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Crise política ou uma oportunidade à Esquerda?

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Desde o início das operações da Lava Jato a imprensa e as conversas de botequim não poupam as palavras crise e política.

Desculpas antecipadas aos jornalistas, analistas e cientistas políticos, mas crise política cabe muito mais àqueles que pertencem a uma classe econômica bastante específica.

Empresários estão cada vez mais desesperados com cada delação de seus colegas. A última, vinda dos irmãos Batista, donos da maior empresa de carnes e derivados do planeta, a JBS, colocou não só a cabeça do presidente decorativo na guilhotina, mas também projetos pautados, no Congresso, para os patrões: as reformas trabalhista e previdenciária.

As estruturas estão abaladas e esta é hora, de tantas outras desperdiçadas, da Esquerda brasileira tomar um posicionamento mais firme, crítico e de apresentação de um programa político.

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E aí está uma questão: quem é a Esquerda brasileira, e qual é o seu programa político? Isso ainda não está claro e em meio a ‘crise política’ que parte considerável da direita passa, nenhum norte é apresentado.

Não estamos falando de nomes próprios, mas falando de um programa comum que dialogue com diversas frentes e principalmente com a população. Talvez seja esta uma possível crise dentro dos movimentos à Esquerda: não há uma mesa de negociações, mas sim um muitos pais reivindicando um filho que nem nasceu.

Gente interessada no debate não falta, de todas as regiões do país e das mais variadas vertentes e movimentos, mas a mesa do debate com uma proposta de construção de programa político coeso não está dada.

As cartas do jogo não são dadas pela Esquerda, tampouco ela joga com as cartas da Direita. Não está claro para o diálogo comum quem são as atrizes e atores desse movimento. Ao mesmo tempo as instituições, quaisquer que sejam, estão com sua imagem quase que em apedrejamento pela ‘opinião pública’.

Esta é uma questão preocupante dentro de uma Esquerda enferrujada, mas que tem seu lugar no presente por conta de um forte passado sustentado em movimentos estruturados nessas instituições.

Enquanto o debate é este, o terreno está livre para o conservadorismo ficar mais rígido e mais difícil de combater, mesmo em crise. O que vemos na cobertura da imprensa, seja ela corporativa ou independente, é o enfrentamento entre a própria direita para ocupar espaços e dos setores empresarial tentando pegar cada um seu salva vidas para se manter no sistema.

Não podemos negar que na história recente do Brasil, nossa política pode até ter colocado o trem à Esquerda, mas não esqueçamos que os trilhos, a estrutura, continuaram os mesmos.

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E nos caminhos tortuosos, mais uma curva é feita

Não é possível, neste terceiro milênio, tratar de um único tema sem abordar todo um contexto e cenário com tal diversidade costurada

Mafalda

Nossa vida é cheia de caminhos tortuosos. E que bom. Se ficamos muito tempo com as mesmas ideias, ideologias e visões, pode ter certeza, algo de errado existe em nossos miolos. Já que, linhas retas, em geral, sempre nos levam a pontos extremos; e visões extremas do mundo quase sempre resultam em ações nada boas.

Por um tempo; bom tempo mesmo; desde quando comecei a me conscientizar politicamente, caminhei por caminhos que setorizam os debates, as militâncias, as organizações. Tal discurso da ética-política do ‘cada um no seu quadrado’ tem uma função, principalmente no mundo neoliberal globalizado que vivemos. Sua função é reduzir o progresso social a espaços específicos. Ou seja, gays debatem suas questões apenas com outros gays, transgêneros dialogam apenas com transgêneros, negros estão entre negros, trabalhadores operários entre trabalhadores operários, indígenas percebem suas mazelas apenas entre indígenas…, e assim segue a vida.

A ‘humanicidade’ do ser humano vai se perdendo e aí cada um vai se tornando indivíduo e então são criados o gay, a lésbica, o negro, a travesti, o trabalhador, a celebridade, o doutor, o político… esquecemos o quanto estamos conectados: do diálogo afetuoso às opressões.  Esquecemos que para a heterossexualidade existir é necessário existir a homossexualidade, o homem só existe por conta do que criamos o que é ser a mulher, o branco é o branco por conta do que é imaginado e criado do ser negro. Com a globalização neoliberal tudo está misturado em um liquidificador sócio-político: economia, política, questões sociais e crenças religiosas…

A partir desta semente de pensamento começo a fazer outra curva de pensamento, um pensamento dotado de maior complexidade, onde o ‘protagonismo’ não é confundido por personalidade; e o que está ao centro é o ser humano.

Quando uma lupa é posta neste contexto, percebemos que todos; universalmente todos; temos nossos privilégios e mazelas. Em alguma instância da nossa vida deixamos de ser oprimidos para sermos opressores. É assim que funciona dentro da atual máquina social que opera a população mundial.

Seguir uma linha tortuosa se faz necessário para que novos horizontes sejam descobertos. Não é possível estar só em um debate, num mundo tão globalizado, quando existem outros diálogos igualmente importantes conectados com aquele em que estou.

Aos poucos, você que costuma ler meu modesto blogue vai perceber uma guinada mais forte e ampla em minhas publicações para um debate mais complexo em torno dos Direitos Humanos e Cidadania. O tema em que eu mais escrevia: os problemas das questões de Gênero não perderá espaço, mas será mais um dos temas abordados.

Não é possível, neste terceiro milênio, tratar de um único tema sem abordar todo um contexto e cenário com tal diversidade costurada.

Comente, debata, discorde e sugira, mas sempre lembrando da importância da educação e responsabilidade social que devemos ter para com o próximo. Por trás destas linhas e tela há um ser humano, humano.

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Cuidado; ovos frágeis

Ao abrir qualquer navegador de internet deveria aparecer um aviso: “cuidado; ovos frágeis”

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Falar que o ciberespaço está modificando modos comportamentais de grupos sociais não é nenhuma informação nova ao leitor. Entretanto, é preciso problematizar as experiências colaterais que se resultam na rede e o quanto elas impactam no mundo material.

Compreender que por trás dessas linhas que lemos e rolamos tela abaixo existem pessoas autorais – às vezes nem tão autorais assim, mas pessoas que compartilham das ideias – e que essas mesmas pessoas têm vivências muito particulares que devem ser respeitadas pode ser um exercício sacrificador para muito.

Com o avanço do acesso ao uso das novas tecnologias de informação, os indivíduos deixaram de ser apenas receptores passivos de conteúdo e passaram a ser interlocutores ativos na transmissão de mensagens.

Resultado: a rede facilitou separar aquilo que sustenta e legitima ideias a priori; e com isso criou micro-redes sociais que colaboram apenas para a manutenção de matrizes de funcionamento dos modos de ver o mundo; e a partir disso polarizando os debates; ao invés de se construir diálogos convergentes entre ideias e ideologias diferentes.

Reacionários se tornam mais reacionários e esquerdistas mais esquerdistas.

A radicalização no modo de pensar e de reproduzir as representações no mundo real vão se tornar cada vez menos moderadoras e dialogáveis para experiências colaterais que colaborem para uma construção social sensível ao outro.

Ao abrir qualquer navegador de internet deveria aparecer um aviso: “cuidado; ovos frágeis”. A rede se tornou um amontoado de comunidades argumentativas prontas para a batalha; e qualquer um que tente assumir um papel de mediador é atacado pelos dois lados: torna-se ‘coxinha’ para uns e ‘petralha’ para os outros.

Não é difícil encontrar nos grupos virtuais das redes sociais pares que compartilham das mesmas ideias se agridem pela falta da compreensão do outro. Provavelmente, o bom senso esteja em falta quando nos sentimos ‘protegidos’ atrás de uma conexão virtual de rede.

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Já pensou quando a velhice chegar?

A palavra velhice pode parecer antiquada, forte e até mesmo inadequada. Mas a realidade é que um dia esse momento vai chegar. Você pode chamar de terceira idade, melhor idade ou de velhice mesmo. O quê importa é ter consciência de que, se você passar dos 60 anos, terá outras necessidades e expectativas.

Minha mãe é cuidadora; então, as questões do envelhecimento estão muito presentes no meu cotidiano e um artigo publicado no jornal The Guardian chama atenção ao processo de envelhecimento da população LGBT. E quem conta sua experiência ao jornal britânico é o diretor executivo Des Kelly da Care Home and Residential Home, entidade sem fins lucrativos que trabalha com a questão dos lares para idosos no Reino Unido. Segue o texto:

namoradas

Um colega me contou recentemente sobre a relação dois residentes de um lar de idosos, onde já trabalhei. A equipe de cuidadores, inicialmente, achou que era apenas uma amizade forte entre eles, que tinham Alzheimer. No entanto, com o passar do tempo, tornou-se óbvio que eles estavam atraídos um pelo outro, e a aproximação estava se desenvolvendo para um relacionamento. De pronto, a equipe de cuidadores os separou, e inclusive ameaçou aos dois de contar aos parentes sobre o relacionamento.

A atitude dos cuidadores é apenas um exemplo do que a população LGBT idosa enfrenta na atualidade. Então resolvemos criar em fevereiro, de 2015, a LGBT History Month (O Mês da História LGBT – tradução livre) para criar um momento oportuno de discussão em torno do envelhecimento da população LGBT, e dar apoio a esta comunidade.

O projeto basicamente debate as necessidades dessa comunidade, e se pergunta como fornecer aos seus membros um apoio mais adequado. Então, após os estudos executados desde fevereiro, vamos divulgar casos práticos e bem sucedidos de políticas sóciais positivas aos idosos LGBT.

Neste primeiro momento publicamos, em nosso site, um artigo sobre os desafios da demência na comunidade LGBT; o que é importante e vital para conscientizar as pessoas. De acordo com estimativas, existem cerca de 1,2 milhão de idosos gays e lésbicas no Reino Unido, e estas pessoas precisam de atenção especializada.

Além disso, o Alzheimer está no topo da agenda nacional (do Reino Unido), dados afirmam que haverá um número, até 2025, de cerca de um milhão portadores de Alzheimer no país, e não há nenhuma referência específica às questões LGBT. Se levarmos em conta que a população LGBT  mais velha já vivem afastadas de seus familiares, pé provável que eles merecem a devida atenção.

Nós sabemos quem um dos maiores desafios é o preconceito atual. Por exemplo, no caso do Alzheimer, a forma com que o idoso se relaciona pode mudar. Enquanto alguns perdem suas inibições devido à demência, outros se sentem incapazes de abrir sua sexualidade ou até o estado transgênero. A doença causa angústia e confusão;  e esta experiência pode ser aumentada no casos de pessoas idosas que precisam lidar com suas percepções de sexualidade ou gênero. Os lares de acolhida de idosos precisam estar preparados para isso.

Outro grande obstáculo é a falta de pesquisa. Como a Comissão de igualdade e Direitos Humanos aponta em seu relatório de 2010, a população LGBT idosa tem sido negligenciada na saúde e na legislação de assistência social, política, de pesquisa, orientação e prática.

Então, quais são as soluções? Alguns ativistas acreditam que cuidados  residenciais (o serviço de cuidadores em residência) especificas de LGBT com Alzheimer podem ser uma resposta rápida à demanda. No entanto, além do fato de que o financiamento público para tais qualificações seja improvável no atual clima financeiro, muitas cuidadores não querem viver em ambientes dedicados apenas aos LGBT.

Para conseguir isso, precisamos desenvolver muito mais as boas práticas do serviço de saúde. Incorporando histórias reais de pessoas LGBT na formação de cuidadores de pessoas com Alzheimer, o que vai ajudar a tornar a questão mais conhecida. Além disso é preciso replicar o trabalho de pesquisadores e cuidadores para LGBT em diversos fóruns, para dar maior suporte no aperfeiçoamento do trabalho.

A dignidade no atendimento aos idosos LGBT, de modo geral, é de grande importância em nosso setor, mas devemos perguntar se os valores fundamentais de respeito e compaixão realmente se estendem a todos aqueles que apoiamos.

*Com informações do The Guardian

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