Subversão

Câmara dos Deputados quer discutir a violência contra LGBT nas escolas

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Reprodução da internet

Enquanto Brasília é alvo dos escândalos de corrupção, um golpe institucional e retrocesso de direitos, deputados que compõem a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) não querem deixar retroceder os direitos e a cidadania da população LGBT, no Brasil.

Prova disso são as pautas que estão em discussão na Comissão, como o Requerimento 48/2017 de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) que pede a realização de audiência pública da CDHM em conjunto a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional para debater experiências exitosas adotadas nas escolas do Brasil, Chile e Uruguai no combate à violência contra estudantes LGBT.

O pedido tem como argumentação uma pesquisa realizada em 2016 em seis países – Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Peru e Colômbia, e reuniu subsídios importantes para fundamentar a adoção de políticas públicas necessárias que possibilitem transformar as instituições educacionais em ambientes mais seguros e acolhedores para estudantes LGBT.

No Brasil, a pesquisa foi feita pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e pelo Grupo Dignidade com apoio da Universidade Federal do Paraná.

De acordo com a pesquisa, o ambiente educacional com adolescente e jovens LGBT mostra que, apesar de todos os esforços, ainda estamos bem distantes da realidade de aceitação do outro. No Brasil, 73% dos estudantes sofre bullying, 60% se sente inseguro no ambiente escolar e 37% apanhou dentro da escola.

Peso de Lei
Ainda no debate em torno da proteção e promoção da cidadania e direito das LGBT, a deputada Luizianne Lins (PT-CE) enviou à CDHM na última terça-feira (16) o Projeto de Lei 7292/2017 que pede alteração do art. 121 do Decreto de Lei 2.848 de 7 de dezembro de 1949 do Código Penal, para reconhecer o LGBTcídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei 8.071, de 25 de julho de 1990 para incluir o LGBTcídio no rol dos crimes hediondos.

Na justificativa do projeto estão dados do relatório da violência contra identidade de gênero e orientação sexual realizado em 2013 e publicado pelo governo que sistematizou denúncias feitos pelo Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Ouvidoria da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) que identificou entre os casos mais reportados entre violência psicológica: 36,4% são humilhações, 32,3% hostilização e 16,2% são ameaças.

No relatório, as violências físicas aparecem em terceiro lugar, as lesões corporais são as mais reportadas, com 52,5% do total de violências físicas, seguidas por maus tratos, com 36,6%. As tentativas de homicídios totalizaram 4,1%, com 28 ocorrências, enquanto homicídios de fato contabilizaram 3,8% do total, com 26 ocorrências.

De acordo com o site da Câmara dos Deputados, o PL 7292/2017 aguarda designação de relator na CDHM.

Vai ter mais bicha no Congresso
Desde o início de abril (5) está protocolado o requerimento 26/2017 que pede a realização do 14º Seminário LGBT que é tradicionalmente realizado na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O Seminário LGBT tem por objetivo, nesta edição, pautar em primeiro plano a cidadania e as vidas da população de travestis e transexuais, além de promover o diálogo entre os diversos segmentos da sociedade para a promoção dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, bem como discutir aspectos culturais e modo de vida das LGBT.

O requerimento foi assinado por Chico Alencar (PSOL-RJ), Erika Kokay (PT-DF) e Janete Capiberibe (PSB-AP) e pede que o Seminário seja realizado no dia 13 de junho, duas semanas antes do Dia Internacional do Orgulho LGBT, no Auditório Nereu Ramos.

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Chá da tarde

Que tal encontrar azamigas pra dar pinta em um sábado de Outono?

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No próximo sábado, 16, as cidades de Fortaleza, Recife, Brasília, Belo Horizonte, Sorocaba, Rio de JaneiroSalvador e em São Paulo vão sediar o Encontrão Afeminado. Na capital paulista será no conhecido vão do MASP, Avenida Paulista, às 16h.

As atividades programadas e divulgadas na página do evento são oficina de stencil, com Charlotte D’fall; roda de conversa, com RUA e Revolta da Lâmpada; e passarela Afemina, com Duda Dello Russo e Mirella Rocherfort.

Vale lembrar que no dia 17 é celebrado o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Um ótimo momento para reflexão não só da sociedade, mas da própria militância.

Então, meninxs, preparam seu saltinho e batom e vamos para a rua por nossa cara no Sol.

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Bandeira

Tweet da Pitty. Beijo da Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Derrota do Levy Fidelix.

Na correria do trabalho, dos estudos e outros corres da vida a gente nem percebe que o mundo está vivo e é possível ter esperança nele. Da noite de domingo, 15 de março, até a noite de segunda-feira (16), a população LGBT teve o que comemorar, tirando a importuna (embora respeitado pelo espetáculo da democracia) manifestação que ocorreu pelas capitais paulista. Confira:

Tweet da Pitty
Não é de agora que a cantora Pitty acerta no discurso em defesa das minorias. Mas, na última segunda-feira ela divou em um tweet de resposta a outro usurário da rede social em que dizia para ela voltar para a cozinha. Leia e aprecie:

Beijo da Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg
Esperar o último capítulo pra quê? A Rede Globo parece ter aprendido o caminho e não problematizar o beijo entre mulheres ou homens em suas telenovelas, e logo no primeiro capítulo de Babilônia, Fernanda Montenegro e Nathalia Timbergh arrasam na cena. Não faltaram elogios.

Derrota do Levy Fidelix
Depois das declarações lgbtfóbicas durante sua campanha na corrida Presidencial, e sua derrota, Levy Fidelix (PRTB) foi condenado em primeira instância a pagar R$ 1 milhão pelas declarações contra a população LGBT. Para o UOL, Levy declarou que irá recorrer da decisão. Ao Blog, o advogado Paulo Iotti explicou que “a juíza determinou que o direito de resposta, a ser pago por ele, seja realizado imediatamente, até trinta dias após a publicação da sentença. Em tese ele pode recorrer disso também. De qualquer forma, a condenação é histórica em termos de respeito à cidadania LGBT. Pela sentença, o Conselho Nacional LGBT determinará a destinação do valor da indenização, desde que voltado para ações pró-cidadania LGBT. Mas isso somente quando o processo ‘transitar em julgado’, ou seja, quando não couber mais recursos ou ele deixar passar o prazo sem recorrer. É importante lutarmos para que a condenação seja mantida, bem como o valor indenizatório seja mantido em patamar elevado, para dissuadir outras pessoas de discursos de ódio homotransfóbicos. Farei uma petição no processo nesse sentido pelo GADvS – Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual – caso ele apele. o que imagino que seja provável”.

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Bandeira

Da manifestação recheada com catupiry às preocupações das LGBT

A segunda-feira, 16 de março, começa com ressaca moral e política. O recado foi dado pelas principais ruas do País no último domingo, 15 de março; e se engana quem engole o discurso, recheado de catupiry, de que as manifestações foram apenas contra a corrupção. Basta observar as imagens espalhadas nas redes sociais para encontrar as imagens pedindo a volta dos militares ao poder, o impeachment e a supremacia de uma classe socioeconômica em detrimento dos Direitos Humanos.

É importante chamar atenção para a fala do filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), em uma palestra proferida na última semana em São Paulo, em que ele afirma que os grupos políticos de extrema-direita no Brasil estão voltando sua atenção, sobretudo, para a área de costumes. “A extrema-direita está se distinguindo do restante por um ódio cabal aos direitos humanos”, diz em sua fala reproduzida no O Estado de São Paulo. Que para ele “atacam o homossexual, a igualdade de gênero, os direitos das mulheres, e por aí. Tudo isso tem um alcance muito grande no Brasil”.

Com o apoio das ruas, do último dia 15, as bancadas da bala, evangélica e fundamentalista se empoderam ainda mais com seu discurso machista, lgbtfóbico e misógino; o que torna as preocupações da população LGBT maiores. Estamos falando de um discurso de ódio enviesado que, por vezes, muitos não conseguem enxergar.

A ex-candidata à presidência da república Luciana Genro bem analisa em suas Impressões Sobre 15 de Março, texto publicado no portal Juntos, que “predominou foi a ideologia da classe dominante, e no guarda chuva desta ideologia as posições de direita e extrema direita também se expressam”.

Fica claro que é preciso que as associações LGBT e seus movimentos se unam com as diversas vozes da luta pelos Direitos Humanos, com urgência, ou veremos; mesmo com a continuidade deste Governo; um avanço ainda maior do fundamentalismo das pautas dos tradicionais costumes da família branca brasileira. Parece uma análise óbvia, mas se é óbvia por qual motivo existe certo silenciamento de tais instituições e organizações que se dizem lutadoras dos direitos LGBT?

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Cachola

Alguém salva a Gaybriela perdida na Paulista?

Compreendo quando os membros Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo preferiram se acomodar no exercício do pensamento e lançar a campanha de 2015 com o seguinte tema: Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeita-me!

A neurociêntista Suzana Herculano-Houzel já diz que pensar “não é só uma questão de motivação. Pensar – usar neurônios específicos para resolver um problema específico – cansa mesmo”. E se pensar dá canseira, imagina abrir um debate inclusivo, com todos os grupos de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros! Deve dar ainda mais cansaço para os membros da Associação.

Agora é oficial, marcada para o dia 7 de junho de 2015, a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo terá como tema a “Modinha para Gabriela” do compositor e músico Dorival Caymmi.

O tema foi reduzido às questões biológicas da sexualidade. E a Genética está distante de calar as construções das normas baseadas no ideal ocidental cristão. Em resumo, a entidade, mesmo querendo incluir as questões de identidade à pauta do debate, na verdade excluiu. Questionar a despatologização da transexualidade pra quê? A pauta mais importante é a das Gaybrielas.

Tudo bem, a tentativa que os responsáveis – é preciso responsabilizar as pessoas – de decidir por este tema pode seguir um raciocínio de combate ao discurso lgbtfóbico de que ser “gay” é uma escolha. Mas para sambar na cara da tradicional sociedade que vivemos é preciso de um pouquinho mais do exercício do pensamento e conhecer o Samba.

Já pensou que os modelos normativos da sexualidade que existem atualmente é uma mera construção social para se encaixar ‘perfeitamente’ ao modelo patriarcado; que é branco, machista, homofóbico e todo errado?

Sugiro deixarmos a questões biológicas de lado e partir para o debate filosófico, social e político para começar a respeitar alguns pensadores como Simone de Beauvoir. Na frase que inaugura o segundo volume da sua obra mais famosa: O Segundo Sexo, ela afirma que não se nasce mulher, torna-se mulher.

Pode parecer difícil para as Gaybrielas entender e compreender que o senso comum de sexo entre o que é ser homem e o que ser mulher é uma construção criada historicamente de um determinado grupo dominante da sociedade. E essa construção não é nova, Aristóteles ao naturalizar o sexo em prol da construção de uma família que resulte em uma prole diz: é preciso, inicialmente, reunir as pessoas que não podem passar umas sem as outras, como o macho e a fêmea para a geração. Esta maneira de se perpetuar não é arbitrária e não pode, na espécie humana assim como entre os animais e as plantas, efetuar-se senão naturalmente. É para a mútua conservação que a natureza deu a um o comando e impes a submissão ao outro.

Para quem não sabe, é preciso informar que o pensamento aristotélico, em torno do homem e sua organização social; e o ptolomaico em torno da concepção do mundo cósmico é, em grande parte, a base argumentativa que sustenta o discurso religioso cristão ainda hoje, no XXI. Vide o que Aristóteles fala sobre “macho e fêmea” na citação acima. Bem parecido com a fala de muitos deputados por aí, no Congresso brasileiro, não?

Não é preciso se importar se existe uma explicação biológica para a homossexualidade ou transexualidade. A Associação poderia se pautar no questionamento dessa normatização da sexualidade humana, empoderada pela igreja e sociedade patriarcal, para que haja avanço no debate de políticas públicas para as letrinhas L-G-B-T-T-I (e mais todas as outras denominações que meu limitado conhecimento pode desconhecer), e não cair na armadilha do “eu nasci assim”.

É claro que com o caminhar da História, o encenação dos papeis entre homem e mulher (e outras identidades de gênero) mudaram, mas a essência estava ali: o homem superior a mulher, e todo o conceito do que é ser homem e do que é ser mulher baseados entre ‘macho’ e ‘fêmea’.

Por exemplo, a partir do século XIX, com as revoluções industriais, a mulher deixa de ser apenas o objeto de procriação, e agora é “valorizada” como a mãe que educa os filhos e dá atenção aos trabalhos domésticos.

A cientista política australiana Raewyn Connel fala dessa hierarquia de gênero: entre a masculinidade hegemônica com maior poder e a masculinidade homossexual com menos poder. E a relação da feminilidade nesse contexto.

Afirmar, eu nasci assim, eu cresci assim, eu vou ser sempre assim: respeita-me é quase cair na cilada desse tal empoderamento do sexo biológico em detrimento dos pequenos avanços conquistados pelos direitos da população LGBT e de uma discussão mais sóbria.

Como sugestão, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo poderia, nas próximas edições, exercitar melhor o pensamento – mesmo que canse e dê trabalho.

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Revista Junior, Trabalho

A vida de refugiados gays no Brasil

Tente imaginar que você nasceu em um país onde sua forma de amar não é protegida por lei, que sua forma de amar não é aceita socialmente e que a religião dominante ainda controla o Estado e condena sua forma de amar. Você cresce, vai à escola, acha estranho seu sentimento por acreditar que ele é algo muito errado e prefere escondê-lo. A adolescência chega e você não consegue esconder que não vive conforme os padrões sociais e religiosos impostos em sua terra natal. Até que descobrem que você é homossexual.

Se você vivesse no Irã como Mina Mahan*, 30 anos, poderia ser condenado de acordo com o Código Penal do Irã, que é baseado nas leis islâmicas, O mosahegh (lesbianismo) é considerado crime, com punição de até 100 chicotadas. Se o ato for repetido três vezes a condenação é a morte. A mesma punição é aplicada para homens. Caso fosse punido três vezes por sodomia, você seria condenado à morte, junto com seu parceiro.

Se você vivesse no Paquistão como Ali*, 31 anos, poderia ser condenado de acordo com a lei baseada na Sharia: quem tem voluntariamente relação sexual contra a ordem da natureza com qualquer homem, mulher ou animal será punido com prisão de dois a 10 anos, podendo se estender à prisão perpétua ou morte por apedrejamento.

O que você faria nesta situação? A solução encontrada pela iraniana Mina e o paquistanês Ali foi procurar em outro país (Brasil) ajuda como refugiado por perseguição social. Aqui eles receberam acolhimento, ajuda jurídica e agora podem viver em liberdade. Sentados em uma sala em um edifício da Rua Venceslau Brás, centro de São Paulo, no corredor do Centro de Acolhimento de Refugiados, do Caritas, dezenas de seres humanos vindos do Congo, Angola, Irã, Israel, Síria, Senegal e tantos outros países, esperavam atendimento para regularizar sua estadia no Brasil e conseguir o documento de refúgio, que dá direito a CPF, RNE (documento de residência de estrangeiro no País) e Carteira de Trabalho.

Ali: o escritor
Formado em Comunicação e pós-graduado em Mídias Sociais, Ali poderia ter uma vida de sucesso em seu país, se seu amor não fosse proíbo no Paquistão. Ele nasceu e viveu na capital Islamabad. Passou a infância e a adolescência entre a escola, sua casa e a mesquita, assim como sua mãe e pai. Até que um dia olhou diferente para um rapaz, que lhe chamou atenção. Escondeu isso de todos. Na faculdade tentou até se casar com uma moça por quem se apaixonou, mas como sua situação financeira era difícil, sua mãe lhe aconselhou que não era o momento. Até que ele conhece um rapaz da Arábia Saudita e sua vida sai da normalidade de antes. Ele foge para o Brasil.

“Nasci na capital do Paquistão, minha infância sempre foi muito regrada. Na minha época, todos viviam entre seus trabalhos, escola e casa. Não tem muito o que fazer, hoje as coisas já devem ter mudado. Mas a minha vida era mais simples. A primeira vez que percebi um homem foi quando estava na faculdade, desde então músculos sempre me chamaram atenção, homens altos e fortes. Não gosto de gays afeminados. Você praticamente não vê homossexuais afeminados andando pelas ruas. É bem difícil. Todos lá são bastante discretos.

Mas, antes de começar a olhar para homens, eu até me apaixonei por uma mulher. Em meu país quando um rapaz gosta de uma mulher a primeira atitude a ser tomada é conversar com seus pais, então eles vão falar com a família da moça e se eles aceitarem eles se casam. Eu estava na faculdade, estudava de manhã e de tarde trabalhava. Não tinha condições financeiras para arcar com um casamento, então minha mãe decidiu me aconselhar em não me envolver com nenhuma mulher naquele momento. Tive uma ou duas namoradas na minha vida. Até que, também na universidade, olhei diferente para um rapaz. Até que deixei este desejo primário de lado e segui minha vida. Mas como isso vinha à minha cabeça, resolvi buscar algo.

A vida para um paquistanês gay é muito difícil,  lá você não tem nenhuma liberdade. Se sua família descobre que você é homossexual ou tem tendências homossexuais eles irão te encaminhar para um tratamento psicológico para você ser curado. Meus pais nunca imaginaram que eu pudesse ter um relacionamento com outro homem. Realmente a vida lá é muito difícil.  Existe uma região do Paquistão onde não há lei, quem tem poder faz sua própria lei. Nunca fui para esta região, mas amigos meus me disseram que lá gays poderiam viver em paz, mas não tenho certeza sobre isso.

Vivendo neste cenário, a única forma que você tem de encontrar outros gays é pela internet, e foi o que eu fiz. No mundo virtual encontrei um rapaz da Arábia Saudita, marcamos um encontro depois de um tempo conversando pela internet. Quando nos vimos pela primeira vez eu já não gostei dele, ele era muito afeminado e eu não gosto de pessoas assim. Resolvi deixar de lado. Também não tive muitos homens, como eu disse, é muito complicado viver em meu país. Terminei a faculdade e comecei a pós-graduação, eu queria em uma universidade pública, mas não deu certo porque me graduei em uma universidade particular. A minha situação foi ficando complicada no Paquistão, foi quando cheguei ao Brasil.

Quando cheguei, pensei que seria professor de inglês, mas meu sotaque paquistanês não agradou muito e não consegui emprego, meu dinheiro foi acabando e fui buscar ajudar em uma mesquita, hoje não sou muito religioso, já fui mais. Na mesquita me disseram que eu precisava ir para Brasília e lá fazer meus documentos como refugiado. Eu só tinha o dinheiro de passagem de ida e volta. Cheguei à cidade, fui até o departamento responsável por despachar estes documentos e a mulher me disse que eu precisava voltar em alguns dias, eu disse que não dava, eu não tinha dinheiro para me alimentar, cheguei a pedir até minha passagem de volta para o Paquistão, alguma coisa deveria acontecer e deveria ser naquele dia. Depois de quatro horas ela voltou com os papeis de refúgio.

Sem dinheiro, conheci um rapaz gay de Campinas, juntei minhas malas e fui até a casa dele. Quando cheguei lá. Me arrumei, tomei um banho e ele me chamou para o quarto, quando começamos a nos despir percebi que ele era muito peludo, aquilo não me agradou, era estranho. Como eu estava precisando de ajuda, ele me disse que poderia ficar na casa dele. Foi lá que aprendi a falar português, que aprendi muitas coisas do Brasil. Mas ficava o dia todo dentro da casa, passaram três meses e eu não sabia o nome da rua que eu morava. Resolvi voltar para São Paulo. Gosto de escrever, ainda quero escrever um romance  Então, até tinha meu computador com uma novela inteira em inglês, mas me roubaram e perdi tudo. Agora escrevo tudo em pedaços de papel. Quem sabe um dia eu não consiga publicar meu livro. Moro em um albergue para moradores de rua, mas as coisas estão melhorando, recentemente consegui um emprego como caixa de supermercado.

A liberdade que existe no Brasil me fez descobrir quem sou. Agora já sei. Os gays daqui são muito promíscuos  Parece que não existe fidelidade, me entende? Se você está com uma pessoa, fica olhando para outra, desejando o corpo da outra. Percebi que esta não é minha vida e que eu desejo me casar com uma mulher e ter filho. Entretanto, se eu voltar para o Paquistão, na situação de homossexual, serei encaminhado para tratamento psicológico.”

Mina: a esportista
A liberdade da iraniana Mina Mahan, 30 anos, sempre esteve presa dentro dos muros do colégio britânico em que estudou durante a infância em Teerã, capital do Irã. Dentro dos limites do colégio, ela podia ser a jovem que sentia ser, sem os paradigmas e regras impostos pelo sistema opressor religioso de seu país. Enquanto estudava, a jovem usava as roupas que desejava, brincava com os garotos e conversava livremente. Entretanto, seu sentimento de liberdade acabava todos os dias quando precisava colocar o lenço na cabeça, como todas as mulheres muçulmanas usam no Irã, e viver sob os olhares do tirano governo. Isso porque Mina nasceu em um país onde é proibido amar, ou pelo menos sua forma de amar é condenável e o preço pago é com própria a morte.

“Desde os quatro anos estudei em um colégio inglês em Teerã, e era tudo muito confuso na minha mente, já que durante as horas que passava lá dentro eu tinha liberdade para falar, para brincar com garotos, para conversar com minhas amigas. Eu tinha liberdade no meu modo de me comportar lá dentro, tudo isso era ótimo durante o horário de aula, mas aí quando eu tinha que sair tudo mudava, eu não tinha mais liberdade, eu tinha que me comportar não mais de acordo com as regras do colégio e sim de acordo com as regras do governo. Eu tinha um namorado, na época da escola, ele era filho de um funcionário da Embaixada da Inglaterra lá em Teerã, dentro da escola podíamos andar de mãos dadas, mas se saíssemos assim na rua a policia já perguntaria ‘quem é ela e quem é ele?’. Você não pode fumar, não pode beijar, não pode usar determinado tipo de roupa, você não pode fazer nada no Irã. Isso tudo é muito complicado. Esse tipo de pensamento é muito pesado para meu modo de ver o mundo.

Quando completei 18 anos fiz minha primeira viagem para fora do Irã, passei um tempo na China e lá tive muitas amigas, e a forma de vida chinesa é completamente diferente da vida iraniana, foi quando meu olhar se despertou para a primeira garota, uma russa, ela tinha 33 anos. Eu a beijei e senti algo bom em estar com ela. Foi neste momento que percebi quem eu era, meu sentimento. Nunca cheguei para meus pais e disse: ‘sou lésbica’, tudo aconteceu de maneira muito natural e eles me aceitam como sou. Mas viver como lésbica no Irão é algo muito difícil. Não existem lugares gays, lugares em que lésbicas se encontram, tudo é feito na privacidade. Entretanto, é até fácil sair às ruas de Teerã com seu namorado, afinal a homossexualidade não altera a personalidade de um iraniano, lá não têm gays como aqui, que pintam o cabelo, que se produzem para sair, são homens e mulheres comuns, então até é possível ver casais gays brincando em alguma praça ou caminhando abraçados, ninguém vai imaginar que aquelas duas pessoas na verdade estão se amando.

A vida é difícil não só para gays ou lésbicas, a vida no Irã é difícil para qualquer iraniano. Você não tem liberdade neste país, o governo é quem decide seu modo de se comportar, seu modo de se vestir, seu núcleo de amizades. Não dá para ser aquilo que você sente que é, não dá para ser quem você realmente é. Minha vinda ao Brasil se deu ao fato de eu amar a possibilidade de viver minha vida como ela é. Não tive uma vida tecnicamente lésbica no Irã, eu passei por esse momento lá. Não é que olho uma mulher e quero ficar com ela, é um sentimento. É algo que não dá para explicar com palavras. Até que chegou um momento em que me envolvi em tantos problemas com o governo e a policia que cheguei para meus pais e disse: ‘pai, não posso viver aqui sendo quem sou, não posso viver neste país da forma que quero ser, eu nasci assim, sou assim’, e então comecei a buscar um país que me desse essa liberdade.

Já viajei para mais de 80 países, mas é tudo muito complicado, já que quando seu visto acaba você tem que voltar para seu país de origem, foi quando eu conheci o Brasil. As pessoas falavam que o governo daqui te dá a liberdade de ser o que você é, que se você precisa de ajuda ele te ajuda. Foi quando embarquei para cá.

Não tenho nenhuma lembrança boa do Irã, a não ser da escola, mas depois lembro o tormento que era sair de lá depois da aula, lembro-me das ameaças e dos tempos difíceis e prefiro esquecer tudo. Sou formada em Esporte e também em Psicologia, no Irã. Cheguei a fazer alguns trabalhos como modelo, mas tudo está acabado, cheguei a procurar algum trabalho de modelo no Brasil, mas dizem que precisam de um book, não basta querer. Acho isso estranho, mas enfim. Estou há dois meses aqui e ainda não encontrei uma mulher para explorar este sentimento que tenho.”

Entenda
Refugiados: pessoas que estão fora de seu país natal por terem razões bem fundamentadas para temer perseguições relacionadas a conflitos armados, questões de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política, como também violação generalizada de direitos humanos.

Solicitante de refúgio: é alguém que afirma ser um refugiado, mas que ainda não teve seu pedido avaliado definitivamente pelos sistemas nacionais de proteção e refúgio.

Deslocados Internos: são pessoas deslocadas dentro de seu próprio país, pelos mesmos motivos de um refugiado. Ou seja, não atravessaram uma fronteira internacional para encontrar proteção e permanecem em seu país natal.

Apátridas: são pessoas que não são consideras como um nacional por nenhum país. Ocorre por várias razões, como discriminação contra minorias na legislação nacional, falha em incluir todos os residentes do país como corpo de cidadãos quando o Estado se torna independente e conflitos de leis entre Estados.

Retornados: pessoas que retornam voluntariamente e em segurança a seu país de origem.

Homossexuais
Atualmente não existe uma diretriz específica onde a orientação sexual seja motivo de pedido de refúgio. Por este motivo, alguns países podem negar o pedido de um solicitante caso ele esteja sendo perseguido em seu país de origem por ser homossexual. O Brasil é um dos países que aceitam homossexuais por encontrar uma brecha na diretriz, encaixando homossexuais no grupo de perseguidos por grupo social.

Na América latina existem:
Refugiados: 350.250
Solicitantes de Refúgio: 49.910
Deslocados Internos: 3.000.000
Retornados: 30
Apátridas: 10
* Fonte: UNHC Global Appeal 2010 – 2011

*Publicado na Revista Junior e Portal MixBrasil

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