entre os colaboradores do livro, além de James e Renan, estão Benjamin Cowan,  Jorge Caê Rodrigues, José Reinaldo Lopes, Luiz Gonzaga Morando Queiroz, Marisa Fernandes, Rafael Freitas  e Rita Colaço. O prefácio foi escrito por Carlos Fico. Há, ainda, no posfácio, as falas de Adriano Diogo (Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, Paulo S. Pinheiro(Comissão Nacional da Verdade) e Marcelo Araújo (Secretaria de Cultura de SP) na audiência pública sobre o tema realizada em maio de 2013.

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A crise dos 30 anos; ela pode ser superada

A crise da idade começa a perturbar qualquer pessoa. E tudo começa quando ela se sente ameaçada por outras pessoas mais jovens, que de certa forma, buscam oportunidades no campo profissional assim como ela, além de competir até no área do amor.

O psiquiatra Dr. Leonard F. Verea, ao Blog do Nelson Neto, explica alguns pontos importantes sobre como tratar essa crise. “Começam a aparecer problemas emocionais, inseguranças, angústias e depressões, que na maioria das vezes, levam à consequências mais graves. Então já se pode contar com a Hipnose Dinâmica, que vem para ajudar a superar todo e qualquer problema de ordem emocional, aliviando as tensões causadas por problemas no dia-a-dia”, explica Verea. 

Como se pode superar a crise quando se chega aos 30 anos?
Se pode recuperar a auto estima em uma Clínica Especializada, onde o tratamento é feito por meio da Hipnose Dinâmica com a ajuda de um profissional competente, e uma alternativa válida.  

E de que forma acontece?
O processo terapêutico desperta na mulher o desejo e a vontade dela voltar a se gostar, de se respeitar, de confiar novamente em seus princípios, resolvendo de certa forma suas crises interiores.

E o que a hipnose tem a haver no tratamento?
A Hipnose Dinâmica busca de uma forma natural, trabalhar o inconsciente da pessoa, afastando os “Fantasmas” das incertezas, das dúvidas, em que a auto estima é recuperada de forma segura, natural e eficiente e o mais importante é que todo o tratamento é feito sem nenhum tipo de medicamento.

A mente do paciente fica sob total controle do Terapeuta?
Não. A Hipnose Dinâmica vai buscar no inconsciente do paciente os problemas que geraram toda a angústia e temor, sem causar nenhuma perda de consciência, para que possam ser elaborados a nível consciente lógico e racional encontrando respostas e soluções.

Como superar a crise?
A paciente passa por um processo de amadurecimento, crescimento e evolução, facilitados pelo processo terapêutico, em que os sentimentos por culpa, rejeição, incapacidade, são superados e a pessoa começa acreditar mais em si mesmo, resgata sua confiança. 

Dr. Leonard F. Verea – médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, Itália. Especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Dinâmica. Especialista em Medicina do Trabalho e Medicina do Tráfego. É membro de entidades nacionais e internacionais. Atua também como diretor do Instituto Verea e da Unicap ministrando palestras e cursos em empresas.
www.verea.com.br

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Amor de Verão sobe a serra? Confira as dicas de um especialista no assunto

As férias chegaram, o Verão se instalou, a praia está logo ali no pé da serra e… de repente, pinta um romance novo. Com ele logo vem o ditado “amor de férias não sobe a serra” martelando na cabeça.

Mas não precisa ser assim. Pelo menos de acordo com o coaching amoroso André Beraldino que conversou com o Blog do Nelson Neto e dá dicas para você aproveitar o momento sem dor de cotovelo, quando o réveillon passar.

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O primeiro passo é não buscar o homem da sua vida em cada gato que passeia pela areia. E o lema é curtir sem cobranças ou promessas aquele boy caiçara, ou o coleta de turismo pela cidade que passa, lança Andé. Pense que até o fato de vocês precisarem ir embora pode ter um lado bom: as coisas podem acontecer de maneira muito intensa, com uma rapidez que talvez não rolasse numa situação normal. Voltar para casa e para rotina é uma das melhores maneiras de superar um amor de verão que não sobe a terra. Por isso, nada de lamentar se o romance não emplacar. A chance de o príncipe virar um sapo no fim das férias é grande . “Nas férias, as pessoas estão menos exigentes.

Foi bom enquanto durou

As férias já eram, chegou a hora de se despedir e fica a dúvida no ar: será que vai rolar um novo capítulo dessa história de verão ou ela simplesmente vai acabar assim, seja porque os dias de descanso terminaram, seja por causa da distância?

Só o tempo dirá. Mas nada impede que vocês mantenham o contato pelas redes sociais, e-mail ou telefone. Se não der namoro, quem sabe pinta um amigo. O importante é você saber que não perdeu nada. Ao contrário: viveu, foi feliz e curtiu uma história com começo, meio e fim e isso é superpositivo. E que venham as próximas férias!

Deixa o amor rolar

Divirta-se! – Tome cuidado para não se apaixonar perdidamente. Afinal, você corre o risco de não ser correspondida. Nas, férias, as pessoas querem mais é se divertir do que pensar em algo sério.

Seja Rápido – Infelizmente, férias não duram três meses… Então, se você achou aquele cara um gato, invista, pois na praia as coisas podem acontecer mais rapidamente. Pode ser a sua chance de aproveitar o romance por mais tempo.

+ Vinte e quatro horas de Rio; a cidade quase maravilhosa

Poupe a pele – Ficar vermelho porque não passou protetor solar pode transformar a hora do romance em pesadelo! Fuja desse mico, nada de camarão além do espetinho do quiosque, não é verdade?

Xô, tristeza! – Praia não é lugar para curtir deprê. Nada de ficar deprimida porque o bonitão te trocou por outra ou terá de voltar para cansa antes de você. Aproveite para conhecer outras pessoas.

Economize – Não passe os seus contatos antes de saber se ele é gente boa ou chato. Não importa se moram longe um do outro: o mala sempre pode te achar nas redes sociais e nunca mais desgrudar de você.

Sem ciúme – Se você vir o cara que achou incrível passar com outro boy na sua frente, nem pense em fazer um barraco, tá? Vocês ainda não têm nada.

Juliana Bonetti Simão – psicóloga especializada em sexualidade
www.julianabonetti.com.br

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Confira a entrevista com escritor de Águas Turvas

O escritor e jornalista Helder Caldera, 35 anos, conversou com o Mix sobre seu novo livro “Águas Turvas”, lançado em fevereiro deste ano. Colunista das revistas On e Leia ele já publicou três livros de não-ficção voltados para a área de Jornalismo e agora, pela editora Quatro Cantos, se aventura no mundo do romance com temática LGBT. Confira:

Como foi o processo de escrita do “Águas Turvas”?
“Águas Turvas” era uma história que morava no inconsciente das minhas predileções. Sou fascinado por dois aspectos que integram o cerne da obra: o choque de culturas e, principalmente, a busca por um lugar onde pertencer. Dá-se o ponto de partida da trama: Gabriel deixa o Brasil e seu passado e vai morar em Massachusetts, na Costa Leste dos Estados Unidos. Ele queria encontrar um novo lugar. Acabou encontrando um novo alguém: Justin. No “pacote”, uma tradicional família republicana norte-americana e uma tragédia que coloca o jovem Matthew na história. A partir daí, veio o extenso trabalho de pesquisa para integrar essas personagens a um cenário real: a pacata cidade de Holden, nas belíssimas colinas do Condado de Worcester. Cada detalhe dos cenários é absolutamente real. Foi árduo o trabalho para pesquisar desde o cardápio de restaurantes até os dados meteorológicos exatos daquela região, no tempo da obra. Aliás, o tempo que serve de pano de fundo à trama também é importante: a crise econômica que sacudiu os EUA entre os anos de 2008 e 2011. Como a população norte-americana reagiu ao choque financeiro e a percepção de alguém que não era de lá, são fatores fundamentais para compreender a dinâmica das relações expostas no livro. A história de amor de Gabriel e Justin é capaz de sobreviver a tantas intempéries, a águas tão turvas? Só lendo pra descobrir…

Quanto tempo você demorou para escrever?
Bom, como já disse, o trabalho de pesquisa foi muito extenso. Além disso, jamais começo a escrever um livro, um artigo ou qualquer que seja o texto, sem antes saber exatamente de onde ele parte e onde pretende chegar. Tenho um termômetro: se consigo sentar com alguém e contar a história do início ao fim, estou pronto para levá-la às páginas. Foi assim com “Águas Turvas”. Após cerca de um ano de pesquisa, consegui finalmente narrá-lo à íntegra para outra pessoa. Estava, afinal, pronto para escrever. Foram cerca de quatro semanas, 18 horas por dia, exclusivamente dedicadas ao ato de escrever a obra. E posso assegurar: valeu cada segundo de empenho. Quando coloquei o ponto final, chorei. Estava profundamente feliz com o resultado.

Existe abertura para escritores que exploram a sexualidade e romances com temática homossexual no Brasil?
Não só há espaço, como há uma enorme demanda. Quantos autores brasileiros contaram histórias sobre a Bahia? Muitos. Quantos eternizaram personagens gaúchos e os belos pampas? Vários. Há incontáveis clássicos sobre índios, sobre o Rio de Janeiro, sobre tétrico período escravocrata. Enfim, como um país de proporções continentais, fortemente miscigenado e com uma cultura amplíssima, o que não faltam são histórias pra contar… e outras tantas já contatas. No entanto, é possível elencar nos dedos de uma mão a quantidade de autores que dedicaram uma obra à temática homoafetiva e que ela tenha sido reconhecida pela crítica e pelos leitores. Por óbvio, há uma série de anacrônicas condicionantes sociais que em nada favorecia o surgimento de tais obras. Ainda assim, aqueles que ousaram, tornaram-se flâmulas de um tempo, como Aluízio Azevedo e, mais recentemente, Nelson Luiz de Carvalho. Noutras palavras: há uma enorme estrada a ser trilhada pelos romances brasileiros com temática homoafetiva.

Seu livro tem sido bastante aceito pelos leitores a até pela crítica, onde está o ‘pulo do gato’ na narrativa?
Não acho exista um “pulo do gato”. Ou você conta bem uma boa história, ou fim de papo. O estilo e as técnicas de narrativa são fundamentais. É como uma novela: você precisa se apaixonar pela obra no primeiro capítulo e ter uma distribuição de argumentos ao longo da trama de tal forma a ser conduzido até o ponto final sem deixar pairar sequer a possibilidade de interrupção. Esse é o grande desafio do escritor: literalmente enredar o leitor. Particularmente, eu gosto de um recurso muito utilizado nos bons roteiros cinematográficos: o Cliffhanger, que é a exposição de uma personagem ou situação a um confronto dramático e a subsequente transferência do foco para outro ponto da história. Esse recurso cria uma expectativa no leitor, o anseio por conhecer a conclusão daquele confronto. Quando bem executado, o cliffhanger atua como a linha que irá costurar todas as tramas de uma obra. Aos críticos, especializados ou não, só posso agradecer pelas palavras mais que gentis e generosas que são rendidas ao livro e ao autor. É sempre uma emoção. Tenho dito com frequência: nunca tive a pretensão de utilizar minha obra literária para mudar a vida das pessoas. Mas, posso lhe assegurar: hoje, são os leitores que estão transformando a minha vida… e pra melhor, muito melhor. Como é possível agradecer algo assim? Dizer “obrigado” é pouco. Muito pouco!

Qual é o seu ponto de vista sobre a atual produção de romances com temática homossexual, principalmente a produção brasileira? Existem bons escritores com bons romances sendo produzidos?

Como eu disse, há um longo caminho a ser trilhado pela literatura ficcional homoafetiva. Há alguns autores conhecidos e um manancial gigantesco de novos escritores surgindo à esteira das mídias sociais. O mercado editorial brasileiro, em amplo sentido, ainda é bastante hermético. Mas, esse cenário está mudando. Outro detalhe importante: as mídias sociais, ao tempo que criam “balões de gás”, dada a velocidade da comunicação e o perfil de interação e participação dos brasileiros, também permitem uma incrível visibilidade para os novos autores, especialmente para aqueles que, noutros tempos, só alcançariam os mercados da sua cidade ou, no máximo, de sua microrregião. Ainda que tivessem uma obra extraordinária, as fronteiras eram bem evidentes. Hoje é diferente. Ainda que seja desconhecido do “grande público”, se um autor tiver uma boa obra literária, mais cedo ou mais tarde ele conseguirá uma editora e será publicado. Se já está publicado, ele tem as mídias sociais à disposição para comunicar seu trabalho e conquistar leitores. Há resistências setoriais? Claro que sim! Não poderia ser diferente. Mas, no fim das contas, quem ganha é a Literatura.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler “Águas Turvas”. Mas, lendo o que chega à redação e consumo deste tipo de romance, observo que o erotismo, às vezes, até mesmo o pornográfico sujo e raso está enraizado nos romances, uma pena. Como você encara este tipo de produção? Ela é valida?
A literatura homoerótica só existe porque há público pra ela. Aliás, um público-consumidor fortíssimo e, ouso dizer, predominante na segunda metade do século 20. Portanto, é válida. Atendeu e ainda atende uma demanda. No entanto, ao raiar da última década, houve uma importante inflexão na sociedade contemporânea sob vários aspectos, inclusive e principalmente, no que tange à sexualidade. A fatia do mercado editorial mundial que mais cresce é a Literatura de Entretenimento e esta é minha praia. Eu sou cria dessa transformação social. O reconhecimento rendido ao romance “Águas Turvas” é fruto dessa sociedade em transformação e suas novas demandas, desejos, buscas.

Uma vez, João Silvério Trevisan me disse que os escritores são “clandestinos”. É um fardo a ser carregado?
Não acho que escritores são “clandestinos”.  Enquanto arte, pura e simples como é, escrever é um instrumento de libertação da alma. Dizem que os olhos são a janela da alma. Escrever é a porta. O que pode haver de “clandestino” nesse constante convite para que os leitores entrem? Nesse sentido, é difícil crer que, em pleno século 21, preconceitos e hipocrisias ainda possam criar amarras à produção literária. Enquanto arte, essas “trancas” só existem na cabeça dos próprios autores. Já pela ótica do mercado editorial brasileiro (num país que lê pouco e os recursos financeiros são parcos), imaginar que o público-leitor não tem interesse por histórias homoafetivas é uma tremenda estupidez. Na verdade, trata-se de um quinhão expressivo da Literatura que é fartamente carente de boas obras. “Águas Turvas” talvez seja um bom exemplo dessa dinâmica. Protagonizado por um casal homoafetivo masculino, o livro vem recebendo ótimas críticas e está alcançando um público absolutamente plural, com especial destaque entre os jovens. Não há nada de marginal nessa abordagem literária. Ao contrário. O que existe é uma demanda enorme. Reitero: o mercado que não enxerga essa demanda é porque, estupidamente, faz apostas erradas e está perdendo público. Da mesma forma, não acho que escrever seja um fardo. No meu caso, escrever é necessidade vital. O dia que passo sem conseguir escrever algo, um parágrafo que seja, fico com a sensação de que minha alma está presa. Com o passar do tempo, fui descobrindo que a minha vida está condicionada às palavras. Preciso ser leal ao verbo escrever, compreende?! “É ter com quem nos mata, lealdade”, parafraseando obliquamente os versos de Camões.

Podemos dizer que o escritor tem seu lado leitor da própria obra, ou seja, é como se existisse um “eu-escritor e um eu-leitor”, o que seu lado leitor tem para dizer sobre sua própria obra?

Sempre acho uma temeridade o autor falar de sua própria obra. Aliás, diante da obra, é comum o autor alternar sentimentos: primeiro ele acha que é uma obra-prima; ao reler, pensa ter escrito um absurdo, uma porcaria; num terceiro momento, já vê com olhos mais amenos; e assim por diante. Encontrar a serenidade é uma jornada! Já no prólogo, Matthew diz: “A era digital, com toda evolução tecnológica, conduz as pessoas como que numa correnteza, chocando-as umas às outras, mas raramente as unindo. São como seixos rolados, pedras lisas vitrificadas, interagindo todo o tempo, mas sem qualquer aderência. (…) Essa dinâmica escorregadia está provocando nos seres humanos uma necessidade de criar poros, garras, arestas inaparáveis ou qualquer coisa capaz de nos manter juntos”. Quando um escritor liberta sua alma, abre a porta e convida os leitores a entrar, não é possível prever qual será o resultado. Eu estou vivendo aquele momento quando os leitores estão sentados à sala, lendo “Águas Turvas”, tomando café e estamos batendo um papo agradável.  Alguns dividem suas impressões, outros dividem seus dilemas pessoais, há quem compartilhe experiências e a conversa segue animada. Eu olho pra eles e sinto-me plenamente realizado ao vê-los unidos à minha sala, esse que é o melhor cômodo que há em mim.

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