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“Não basta apenas pedir desculpas”, diz pesquisador sobre missões cristãs em aldeias indígenas

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Jamais a expressão jornalística ‘entrevista de gaveta’ caiu tão bem com o que vos apresento, caras, caros e cares internautxs. O que segue para nosso deleite é uma troca de e-mails que tive com o professor doutor Estevão Fernandes da Universidade Federal de Rondônia em 2015.

Dois anos depois, ele se destaca na imprensa e no mundo acadêmico apresentando suas pesquisas sobre as questões de gênero e sexualidade em um contexto indígena. Recentemente redescobri esta entrevista em meus arquivos e eu os apresento.

A entrevista é longa, já adianto. Ela foi feita no contexto de 2015, na ocasião o Papa Francisco pedia perdão pelas violações contra pessoas LGBTQIA+.

Sem dúvida vale a leitura.

Em seu texto “Homossexualidade Indígena no Brasil: desafios de uma pesquisa” você fala sobre a existência, no Brasil, de diversas referências às sexualidades indígenas operando fora do modelo heteronormativo desde a colonização. Em que ponto estão as pesquisas que dão luz às questões de gênero nas populações indígenas brasileiras?
Bastante avançadas, mas, ainda assim, com muito a se desenvolver. Dito de forma bastante genérica, há diversas linhas de pesquisa sobre o tema.  Temos pesquisadoras, e me refiro aqui particularmente à antropologia, que apontam para a importância dos estudos de gênero em povos indígena, com perspectivas bastante inovadoras, as professoras Cecília McCallum e Vanessa Lea certamente são referências a quem queira trabalhar o tema. Esta linha de pesquisa dialoga diretamente com os avanços da etnologia brasileira e da teoria antropológica mais recente.  Além dessa perspectiva, temos outras autoras, como Ângela Sacchi, por exemplo, que buscam trabalhar gênero em povos indígenas com um diálogo mais direto com os movimentos de mulheres indígenas. Esse tipo de perspectiva é bastante interessante, por dar visibilidade a um segmento do movimento indígena que foi, historicamente, esquecido por antropólogos, organizações indigenistas e, por vezes, pelo próprio movimento indígena. Digo isso generalizando, claro, mas fato é que os movimentos de mulheres indígenas não alcançaram historicamente, no Brasil, uma visibilidade que fizesse frente à enorme importância que sua luta representou e representa pela conquista dos direitos indígenas no país. Haveria aí uma série de hipóteses para essa invisibilidade e algumas pesquisadoras pelo país vêm buscando recuperar essa trajetória (Ana Aline Furtado Soares, por exemplo, vem realizando um excelente trabalho junto às mulheres Tapeba, em Caucaia, CE). Nesse sentido, caso um dos leitores do Esquerda Diário tenha interesse no assunto, recomendo o excelente artigo da Prfoa. Maria Rosário de Carvalho, “A questão do gênero em contextos indígenas” e da Profa. Cecília McCallum “Notas sobre as categorias ‘Gênero’ e ‘Sexualidade’ e os povos indígenas” Temos, ainda, vários trabalhos sobre indígenas queer sendo escritos ou redescobertos, autores como Luiz Mott, Martinho Tota, Paulo de Tássio Silva, e eu mesmo, que chamam a atenção para a heteronormatividade como uma das pedras angulares do processo de colonização. Penso, contudo, que podemos avançar ainda em alguns pontos. Um deles é uma maior interlocução com estudos e escritos de indígenas e pensadoras latino-americanas – uma autora que vem fazendo isso com bastante êxito é a Profa. Rita Laura Segato. Alguns canais importantes, como a Revista Estudos Feministas oferecem excelentes recursos a quem queira se inteirar sobre o tema, mas, apesar disso, ainda sabemos relativamente muito pouco sobre o que acontece na América Latina.

Você cita, no mesmo texto, uma série de ‘nomenclaturas’ usadas pelos próprios indígenas para definir membros que praticam relações com outros do mesmo sexo. Tais termos como tibira, çacoaimbeguira, cudinhos, kudina, guaxu… são usados de forma pejorativa, com injúria, ou não?
Boa parte desses nomes referem-se mais a papéis sociais do que a práticas sexuais, somente. Infelizmente os registros sobre o tema são, apesar de vários, bastante breves e pouco aprofundados, mas todos trazem em comum uma ideia que pode ser resumida da seguinte forma: o que chamamos hoje de homossexualidade era aceito como algo comum em várias etnias no Brasil. A carga pejorativa veio ao longo do processo de colonização que se estende até hoje. Dessa forma, seja pela ação de missionários, nas escolas, nos processos de “nacionalização”, “integração”, “pacificação”, ou qualquer nome que se dê às formas de incorporação compulsória dos povos indígenas ao sistema moderno/colonial/capitalista/patriarcal; ou mesmo no convívio cotidiano com os diversos agentes do contato, o lugar de enunciação dos povos indígenas, suas sexualidades, cosmologias, religiosidades, etc, foi sendo sistematicamente apagado, subalternizado e violentado. Historicamente, o que se buscou até recentemente, foi transformar o indígena em um trabalhador braçal pobre, com uma família nuclear adequado ao modelo hegemônico, cristão e heterossexual. A colonização é misógina, racista e homofóbica. Veja bem, eu disse “é”, e não “foi”, pois as estruturas de poder, de ser e de saber tornaram o projeto colonial algo possível ainda persistem, tendo sido invisibilidades e incorporados às relações que se mantêm com os povos indígenas no Brasil, ainda hoje. Nesse sentido, o que se vê é o surgimento de casos de injúria, preconceito, agressões e suicídios envolvendo jovens indígenas homossexuais no Brasil.

Como são as relações entre pessoas do mesmo sexo nas comunidades indígenas? De algum modo, é possível afirmar que existem relações sociais de afeto e aproximação entre índios que se relacionam com o sexo diferente e aqueles que praticam uma sexualidade com parceiros do mesmo sexo?
Cada etnia é uma realidade diferente, e com a sociodiversidade que temos no Brasil, não arrisco dar uma resposta. Além disso, há pouquíssimas pesquisas sobre o assunto no país. Uma das poucas que conheço é o excelente texto de Patrícia Carvalho Rosa (Unicamp) publicada na Cadernos Pagu n.41, em 2013 (disponível aqui) sobre o relacionamento entre duas primas Tikuna (AM) e a forma como isso é visto naquela sociedade. Acho que o texto oferece uma direção bastante promissora para os estudos a esse respeito, e espero que, a medida que as pesquisas avancem, possamos ter uma perspectiva mais realista sobre essas questões.

Em sua pesquisa, você faz um paralelo entre a experiência indígena norte-americana com a nossa.  Onde, assim como aqui, as sexualidades fora do modelo europeu-cristão foram também perseguidas por portugueses, ingleses, franceses e espanhóis. Não raro, nos deparamos com notícias onde citam expedições de religiosos à aldeias para disseminar o cristianismo. Tal colonização cristã ainda continua? E como se dá, atualmente, tal catequese e expansão do pensamento cristão e imposição de uma sexualidade padrão branca no meio indígena?
Há um caso que ilustra bem isso. Trata-se do caso que Luiz Mott chamou de “o índio tibira do Maranhão” (tibira é a denominação que os Tupinambá davam aos indivíduos homossexuais do sexo masculino): o padre Yves D’Evreux narra a brutal execução de um indígena, por sua homossexualidade, no início do séc. XVII – ele teve seu corpo amarrado a uma bala de canhão, que foi atirada, partindo seu corpo em dois. No início da colonização, havia um tronco localizado no centro dos aldeamentos missionários para punir os indígenas que andassem nus, fossem polígamos, faltassem a missa ou praticassem “sodomia”. Mas não precisamos ir tão distantes para termos relatos assim: Gersem Luciano dos Santos (índio Baniwa, AM) narra, em sua tese de Doutorado, como ele e um conjunto de amigos foram castigados por um padre por serem acusados de homossexualidade (“algo que só na mente dele [do padre] se passava, uma vez que, para os Baniwa, viver coletivamente  é regra básica”). Ysani Kalapalo, participando do X congresso LGBT em 2013, relata que para os Kalapalo, até a chegada dos missionários, o relacionamento entre mulheres era algo comum. Mesmo na fala de várias lideranças indígenas, ainda hoje, se percebe uma carga pejorativa no que diz respeito à homossexualidade. É bastante provável que isso se deva não apenas à ação missionária nas aldeias, mas também à própria gênese do movimento indígena brasileiro, estreitamente ligado a movimentos da igreja católica. A ideia de “sodomia” é, em si, bastante emblemática nesse sentido. Se lermos a passagem de Gênesis 19 (destruição de Sodoma) com Juízes 19 (história na qual, assim como em Sodoma, também há uma tentativa de estupro coletivo sobre um homem), veremos como as duas se parecem; mas a Sodomia (categoria surgida no século XI, por São Pedro Damião) “pegou”, e penso que isso se dê por uma razão: não se trata a história de Sodoma de homossexualidade. Selermos as passagens bíblicas que se referem a Sodoma e Gomorra com atenção, veremos que se trata de uma história sobre punição divina pela desobediência. Além disso, trata-se de uma punição sobre o coletivo por ações individuais, ou seja: não importa se você é um bom católico praticante, se seu vizinho não for, você pode morrer por causa dele! Isso é uma ideia poderosa, pois ela legitima um policiamento moral das condutas individuais, com o argumento de que disso dependa a sobrevivência do grupo. Se pararmos para pensar, essa ainda é o argumento usado por políticos, pastores, e setores mais conservadores da igreja católica, para justificar seus posicionamentos contra o combate a homofobia, por exemplo. Ou seja, isso não se restringe às aldeias.

Boa parte do que chamamos de Estudos de Gênero são pesquisas consideradas avançadas e produzidas na Europa e Estados Unidos. Entretanto, aqui cabe uma crítica, são estudos focados em um sistema ético-político bastante estruturado de uma moral europeia secular. O filósofo espanhol Paul B. Preciado nos alerta, por exemplo, que a patologia da sexualidade começa no século XVI. No que você acredita que o estudo de culturas não contaminadas por tais sistemas éticos que tornam a sexualidade um importante controle do corpo e do social chaves para o entendimento de outros modos de nos relacionar pode colaborar para uma sociedade menos violênte e controladora dos corpos, afetos, expressões e suas identidades?
Sinceramente, nunca parei para pensar nisso – e certamente não dessa forma. É uma perspectiva interessante. algo que me chama a atenção é o fato de que em várias das etnias pesquisadas até aqui, se um indígena pratica sexo com pessoas do mesmo sexo aquilo não é uma questão. Outras coisas são mais importantes: suas habilidades manuais, a atenção que dá aos seus parentes, se é trabalhador etc.

Ao observar seu histórico de orientações e participação em bancas de trabalhos acadêmicos é possível perceber o pouco interesse de estudantes e pesquisadores na pesquisa científica que busca explorar a sexualidade no contexto indígena. Quais são os problemas que você acredita para a realização de tais pesquisas: falta de interesse dos discentes, ou preconceito por parte da acadêmia?
Talvez um pouco das duas. Dito de forma franca e despretensiosa, acho realmente que o espaço para renovação das C. Sociais brasileiras está situado nas periferias da academia hegemônica. Não é a velha história de “complexo de primo pobre”, muito pelo contrário: temos aqui a possibilidade de incorporar, epistêmica e politicamente as falas daqueles alunos e colegas indígenas, quilombolas, camponeses, atingidos por barragens, ribeirinhos. Talvez o desafio seja realizar o que o semiólogo argentino, Walter Mignolo, chama de “giro epistêmico”. Agora, se há espaço para realizar esse giro na academia brasileira, são outros quinhentos. Trata-se de incorporar outras perspectivas de ética, estética, ser, saber, pensar ao próprio conceito de paradigma. Veja bem, não digo aqui transformar esses saberes em paradigma, pois isso equivaleria a destitui-los de sua originalidade, encapsulando-os em nossa perspectiva de paradigma. Sou muito mais radical, nesse sentido: acho possível e necessário tomar seus saberes em paradigmas. Assim, deixam de ser “saberes” e se tornam “conhecimento”. Deixam de ser um fim para se tornar um meio… Minha impressão geral é que a academia brasileira ainda reproduz em determinados setores, muito das relações de poder e hierarquia que estruturaram a construção da desigualdade no Brasil. Entretanto, sou otimista, acho que há vários espaços a serem conquistados – mas vai ser um processo longo, com certeza.

É possível adotar as praticas e performances da sexualidade indígena como reivindicação de uma cultura silenciada há séculos por meio de uma jornada civilizatória de grande devastação cultural? Ou, em outros termos, como as populações urbanas podem contribuir para o que você chama de ativismo homossexual indígena?
Se formos levar a sério o que dizem os ativistas two-spirit na América do Norte, não muito. Para eles, a crítica à homossexualidade compulsória é uma crítica anti-colonial. Segundo eles me disseram, eles têm muito mais a ver com um índio heterossexual brasileiro, do que com um branco homossexual norte-americano, posto que povos indígenas estiveram submetidos a relações de poder, violência, subalternização e invisibilidade subsumidos às relações coloniais que tornaram a heterossexualidade “o” padrão a ser seguido, assim, suas críticas são com relação a todo esse processo.

Em sua última visita à América Latina, o Papa Francisco pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica durante a colonização da América Latina. É possível, entre os crimes que a santidade trás à luz contemporânea, atribuir crimes de ódio contra a população indígena não-heteronormativas?
À luz do que dissemos anteriormente, com certeza, mas não basta apenas pedir desculpas pelos deslizes realizados anteriormente é essencial, sim, adotar outras práticas.

Como a Funai trabalha com essa população indígena?
Até onde pude constatar em minha pesquisa, nem Funai, nem ninguém desenvolve qualquer tipo de trabalho específico sobre o assunto. Pelo que ouvi, essas instituições são provocadas por demanda e, até onde sei, essas demandas não chegaram até esses órgãos. Tive notícias de que a Defensoria Pública da Paraíba foi a algumas aldeias após receber denúncias de agressões homofóbicas, mas, até onde sei, é uma das poucas iniciativas no Brasil a esse respeito.

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Um cafezinho com Suzane Jardim para falar sobre racismo e mídia

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Suzane Jardim, 25 anos, é formada em História pela USP e atua como pesquisadora na área com foco em dinâmicas e representações raciais. Ela realiza uma série de trabalhos em escolas públicas e outras instituições, geralmente dando aulas e palestrando sobre trajetórias do povo negro, racismo institucional, acesso às universidades públicas. Suzane está entre as colaboradoras voluntárias para fazer acontecer a ideia do jornalista Iran Giusti, a Casa 1, oferecendo  um workshop sobre a  Estereótipos Racistas na Mídia. O tema é importante e então resolvi tomar um cafezinho com ela aqui no blogue para conversamos mais sobre mídia, racismo e representações raciais. Ah! Não esquece de curtir a pagina do Blogue lá no Facebook também.

Quando falamos em mídia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a imprensa tradicional. Mas mídia é um pouco mais amplo e abarca aí, a publicidade e propaganda e as redes sociais, para citar algumas. Os estereótipos racistas mudam de forma, ou de modos, de acordo com o formato da mídia?
Como costumo dizer em minhas aulas, estereótipos são um arsenal de pré-concepções mentais criadas e compartilhadas por toda uma comunidade. Todo ser humano estereotipa o tempo todo, porém alguns estereótipos são instrumentalizados pela política, pela mídia e pela propaganda para fortalecer o discurso de certas opressões institucionalizadas, com o é o caso da estereotipação do povo negro. Partindo disso, posso dizer que todos os veículos de mídia compartilham do mesmo arsenal mental de estereótipos racistas – o que muda de fato é o uso e a aceitação que se tem em diferentes mídias desses usos. Muita coisa que é disseminada na TV aberta sem problema algum não passaria do mesmo modo em uma propaganda veiculada na internet, assim como em certos espaços das redes sociais (páginas de humor e afins) estereótipos racistas causam um riso que provavelmente não apareceria se estivessem em uma revista política impressa. Creio que os diferentes usos desses estereótipos vária conforme o público e o espaço.

Infelizmente, no jornalismo, assim como em diversas outras áreas profissionais e do saber, há poucos negros. Estas práticas racistas podem ocorrer por esta falta de representatividade dentro do jornalismo?
Tenho certo pé atrás em dar uma resposta completamente positiva a essa pergunta pois considero que nem todas as pessoas negras estão de fato interessadas nesse tipo de discussão. Pessoas negras não nascem já sabendo e militando contra a opressão, compreende? Creio, sinceramente, que as praticas racistas que ocorrem atualmente dentro do jornalismo são muito mais um retrato óbvio do quanto os profissionais da área não estão preparados para lidar com a diversidade nacional e do quanto os cursos de jornalismo e comunicação não se preocupam em discutir esse tipo de questão. Os profissionais se formam sem o mínimo de debate sobre o assunto e tendem a repetir padrões racistas que nunca foram questionados e que muitas vezes criaram raízes nas mentalidades – e isso não ocorre apenas no jornalismo, é uma tendência geral em vários campos de estudo. A presença de jornalistas ou demais profissionais negros nesses espaços poderia criar uma nova sensibilidade, mas partindo do princípio que esses profissionais negros também tenham um compromisso com a luta anti-racista, caso ao contrário, vira apenas representatividade vazia.

Li, recentemente, uma postagem no perfil de Jéssica Ipólito no Facebook, uma afirmação que me trouxe reflexões. Ela diz que representatividade é importante, mas não é tudo. De imediato me veio a eleição do vereador negro e gay para a Câmara Municipal de São Paulo. Embora há representatividade em seu fenótipo (é certo dizer assim?) e em sua orientação sexual, ele ainda carrega um discurso bastante conservador, inclusive contra políticas públicas para grupos no qual ele mesmo pertence. Quais são os desafios dentro da própria militância para formação de base. Entender as obrigações e funções do Estado, o que é política pública, e sobre a própria história do seu povo?
Concordo totalmente com a afirmação de que representatividade é importante, mas não é tudo. Como pesquisadora de estereótipos sempre penso muito nessa questão, principalmente porque, para mim, não adianta em nada uma marca, veículo de mídia ou a própria imprensa tradicional aparecer com uma preocupação repentina em representar o negro se os mesmos não tem nenhum compromisso com a população negra e colaboram com a precarização dessa população em outros espaços (que é o caso de marcas que podem usar o negro em seus comerciais enquanto ainda sucateiam a mão de obra negra em suas fábricas). Creio que o efeito psicológico que a representatividade positiva causa no negro é importante, porém muitas vezes as marcas usam desse trunfo para manter bons níveis de lucro e conquistar um novo público consumidor, mantendo sem questionamento a máxima de que no capitalismo não existe riqueza sem de a miséria. Fernando Holiday é um grande exemplo do que citei na pergunta anterior – uma pessoa negra sem compromisso com a luta anti-racista e que por isso não dialoga com toda uma população na subalternidade. Creio que ele não é um fenômeno isolado – negros, como seres humanos complexos, são capazes de ter diferentes ideologias e diferentes concepções de mundo – por isso mesmo, não é todo negro que tem uma performance que de fato é representativa. Quanto à militância e seus desafios, creio que assim como em todos os outros setores da luta política e social, não existe apenas uma militância negra – são diferentes militâncias, cada qual com suas concepções de mundo, de economia, de história e afins. Creio que atualmente a principal dificuldade é manter o diálogo entre esses diferentes setores pois por mais que tenhamos um objetivo comum, há diversas discordâncias quanto aos métodos para chegarmos a ele.

O PEC 241 acabou de ser aprovada em segunda votação na Câmara dos Deputados. Se aprovado no Senado, também em duas votações, os investimentos em programas sociais importantes na área da Educação, Saúde, Segurança Pública e tantas outras estarão em jogo. Os primeiros afetados serão os pobres e negros. Qual é o seu olhar sobre este avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo?
Hahahah Nelson, mas o modo que tu formulou essa pergunta me deixa sem ter o que responder, afinal você já falou tudo. “Os primeiros afetados serão os pobres e negros.” e “avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo” – o juízo da questão já está posto, só me resta concordar. Quer reformular a pergunta ou tentar fazer outra, talvez?

A cada 23 horas, no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pelo Senado sobre a violência contra jovens aponta que um jovem negro/negra é morto. Vendo esses dados, como é possível combater o discurso daqueles que dizem que movimentos como de negros, mulheres e LGBT se colocam como vítimas da sociedade?
Eu combato o discurso do “vitimismo” com estudo e apresentação de dados como esse que você citou. Sou educadora e o meu trabalho é ensinar o público jovem, principalmente o periférico, sobre todas as nuances históricas e sociais que fizeram dessa uma sociedade nociva para negros, mulheres e LGBTs. A questão é de jogar essa verdade ao mundo até que a situação mude. Não é um problema denunciar vítimas quando existe de fato um Estado agressor. E é essa nuance que tento fazer ser entendida através do meu trabalho.

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No cassetete do Estado: Livro que chega às livrarias do País conta história dos LGBT durante a Ditadura

A opressão do Estado Militar brasileiro, no período de 1964 até 1985, passa longe de apenas um golpe de estado e a luta sangrenta entre os pensamentos de extrema direita contra o comunismo no Brasil. Foi durante este recente período em que o País passou que o papel de atuação de diferentes grupos sociais foi determinado por aqueles que ocuparam o poder de governo. Trabalhadores, negros, mulheres, pobres e também os gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Renan Quinalha, um dos organizadores do livro "Ditadura e Homossexualidades".

Renan Quinalha, um dos organizadores do livro “Ditadura e Homossexualidades”, que conversa com o Blog nesta entrevista

Muito há o que contar sobre qual era o cenário político e social em que homossexuais e transgêneros estavam inseridos nas duas décadas em que o Brasil viveu dentro de uma intensa nuvem de tempestade.

Para contar esta história, o Blog conversou com um dos organizadores, o advogado da Comissão da Verdade de SP Renan Quinalha, do livro “Ditadura e Homossexualidades”, junto com o professor e ativista James N. Green. O livro será lançado na próxima quinta-feira, 27 de novembro, na Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, nº94 no Centro de São Paulo. Confira:

Como surgiu o projeto de organizar um livro, junto com James Green, que abordasse o tema “Ditadura e Homossexualidades”?
O James já vem, há longa data, pesquisando a história da homossexualidade em nosso país e também temas relativos à luta contra a ditadura. Em meu mestrado e no meu doutorado, também tenho trabalhado a justiça de transição e a discussão em torno das articulações e tensões entre regime político autoritário e sexualidades. Dessa forma, quando James esteve no Brasil em novembro de 2012, fizemos uma audiência pública na Comissão da Verdade de SP, onde trabalho, para visibilizar, pela primeira vez de modo oficial, a repressão que a ditadura impôs sobre pessoas LGBT e também a resistência que estas empreenderam naquele momento. Depois fizemos uma audiência pública com a Comissão Nacional da Verdade, já em maio de 2013, no Memorial da Resistência em São Paulo, na qual apresentamos o projeto e as pesquisas prévias. Então podemos dizer que esse projeto é fruto do esforço coletivo dos/as pesquisadores/as que estavam, cada um/a em sua área do conhecimento e sua frente de militância, produzindo conhecimento e lutando por uma sociedade mais democrática e com mais respeito aos direitos humanos e à diversidade sexual. O que fizemos foi articular essas iniciativas que não estavam em diálogo mais próximo para influenciar, no contexto de diversas Comissões da Verdade em funcionamento em nosso país, o trabalho de memória e justiça em relação à ditadura, dando o merecido reconhecimento às diferentes formas de homossexualidades, como se dizia à época, e ao movimento LGBT, como se diz hoje.

Durante os estudos para o livro, como você enxergou a formação dos formatos regulares das sexualidades e quais seriam marginalizados e quais estariam no centro dos privilégios sociais?
A ditadura brasileira foi um regime político extremamente autoritário, inspirado pela Doutrina de Segurança Nacional, que justificava as violências do Estado por um discurso de combate aos que caracteriza como inimigo externo e interno. Institucionalizando visões médicas, religiosas e criminológicas conservadoras que já existiam no Brasil, a ditadura via a homossexualidade como um mal a ser extirpado, por degenerar a juventude brasileira e os valores da família tradicional. Além disso, a homossexualidade aparecia, segundo alguns militares, como uma estratégia dos esquerdistas e comunistas para enfraquecer o regime e sua moral.

As violências durante este período que o Brasil sofreu eram algo que estava dentro de um único pacote; ou não, o regime separava esta violência, por exemplo: comunistas eram de uma categoria (leia ameaça à ordem) diferente dos negros, que por sua vez eram diferentes dos LGBT, que, no entanto, eram vistos com diferença aos trabalhadores não registrados?
Em nosso país, a violência de Estado durante a ditadura atingiu proporções e níveis alarmantes. Temos de superar a visão de que apenas os militantes da resistência armada teriam sido vítimas da ditadura. Toda a sociedade brasileira sofreu com esse regime de exceção e, alguns setores tradicionalmente oprimidos, foram afetados de maneira particular nesse momento. Assim, diplomatas do Itamaraty foram cassados em 1969 pela “prática de homossexualismo” ou “incontinência pública escandalosa”. A orientação sexual de homossexuais foram colocadas nas fichas de registro e prontuários, demonstrando a discriminação no trabalho. Há documentos da repressão mostrando que vigiaram de perto encontros dos homossexuais durante o nascimento do movimento homossexual brasileiro ou mesmo “fichando” presos pela prática de “pederastia”. Travestis eram extorquidas e espancadas pelo delegado José Wilson Richetti no centro de São Paulo para a “higienização”, com respaldo da ditadura. Assim, nota-se que as pessoas LGBT eram também vistas como ameaças à ordem estabelecida pela identidade de gênero ou orientação sexual que expressavam nesse momento, demonstrando a importância desse olhar particular em relação à sexualidade no período.

O escritor e militante João Silvério Trevisan já afirmou, algumas vezes em entrevistas, que os LGBT não sofriam violência e repressão apenas do lado do Estado, durante a ditadura militar brasileira, também existia conflitos por parte da própria esquerda comunista e socialista. O livro aborda este tema?
João Silvério Trevisan foi um dos protagonistas do movimento homossexual brasileira, denunciando tanto a violência de Estado como de setores da própria esquerda e da direita nesse período. Os diversos agrupamentos políticos existentes nesse período, da direita à esquerda, não tinham ainda uma compreensão da questão LGBT minimamente afinada com o respeito aos direitos humanos e à diversidade. Isso levou muitos anos para acontecer e foi graças à atuação do movimento LGBT que foi possível mudar a visão desses outros atores políticos tradicionais. Essa questão não é foco do livro, que teve por objeto a violência de Estado, mas há artigos como o do James Green e o de Marisa Fernandes que tocam em alguns pontos dessa tensa relação entre a esquerda e as pessoas LGBT.

É citado por você e James, em um artigo no caderno Aliás, do O Estado de São Paulo que “houve também tolerância relativa de alguns setores às praticas homossexuais, contando que essas se mantivessem restritas a espaços bem demarcados: carnaval, lugares isolados de sociabilidade, profissões ‘delicadas’ ou ‘criativas’ para homens, bem como certos lugares reservados para mulheres masculinizadas”. Esta “demarcação” ainda existe, mesmo com a democratização do País?
Sim, a tolerância relativa de alguns setores a práticas homossexuais, desde que em guetos bem específicos e isolados, é uma marca que acompanha a história da homossexualidade em nosso país. No entanto, como foi durante os anos 50 e 60 que muitas mudanças importantes começaram a ocorrer, dentro e fora do país, no sentido de maior tolerância a comportamentos e experiências de sexualidades, a afirmação de espaços de sociabilidade LGBT coincide com o fechamento do regime político. Assim, essa tolerância não é fruto da ditadura, mas da efervescência do período anterior que teve impactos importantes na cultura e em outros esferas da vida social, como a sexualidade. Hoje a situação é ainda paradoxal, pois temos um mercado de consumo LGBT bastante desenvolvido nas grandes capitais e, ao mesmo tempo, enfrentamos uma situação de violência homofóbica em escala muito ampla. Ainda que não seja propagada essencialmente a partir dos órgãos de Estado, como chegou a ocorrer durante a ditadura, pode-se dizer, ainda hoje, que faltam políticas públicas decentes para o combate a esses preconceitos.

Somos um País esquizofrênico, quando o assunto é LGBT, visto que somos um dos primeiros países do mundo a descriminalizar a homossexualidade em seu código penal; um dos pioneiros no que diz respeito à despatologização da orientação sexual (mesmo que a transexualidade ainda é vista como transtorno sexual); e, ao mesmo tempo temos bancadas tão bem articuladas, formadas por militares e religiosos, para barrar o avanço de emancipação da cidadania dos LGBTs brasileiros?
A convivência entre o moderno e o atraso é uma marca da formação social brasileira. Esses dois impulsos, um de conservação e outro de mudança, que deveriam se tensionar reciprocamente, muitas vezes foram acomodados na tradição da conciliação e da governabilidade que se faz presente na vida política brasileira. Isso faz com que tenhamos algumas políticas avançadas em alguns setores e um enorme atraso em relação a outros, nas diversas pautas, inclusive a LGBT. Assim, ainda há muito a ser feito do ponto de vista do reconhecimento da cidadania LGBT em nosso país e isso só será possível se tivermos a força política necessária para impor uma ruptura em relação a esses setores mais conservadores que estão incrustados no sistema político.

Você é advogado da Comissão da Verdade de SP. É divulgado que cerca de 200 militares poderão ser condenados pelos crimes cometidos durante o regime; por meio da Comissão que você trabalha, é possível que alguém seja responsabilizado por perseguição contra homossexuais e/ou transsexuais?
James e eu ajudamos a redigir, com base nessas pesquisas, o capítulo da Comissão da Verdade sobre a questão LGBT. Ali, inserimos recomendações como a responsabilização dos autores das violações de direitos humanos a LGBTs e também que fossem retirados os “restos” autoritários da legislação em relação a essa população historicamente marginalizada. Inclusive a criminalização da homofobia foi algo que tentamos fazer constar, resta ver como ficou a redação final desse capítulo.

Caso exista a possibilidade de condenar estes responsáveis, pode haver a abertura de alguma brecha na lei para a criminalização da homofobia, visto que se o acusado for condenado sob este prisma, logo seria consagrada a existência de tal crime?
O debate sobre a punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura ainda terá de ser feito no sistema de justiça, pois as comissões da verdade apenas poderão apontar os nomes, sem poder de punição. Isso caberá ao Ministério Público e ao Judiciário. Mas, sem dúvidas, se conseguirmos visibilizar e punir a homofobia do passado, certamente abriremos uma via para punir as homofobias do presente. Estão intimamente associadas.

Como o livro pode colaborar para a sociedade, e a população, compreender melhor as raízes homofóbicas e transfóbicas que o Brasil ainda carrega através da sua história?
Nossa preocupação sempre foi de organizar esse livro não como uma contribuição histórica apenas para a memória dos LGBT e do movimento no Brasil. Lembrar esse passado, para nós, é uma forma de agir no presente. Visibilizar e reconhecer o sofrimento imposto às pessoas LGBT permitem elaborar esse passado para que desenvolvamos mecanismos para que nunca mais se repitam no presente e no futuro. Somente enfrentando esse fantasma do passado, que ainda se faz tão presente, é que conseguiremos desnaturalizar as violências e alcançar uma sociedade mais justa, mais democrática e com mais diversidade sexual.

Entre os colaboradores do livro, além de James e Renan, estão Benjamin Cowan,  Jorge Caê Rodrigues, José Reinaldo Lopes, Luiz Gonzaga Morando Queiroz, Marisa Fernandes, Rafael Freitas  e Rita Colaço. O prefácio foi escrito por Carlos Fico. Há, ainda, no posfácio, as falas de Adriano Diogo (Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, Paulo S. Pinheiro(Comissão Nacional da Verdade) e Marcelo Araújo (Secretaria de Cultura de SP) na audiência pública sobre o tema realizada em maio de 2013.

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A crise dos 30 anos; ela pode ser superada

A crise da idade começa a perturbar qualquer pessoa. E tudo começa quando ela se sente ameaçada por outras pessoas mais jovens, que de certa forma, buscam oportunidades no campo profissional assim como ela, além de competir até no área do amor.

O psiquiatra Dr. Leonard F. Verea, ao Blog do Nelson Neto, explica alguns pontos importantes sobre como tratar essa crise. “Começam a aparecer problemas emocionais, inseguranças, angústias e depressões, que na maioria das vezes, levam à consequências mais graves. Então já se pode contar com a Hipnose Dinâmica, que vem para ajudar a superar todo e qualquer problema de ordem emocional, aliviando as tensões causadas por problemas no dia-a-dia”, explica Verea. 

Como se pode superar a crise quando se chega aos 30 anos?
Se pode recuperar a auto estima em uma Clínica Especializada, onde o tratamento é feito por meio da Hipnose Dinâmica com a ajuda de um profissional competente, e uma alternativa válida.  

E de que forma acontece?
O processo terapêutico desperta na mulher o desejo e a vontade dela voltar a se gostar, de se respeitar, de confiar novamente em seus princípios, resolvendo de certa forma suas crises interiores.

E o que a hipnose tem a haver no tratamento?
A Hipnose Dinâmica busca de uma forma natural, trabalhar o inconsciente da pessoa, afastando os “Fantasmas” das incertezas, das dúvidas, em que a auto estima é recuperada de forma segura, natural e eficiente e o mais importante é que todo o tratamento é feito sem nenhum tipo de medicamento.

A mente do paciente fica sob total controle do Terapeuta?
Não. A Hipnose Dinâmica vai buscar no inconsciente do paciente os problemas que geraram toda a angústia e temor, sem causar nenhuma perda de consciência, para que possam ser elaborados a nível consciente lógico e racional encontrando respostas e soluções.

Como superar a crise?
A paciente passa por um processo de amadurecimento, crescimento e evolução, facilitados pelo processo terapêutico, em que os sentimentos por culpa, rejeição, incapacidade, são superados e a pessoa começa acreditar mais em si mesmo, resgata sua confiança. 

Dr. Leonard F. Verea – médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, Itália. Especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Dinâmica. Especialista em Medicina do Trabalho e Medicina do Tráfego. É membro de entidades nacionais e internacionais. Atua também como diretor do Instituto Verea e da Unicap ministrando palestras e cursos em empresas.
www.verea.com.br

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Amor de Verão sobe a serra? Confira as dicas de um especialista no assunto

As férias chegaram, o Verão se instalou, a praia está logo ali no pé da serra e… de repente, pinta um romance novo. Com ele logo vem o ditado “amor de férias não sobe a serra” martelando na cabeça.

Mas não precisa ser assim. Pelo menos de acordo com o coaching amoroso André Beraldino que conversou com o Blog do Nelson Neto e dá dicas para você aproveitar o momento sem dor de cotovelo, quando o réveillon passar.

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O primeiro passo é não buscar o homem da sua vida em cada gato que passeia pela areia. E o lema é curtir sem cobranças ou promessas aquele boy caiçara, ou o coleta de turismo pela cidade que passa, lança Andé. Pense que até o fato de vocês precisarem ir embora pode ter um lado bom: as coisas podem acontecer de maneira muito intensa, com uma rapidez que talvez não rolasse numa situação normal. Voltar para casa e para rotina é uma das melhores maneiras de superar um amor de verão que não sobe a terra. Por isso, nada de lamentar se o romance não emplacar. A chance de o príncipe virar um sapo no fim das férias é grande . “Nas férias, as pessoas estão menos exigentes.

Foi bom enquanto durou

As férias já eram, chegou a hora de se despedir e fica a dúvida no ar: será que vai rolar um novo capítulo dessa história de verão ou ela simplesmente vai acabar assim, seja porque os dias de descanso terminaram, seja por causa da distância?

Só o tempo dirá. Mas nada impede que vocês mantenham o contato pelas redes sociais, e-mail ou telefone. Se não der namoro, quem sabe pinta um amigo. O importante é você saber que não perdeu nada. Ao contrário: viveu, foi feliz e curtiu uma história com começo, meio e fim e isso é superpositivo. E que venham as próximas férias!

Deixa o amor rolar

Divirta-se! – Tome cuidado para não se apaixonar perdidamente. Afinal, você corre o risco de não ser correspondida. Nas, férias, as pessoas querem mais é se divertir do que pensar em algo sério.

Seja Rápido – Infelizmente, férias não duram três meses… Então, se você achou aquele cara um gato, invista, pois na praia as coisas podem acontecer mais rapidamente. Pode ser a sua chance de aproveitar o romance por mais tempo.

+ Vinte e quatro horas de Rio; a cidade quase maravilhosa

Poupe a pele – Ficar vermelho porque não passou protetor solar pode transformar a hora do romance em pesadelo! Fuja desse mico, nada de camarão além do espetinho do quiosque, não é verdade?

Xô, tristeza! – Praia não é lugar para curtir deprê. Nada de ficar deprimida porque o bonitão te trocou por outra ou terá de voltar para cansa antes de você. Aproveite para conhecer outras pessoas.

Economize – Não passe os seus contatos antes de saber se ele é gente boa ou chato. Não importa se moram longe um do outro: o mala sempre pode te achar nas redes sociais e nunca mais desgrudar de você.

Sem ciúme – Se você vir o cara que achou incrível passar com outro boy na sua frente, nem pense em fazer um barraco, tá? Vocês ainda não têm nada.

Juliana Bonetti Simão – psicóloga especializada em sexualidade
www.julianabonetti.com.br

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Confira a entrevista com escritor de Águas Turvas

O escritor e jornalista Helder Caldera, 35 anos, conversou com o Mix sobre seu novo livro “Águas Turvas”, lançado em fevereiro deste ano. Colunista das revistas On e Leia ele já publicou três livros de não-ficção voltados para a área de Jornalismo e agora, pela editora Quatro Cantos, se aventura no mundo do romance com temática LGBT. Confira:

Como foi o processo de escrita do “Águas Turvas”?
“Águas Turvas” era uma história que morava no inconsciente das minhas predileções. Sou fascinado por dois aspectos que integram o cerne da obra: o choque de culturas e, principalmente, a busca por um lugar onde pertencer. Dá-se o ponto de partida da trama: Gabriel deixa o Brasil e seu passado e vai morar em Massachusetts, na Costa Leste dos Estados Unidos. Ele queria encontrar um novo lugar. Acabou encontrando um novo alguém: Justin. No “pacote”, uma tradicional família republicana norte-americana e uma tragédia que coloca o jovem Matthew na história. A partir daí, veio o extenso trabalho de pesquisa para integrar essas personagens a um cenário real: a pacata cidade de Holden, nas belíssimas colinas do Condado de Worcester. Cada detalhe dos cenários é absolutamente real. Foi árduo o trabalho para pesquisar desde o cardápio de restaurantes até os dados meteorológicos exatos daquela região, no tempo da obra. Aliás, o tempo que serve de pano de fundo à trama também é importante: a crise econômica que sacudiu os EUA entre os anos de 2008 e 2011. Como a população norte-americana reagiu ao choque financeiro e a percepção de alguém que não era de lá, são fatores fundamentais para compreender a dinâmica das relações expostas no livro. A história de amor de Gabriel e Justin é capaz de sobreviver a tantas intempéries, a águas tão turvas? Só lendo pra descobrir…

Quanto tempo você demorou para escrever?
Bom, como já disse, o trabalho de pesquisa foi muito extenso. Além disso, jamais começo a escrever um livro, um artigo ou qualquer que seja o texto, sem antes saber exatamente de onde ele parte e onde pretende chegar. Tenho um termômetro: se consigo sentar com alguém e contar a história do início ao fim, estou pronto para levá-la às páginas. Foi assim com “Águas Turvas”. Após cerca de um ano de pesquisa, consegui finalmente narrá-lo à íntegra para outra pessoa. Estava, afinal, pronto para escrever. Foram cerca de quatro semanas, 18 horas por dia, exclusivamente dedicadas ao ato de escrever a obra. E posso assegurar: valeu cada segundo de empenho. Quando coloquei o ponto final, chorei. Estava profundamente feliz com o resultado.

Existe abertura para escritores que exploram a sexualidade e romances com temática homossexual no Brasil?
Não só há espaço, como há uma enorme demanda. Quantos autores brasileiros contaram histórias sobre a Bahia? Muitos. Quantos eternizaram personagens gaúchos e os belos pampas? Vários. Há incontáveis clássicos sobre índios, sobre o Rio de Janeiro, sobre tétrico período escravocrata. Enfim, como um país de proporções continentais, fortemente miscigenado e com uma cultura amplíssima, o que não faltam são histórias pra contar… e outras tantas já contatas. No entanto, é possível elencar nos dedos de uma mão a quantidade de autores que dedicaram uma obra à temática homoafetiva e que ela tenha sido reconhecida pela crítica e pelos leitores. Por óbvio, há uma série de anacrônicas condicionantes sociais que em nada favorecia o surgimento de tais obras. Ainda assim, aqueles que ousaram, tornaram-se flâmulas de um tempo, como Aluízio Azevedo e, mais recentemente, Nelson Luiz de Carvalho. Noutras palavras: há uma enorme estrada a ser trilhada pelos romances brasileiros com temática homoafetiva.

Seu livro tem sido bastante aceito pelos leitores a até pela crítica, onde está o ‘pulo do gato’ na narrativa?
Não acho exista um “pulo do gato”. Ou você conta bem uma boa história, ou fim de papo. O estilo e as técnicas de narrativa são fundamentais. É como uma novela: você precisa se apaixonar pela obra no primeiro capítulo e ter uma distribuição de argumentos ao longo da trama de tal forma a ser conduzido até o ponto final sem deixar pairar sequer a possibilidade de interrupção. Esse é o grande desafio do escritor: literalmente enredar o leitor. Particularmente, eu gosto de um recurso muito utilizado nos bons roteiros cinematográficos: o Cliffhanger, que é a exposição de uma personagem ou situação a um confronto dramático e a subsequente transferência do foco para outro ponto da história. Esse recurso cria uma expectativa no leitor, o anseio por conhecer a conclusão daquele confronto. Quando bem executado, o cliffhanger atua como a linha que irá costurar todas as tramas de uma obra. Aos críticos, especializados ou não, só posso agradecer pelas palavras mais que gentis e generosas que são rendidas ao livro e ao autor. É sempre uma emoção. Tenho dito com frequência: nunca tive a pretensão de utilizar minha obra literária para mudar a vida das pessoas. Mas, posso lhe assegurar: hoje, são os leitores que estão transformando a minha vida… e pra melhor, muito melhor. Como é possível agradecer algo assim? Dizer “obrigado” é pouco. Muito pouco!

Qual é o seu ponto de vista sobre a atual produção de romances com temática homossexual, principalmente a produção brasileira? Existem bons escritores com bons romances sendo produzidos?

Como eu disse, há um longo caminho a ser trilhado pela literatura ficcional homoafetiva. Há alguns autores conhecidos e um manancial gigantesco de novos escritores surgindo à esteira das mídias sociais. O mercado editorial brasileiro, em amplo sentido, ainda é bastante hermético. Mas, esse cenário está mudando. Outro detalhe importante: as mídias sociais, ao tempo que criam “balões de gás”, dada a velocidade da comunicação e o perfil de interação e participação dos brasileiros, também permitem uma incrível visibilidade para os novos autores, especialmente para aqueles que, noutros tempos, só alcançariam os mercados da sua cidade ou, no máximo, de sua microrregião. Ainda que tivessem uma obra extraordinária, as fronteiras eram bem evidentes. Hoje é diferente. Ainda que seja desconhecido do “grande público”, se um autor tiver uma boa obra literária, mais cedo ou mais tarde ele conseguirá uma editora e será publicado. Se já está publicado, ele tem as mídias sociais à disposição para comunicar seu trabalho e conquistar leitores. Há resistências setoriais? Claro que sim! Não poderia ser diferente. Mas, no fim das contas, quem ganha é a Literatura.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler “Águas Turvas”. Mas, lendo o que chega à redação e consumo deste tipo de romance, observo que o erotismo, às vezes, até mesmo o pornográfico sujo e raso está enraizado nos romances, uma pena. Como você encara este tipo de produção? Ela é valida?
A literatura homoerótica só existe porque há público pra ela. Aliás, um público-consumidor fortíssimo e, ouso dizer, predominante na segunda metade do século 20. Portanto, é válida. Atendeu e ainda atende uma demanda. No entanto, ao raiar da última década, houve uma importante inflexão na sociedade contemporânea sob vários aspectos, inclusive e principalmente, no que tange à sexualidade. A fatia do mercado editorial mundial que mais cresce é a Literatura de Entretenimento e esta é minha praia. Eu sou cria dessa transformação social. O reconhecimento rendido ao romance “Águas Turvas” é fruto dessa sociedade em transformação e suas novas demandas, desejos, buscas.

Uma vez, João Silvério Trevisan me disse que os escritores são “clandestinos”. É um fardo a ser carregado?
Não acho que escritores são “clandestinos”.  Enquanto arte, pura e simples como é, escrever é um instrumento de libertação da alma. Dizem que os olhos são a janela da alma. Escrever é a porta. O que pode haver de “clandestino” nesse constante convite para que os leitores entrem? Nesse sentido, é difícil crer que, em pleno século 21, preconceitos e hipocrisias ainda possam criar amarras à produção literária. Enquanto arte, essas “trancas” só existem na cabeça dos próprios autores. Já pela ótica do mercado editorial brasileiro (num país que lê pouco e os recursos financeiros são parcos), imaginar que o público-leitor não tem interesse por histórias homoafetivas é uma tremenda estupidez. Na verdade, trata-se de um quinhão expressivo da Literatura que é fartamente carente de boas obras. “Águas Turvas” talvez seja um bom exemplo dessa dinâmica. Protagonizado por um casal homoafetivo masculino, o livro vem recebendo ótimas críticas e está alcançando um público absolutamente plural, com especial destaque entre os jovens. Não há nada de marginal nessa abordagem literária. Ao contrário. O que existe é uma demanda enorme. Reitero: o mercado que não enxerga essa demanda é porque, estupidamente, faz apostas erradas e está perdendo público. Da mesma forma, não acho que escrever seja um fardo. No meu caso, escrever é necessidade vital. O dia que passo sem conseguir escrever algo, um parágrafo que seja, fico com a sensação de que minha alma está presa. Com o passar do tempo, fui descobrindo que a minha vida está condicionada às palavras. Preciso ser leal ao verbo escrever, compreende?! “É ter com quem nos mata, lealdade”, parafraseando obliquamente os versos de Camões.

Podemos dizer que o escritor tem seu lado leitor da própria obra, ou seja, é como se existisse um “eu-escritor e um eu-leitor”, o que seu lado leitor tem para dizer sobre sua própria obra?

Sempre acho uma temeridade o autor falar de sua própria obra. Aliás, diante da obra, é comum o autor alternar sentimentos: primeiro ele acha que é uma obra-prima; ao reler, pensa ter escrito um absurdo, uma porcaria; num terceiro momento, já vê com olhos mais amenos; e assim por diante. Encontrar a serenidade é uma jornada! Já no prólogo, Matthew diz: “A era digital, com toda evolução tecnológica, conduz as pessoas como que numa correnteza, chocando-as umas às outras, mas raramente as unindo. São como seixos rolados, pedras lisas vitrificadas, interagindo todo o tempo, mas sem qualquer aderência. (…) Essa dinâmica escorregadia está provocando nos seres humanos uma necessidade de criar poros, garras, arestas inaparáveis ou qualquer coisa capaz de nos manter juntos”. Quando um escritor liberta sua alma, abre a porta e convida os leitores a entrar, não é possível prever qual será o resultado. Eu estou vivendo aquele momento quando os leitores estão sentados à sala, lendo “Águas Turvas”, tomando café e estamos batendo um papo agradável.  Alguns dividem suas impressões, outros dividem seus dilemas pessoais, há quem compartilhe experiências e a conversa segue animada. Eu olho pra eles e sinto-me plenamente realizado ao vê-los unidos à minha sala, esse que é o melhor cômodo que há em mim.

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