Bandeira

Empresas aliadas, uma questão importante para nossa estratégia política

bandeiragay

A comunidade LGBTQIA+ brasileira começa um importante processo de absorção de nossas pautas por parte das empresas, ou seja, do capital e seu mercado. Este processo já está bastante estabelecido em países onde o Estado ocupa menos espaço quando comparado com o Brasil. O melhor exemplo que dou são os Estados Unidos, lugar em que gigantes do mercado apostam na ‘diversidade’ dentro de suas empresas. Mas fica a questão: como este movimento começa acontecer no Brasil?

Esta questão nos importa por muitos motivos, e ela começa pelo fato de nos dizer respeito. Temos marcas como Avon, Natura, Carrefour, Skol (Ambev), Organizações Globo ‘levantando’ parte da nossa bandeira em suas peças publicitárias e produtos dando a ilusão aspiracional de que agora somos consumidores que importam para eles. Não podemos esquecer que, mesmo sendo um importante passo, estas peças publicitárias não deixam claro a responsabilidade real que estas empresas têm com o público em si, as LGBTQIA+.

Vamos olhar para os últimos quinze anos de políticas públicas de inserção de pessoas LGBT com recorte de classe e raça promovidas pelo Estado Brasileiro. ProUni, Fies, Bolsa Família, Cotas nas universidades federais para pretos e pretas… não podemos negar que o nosso poder de consumo aumentou significativamente ao ponto de podermos comprar passagens aéreas, perfumes, cerveja… Houve mobilidade social e ela é visível ao ponto de ser perceptível o retrocesso dessa mesma mobilidade acontecendo a partir da intervenção política que vivemos atualmente no Brasil.

Não sou contra a absorção de nossas pautas e comunidade dentro das empresas. Sou favorável, inclusive. Mas não em troca de meia dúzia de vagas de emprego para quem está à margem dessa comunidade, ou mais grosseiramente ainda, àqueles que compõem o lado mais limpinho dela: brancos e heteronormativos. Entretanto, não ser contra não significa aplaudir meia dúzia de peças publicitárias aspiracionais dizendo para nós: “vejam, aprendemos representá-los na mídia”.

Voltando ao exemplo dos Estados Unidos, por lá, existem sólidas organizações não governamentais dedicadas e empenhadas na expansão dos direitos civis das LGBTQIA+ e elas são financiadas por grandes organizações como Google, Facebook e Microsoft, por acaso ligadas ao mercado de consumo tecnológico. Não há unidade global no apoio às nossas pautas de marcas multinacionais. Basta você entrar em sites dedicados a ‘nós’ (estou falando mais especificamente os gays) como OutMagazine (EUA) ou Têtu (França) e verá anunciantes como Heineken e por aqui, nada. Digo com propriedade por já ter trabalho no mercado editorial gay e ver de perto as negativas de muitas marcas em publicar anúncios em veículos nossos.

É muito estranho lembrar que há três anos ouvia de um representante de uma marca de bonés a seguinte afirmação: “a marca não vai autorizar o uso dos seus produtos no ensaio editorial de moda por não desejar vincular sua imagem com as pessoas gays”. Na época não era difícil esbarrar com alguma bicha que não sai de casa com seu boné aba-reta dessa mesma marca. De repente, três anos depois, pessoas trans desfilam na Fashion Week de São Paulo.

A absorção pelo capital e mercado é importante, principalmente em tempos sombrios que nossa política passa. Entretanto, é preciso uma reflexão bastante profunda sobre como ela ocorre em um país marcado por uma necessidade ao populismo e assistencialismo, onde qualquer problema facilmente é posto na conta do Estado.

Acredito que o Estado tem suas obrigações e, infelizmente, nosso Congresso não estão cumprindo com elas, por diversos fatos. Ouso dizer um: a desorganização (não leia desunião) dos próprios movimentos LGBTQIA+. Então, junte um Estado que não cumpre seu papel social, com uma comunidade relativamente desorganizada e um mercado sedento por consumo em um cenário econômico tão estável.

Há grupos isolados e de grande apoio social da própria comunidade LGBTQIA+ espalhados por todo nosso país e de todos os grupos. Há casas de acolhimento, grupos de acompanhamento comunitário, ajuda psicológica. A questão fica: até que ponto estas empresas estão interessadas na responsabilidade social?

Padrão
Bandeira, bem-estar

O último trago

_dsc0294

Dia 9 de janeiro de 2017, às 23h40. Assim como um condenado no corredor da morte que pede sua última refeição, quando vi o último cigarro no maço, fui à cozinha para meu café ‘nicotinado’.

Peguei a cafeteira italiana made in China e preparei uma xícara grande de café do melhor pó que meus últimos putos na conta bancária poderiam comprar neste mês de janeiro. Diferente do condenado que caminha pelo corredor da morte após sua refeição, minha xícara de café com cigarro é para uma vida mais saudável.

Liguei para minha mãe. Vou fumar parar de fumar. Falo com ela, às onze e pico da madrugada. Ela fala baixo comigo, da sala do asilo que trabalha.

Enquanto isso, mexo nos sete maços vazios acumulados em minha escrivaninha. Acho mais um cigarro perdido. Que merda, ajuda destino! Ela ri do outro lado. Melhor, ou pior, poderia fumar um do começo da xícara e outro até o último gole já quase gelado.

Lá fora chove.

Está um calor da porra.

O ventilador assopra forte minhas pernas para que os pernilongos não ataquem tanto. O vento só aumenta o consumo da nicotina pela brasa. Subo o braço para o alto na tentativa de desviar do sopro da máquina. O último cigarro. Trago até toda a fuligem tóxica adentrar meu peito até os pulmões.

Largamente trago, ao máximo, tentando trazer o prazer do vício.

Fumei até então cerca de dois maços por dia. 40 cigarros. Quarenta cigarros por dia.

Já cheguei a pensar que a cada tragada não era só o cigarro e suas mais de quatro mil substâncias tóxicas que adentravam meu corpo até os pulmões, artérias, nervos e cérebro. Eu também era tragado por ele.

Maldito!

Olho para meus livros espalhados. Olho para o teclado. Olho para todos os espaços da mesa. Olho para o chão do quarto que tenho que limpar. Tudo a minha volta é como um grande cinzeiro. Eu sou um cinzeiro.

Levanto em direção à cozinha para devolver a xícara. Volto ao quarto e sinto o cheiro dos cigarros.

Lembro do primeiro trago.

Do primeiro, quantos até o último?

A boca saliva. Passo a mão esquerda por entre minhas coxas magras. Passo o polegar por entre os indicador e médio da mão direita. É lugar que, na última década, sempre esteve ocupado pelo falo que adianta a morte até ser reduzido em bituca.

Mas não mais.

Agora será só Depois do Último Trago.

Padrão
Bandeira

O que realmente Dória quer limpar?

doria-varre-a-paulista

Foro de Edilson Dantas – Reproduzido da Agência O Globo

Durante o primeiro dia de trabalho, o prefeito eleito na cidade de São Paulo João Dória fez os jornalistas levantarem cedo. O dia nem tinha raiado e lá estava ele, quase antecipando o Carnaval, fantasiado de gari com uma vassourinha na mão.

Um dos jornalistas comentaristas de política, da Globo News, até soltou um sorrisinho de canto de boca ao dizer: ele não parecia levar muito jeito com a vassoura.

Ele logo anunciou como vinha anunciando antes mesmo de ocupar o gabinete os corte de gastos. Mas não foi só isso. Teve também a parceria que quer fazer com agências bancárias para ocupá-las com creches. Queremos acabar com a fila de espera.

Não foram precisos muitos dias, ele logo começou a tirar de algumas ruas da cidade. Decretou guerra aos pichadores. Nós vamos limpar a cidade de São Paulo.

No último fim de semana protagonizou mais uma cena de gari. Alguns jornais até dizem que ele pediu para um alfaiate fazer ajustes no seu traje de ‘trabalhador’.

A estimada primeira dama, sua esposa, já deu declarações comparando comunidades e favelas com a Etiópia.

Dória já está acordando com o cônsul francês de São Paulo em transformar o Largo do Arouche, no centro da cidade, em um pequeno bairro burguês francês. Inclusive de levar um famoso festival de champanhe para o lugar, mesmo festival que ele já promoveu na ‘conceituada’ Rua Oscar Freire.

Mas o que realmente Dória, já conhecido como Jão Dólar, quer limpar?

O discurso neoliberal e conservador do prefeito é um pouco mais profundo.

Sua proposta não é uma revitalização do centro de São Paulo.

Sua proposta não é colocar em prática e acelerar um processo higienizador histórico que ocorre no país.

Ele mesmo diz que suas políticas se concentram do centro para a periferia. O que ele está dizendo é que a sua prioridade é fazer com que suas ações de dentro do gabinete da prefeitura sejam pautadas pelo próprio capital financeiro.

Dória, além de higienista e brega.

Seu discurso é claro, mesmo tentando esconder o idealismo quase eugênico, com um populismo rasgado.

Esperamos os próximos capítulos.

Padrão
Trabalho

Você contrataria alguém do direito para atuar como cirurgião?

Caso sua resposta seja negativa, faço mais uma pergunta: quem cuida da Comunicação da empresa que você trabalha? Dentro de muitas empresas, o departamento de comunicação, quando existe, é negligenciado. Por desconhecimento de muitos, comunicar não significa que o estagiário de TI pode abrir uma página no Facebook, atualizar de qualquer modo e está tudo certo.  E olha que este cenário não é muito difícil de encontrar.

Tudo bem, para atuar como jornalista, relações públicas, assessor de imprensa não precisa de um diploma. A discussão neste artigo não é sobre uma pessoa ser capaz de operar uma atividade profissional apenas por ter um título de bacharel. O que quero colocar para nossa reflexão é uma falta de compreensão sobre o próprio conceito de comunicação dentro das empresas, em parte as brasileiras.

Contratar um comunicador social não significa contratar alguém para atualizar as redes sociais digitais. Elas são importantes, mas não é só isso. A questão é como, com qual planejamento, a empresa tratará sua comunicação interna e externa.

Um comunicador é alguém que tem, hoje, habilidades técnicas de tratar da segurança das informações internas, traçar estratégias de negócios entre a empresa e seus fornecedores, atender demandas dos próprios funcionários por meio de ações comunicacionais, além de também entender como funciona os clientes, os clientes em potencial e também a própria concorrência, além de poder fazer a mediação entre a marca e a imprensa segmentada e geral.

E também não é só isso.

Atualmente, uma marca, seja ela pequena, média ou grande, que não esteja alinhada e atenta às diversas demandas sócio-políticos ela está não só perdendo espaço para aquelas empresas que estão dispostas a encarar algo que é exigido hoje: responsabilidade social.

Casos de marcas que se deram mal em comunicar um serviço ou produto tentando fazer uso de diversos discursos sociais de extrema importância não falta para expor, e de algum modo, você que lê este meu texto sabe do que estou falando. Também, não faltam exemplo de marcas e empresas que até fizeram boas campanhas através de pautas relacionadas aos direitos humanos, mas em pouco tempo lá esta sendo desmascarada por não ter negros, pne, lgbt ou mulheres em altos cargos.

Neste caso, como se dá o diálogo entre empresa e seus funcionários para identificar demandas importantes e encontrar soluções em conjunto para inclusão junto com diversos outros departamentos.

Comunicar é tornar comum. Tornar comum o conjunto de valores e metas estabelecidas pela empresa, seja qual for o tamanho da instituição.

Pense nisso. Quem cuida da comunicação em sua empresa?

Padrão
Bandeira

A ressaca depois da [SSEX BBOX]

Foram nove mesas de debate, nove rodas de conversa, treze oficinas e cursos e três filmes seguidos de debate. A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil mobilizou uma galera tamanha de voluntários, pesquisadores, ativistas e profissionais na área de gênero, sexualidade e direitos humanos para pensarmos diferentes estratégias para garantir a permanência das nossas conquistas históricas, fortalecer o presente e construir um futuro melhor para a nossa comunidade. Até que essa grande confraternização afetiva, política, social e cultural acaba e a ressaca aparece.

Infelizmente não consegui ir a todos os dias, mas acompanhei bastante, até que chega o encerramento com chave de outro, bem nos Dia da Consciência Negra e da Memória Trans. Maravilhoso tudo. Diferente do quê muitos podem pensar, a [SSEX BBOX] não é uma catarse utópica de um bando de “””‘beeshas closeras'”””. Tem close sim, mas sempre os mais alinhados com o compromisso de agregar mais e mais gente. Sim, a conferência internacional é um ato de sobrevivência, uma ode à existência de cada um/a LGBTQIA+ de nós.

minimo-denominador-comum

Da esquerda para a direita: Mônica Saldanha, Terra de Grammont, Nelson Neto (eu), Angela Pires, Aruã Siqueira Torres, Alex Bonotto, Jota Mombaça, Magô Tonhon – Foto da [SSEX BBOX]

No último dia 19 de novembro comecei minha fala dizendo que a [SSEX BBOX] é um dos movimentos da atualidade mais importantes da nossa comunidade em todo ocidente. Mostra que somos muitos, em todos os continentes. Ela nos conecta com as mais variadas orientações sexuais e identidade de gênero, visões de mundo, ideias de sociedade.

Daí a ressaca. Uma ressaca por, ao seu fim, depois de mostrar muita coisa maravilhosa, tocar em feridas, trazer à flor da pele e da política nossas ânsias, angustias e sentimentos coletivos dos mais profundos lugares de nós acaba e retornamos à uma realidade cheia de desafios. A cura dessa ressaca não está em uma dose de chá de boldo, acredito que a cura dessa ressaca esta na manutenção desse sentimento tão profundo e fértil que podemos chamar de senso de comunidade.

ecerramento2

Festa de Encerramento da 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil – Foto da [SSEX BBOX]

Nestes sete anos estando ativista em Direitos Humanos, principalmente nas áreas de gênero e sexualidade, e os últimos quatro trabalhando com isso, a [SSEX BBOX] é um dos poucos espaços que proporcionou a mim, e ouso dizer a muitos de nós, este sentido de dialogo plural onde os lugares de fala e escuta, e principalmente de compartilhamento de experiências e ideias esteja tão presente acima do personalismo e egos alheios.

Conheci bastante gente, revi tanta outras, que está na labuta dupla entre trabalhar arduamente em nosso sistema capitalista que exclui e nos coloca sempre à margem da margem e então na segunda jornada está com suas bandeiras hasteadas pela luta de mais direitos. E isso, de certo modo nos conforta.

pri-e-eu

Pri Bertucci, fundador da [SSEX BBOX] e Nelson Neto

No dia a dia, nosso difícil cotidiano, podemos até acreditar que estamos sozinhos nesta zona de guerra, então de repente, nos aglomeramos e percebemos o quanto somos parte dessa união, por vezes subjetiva, tão grande.

Quem faz a [SSEX BBOX] dá mais do que este momento de prazer, mas se entrega de corpo a todos nós, presentes ou não durante o evento. Isso já não tenho dúvida. É esta energia e força, que acredito, que deve fazer de nós ainda mais fortes, organizadas/os e empoderadas/os.

Espero que minha receita para curar esta ressaca esteja certa. Confira toda a cobertura fotográfica  na página da [SSEX BBOX].

Padrão
Cafezinho

Um cafezinho com Suzane Jardim para falar sobre racismo e mídia

racismo-onde

Suzane Jardim, 25 anos, é formada em História pela USP e atua como pesquisadora na área com foco em dinâmicas e representações raciais. Ela realiza uma série de trabalhos em escolas públicas e outras instituições, geralmente dando aulas e palestrando sobre trajetórias do povo negro, racismo institucional, acesso às universidades públicas. Suzane está entre as colaboradoras voluntárias para fazer acontecer a ideia do jornalista Iran Giusti, a Casa 1, oferecendo  um workshop sobre a  Estereótipos Racistas na Mídia. O tema é importante e então resolvi tomar um cafezinho com ela aqui no blogue para conversamos mais sobre mídia, racismo e representações raciais. Ah! Não esquece de curtir a pagina do Blogue lá no Facebook também.

Quando falamos em mídia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a imprensa tradicional. Mas mídia é um pouco mais amplo e abarca aí, a publicidade e propaganda e as redes sociais, para citar algumas. Os estereótipos racistas mudam de forma, ou de modos, de acordo com o formato da mídia?
Como costumo dizer em minhas aulas, estereótipos são um arsenal de pré-concepções mentais criadas e compartilhadas por toda uma comunidade. Todo ser humano estereotipa o tempo todo, porém alguns estereótipos são instrumentalizados pela política, pela mídia e pela propaganda para fortalecer o discurso de certas opressões institucionalizadas, com o é o caso da estereotipação do povo negro. Partindo disso, posso dizer que todos os veículos de mídia compartilham do mesmo arsenal mental de estereótipos racistas – o que muda de fato é o uso e a aceitação que se tem em diferentes mídias desses usos. Muita coisa que é disseminada na TV aberta sem problema algum não passaria do mesmo modo em uma propaganda veiculada na internet, assim como em certos espaços das redes sociais (páginas de humor e afins) estereótipos racistas causam um riso que provavelmente não apareceria se estivessem em uma revista política impressa. Creio que os diferentes usos desses estereótipos vária conforme o público e o espaço.

Infelizmente, no jornalismo, assim como em diversas outras áreas profissionais e do saber, há poucos negros. Estas práticas racistas podem ocorrer por esta falta de representatividade dentro do jornalismo?
Tenho certo pé atrás em dar uma resposta completamente positiva a essa pergunta pois considero que nem todas as pessoas negras estão de fato interessadas nesse tipo de discussão. Pessoas negras não nascem já sabendo e militando contra a opressão, compreende? Creio, sinceramente, que as praticas racistas que ocorrem atualmente dentro do jornalismo são muito mais um retrato óbvio do quanto os profissionais da área não estão preparados para lidar com a diversidade nacional e do quanto os cursos de jornalismo e comunicação não se preocupam em discutir esse tipo de questão. Os profissionais se formam sem o mínimo de debate sobre o assunto e tendem a repetir padrões racistas que nunca foram questionados e que muitas vezes criaram raízes nas mentalidades – e isso não ocorre apenas no jornalismo, é uma tendência geral em vários campos de estudo. A presença de jornalistas ou demais profissionais negros nesses espaços poderia criar uma nova sensibilidade, mas partindo do princípio que esses profissionais negros também tenham um compromisso com a luta anti-racista, caso ao contrário, vira apenas representatividade vazia.

Li, recentemente, uma postagem no perfil de Jéssica Ipólito no Facebook, uma afirmação que me trouxe reflexões. Ela diz que representatividade é importante, mas não é tudo. De imediato me veio a eleição do vereador negro e gay para a Câmara Municipal de São Paulo. Embora há representatividade em seu fenótipo (é certo dizer assim?) e em sua orientação sexual, ele ainda carrega um discurso bastante conservador, inclusive contra políticas públicas para grupos no qual ele mesmo pertence. Quais são os desafios dentro da própria militância para formação de base. Entender as obrigações e funções do Estado, o que é política pública, e sobre a própria história do seu povo?
Concordo totalmente com a afirmação de que representatividade é importante, mas não é tudo. Como pesquisadora de estereótipos sempre penso muito nessa questão, principalmente porque, para mim, não adianta em nada uma marca, veículo de mídia ou a própria imprensa tradicional aparecer com uma preocupação repentina em representar o negro se os mesmos não tem nenhum compromisso com a população negra e colaboram com a precarização dessa população em outros espaços (que é o caso de marcas que podem usar o negro em seus comerciais enquanto ainda sucateiam a mão de obra negra em suas fábricas). Creio que o efeito psicológico que a representatividade positiva causa no negro é importante, porém muitas vezes as marcas usam desse trunfo para manter bons níveis de lucro e conquistar um novo público consumidor, mantendo sem questionamento a máxima de que no capitalismo não existe riqueza sem de a miséria. Fernando Holiday é um grande exemplo do que citei na pergunta anterior – uma pessoa negra sem compromisso com a luta anti-racista e que por isso não dialoga com toda uma população na subalternidade. Creio que ele não é um fenômeno isolado – negros, como seres humanos complexos, são capazes de ter diferentes ideologias e diferentes concepções de mundo – por isso mesmo, não é todo negro que tem uma performance que de fato é representativa. Quanto à militância e seus desafios, creio que assim como em todos os outros setores da luta política e social, não existe apenas uma militância negra – são diferentes militâncias, cada qual com suas concepções de mundo, de economia, de história e afins. Creio que atualmente a principal dificuldade é manter o diálogo entre esses diferentes setores pois por mais que tenhamos um objetivo comum, há diversas discordâncias quanto aos métodos para chegarmos a ele.

O PEC 241 acabou de ser aprovada em segunda votação na Câmara dos Deputados. Se aprovado no Senado, também em duas votações, os investimentos em programas sociais importantes na área da Educação, Saúde, Segurança Pública e tantas outras estarão em jogo. Os primeiros afetados serão os pobres e negros. Qual é o seu olhar sobre este avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo?
Hahahah Nelson, mas o modo que tu formulou essa pergunta me deixa sem ter o que responder, afinal você já falou tudo. “Os primeiros afetados serão os pobres e negros.” e “avanço conservador carregado de uma ideologia fundamentalista que chega a beirar o fascismo” – o juízo da questão já está posto, só me resta concordar. Quer reformular a pergunta ou tentar fazer outra, talvez?

A cada 23 horas, no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pelo Senado sobre a violência contra jovens aponta que um jovem negro/negra é morto. Vendo esses dados, como é possível combater o discurso daqueles que dizem que movimentos como de negros, mulheres e LGBT se colocam como vítimas da sociedade?
Eu combato o discurso do “vitimismo” com estudo e apresentação de dados como esse que você citou. Sou educadora e o meu trabalho é ensinar o público jovem, principalmente o periférico, sobre todas as nuances históricas e sociais que fizeram dessa uma sociedade nociva para negros, mulheres e LGBTs. A questão é de jogar essa verdade ao mundo até que a situação mude. Não é um problema denunciar vítimas quando existe de fato um Estado agressor. E é essa nuance que tento fazer ser entendida através do meu trabalho.

Padrão