Cafezinho

“Não basta apenas pedir desculpas”, diz pesquisador sobre missões cristãs em aldeias indígenas

indios-gays

Jamais a expressão jornalística ‘entrevista de gaveta’ caiu tão bem com o que vos apresento, caras, caros e cares internautxs. O que segue para nosso deleite é uma troca de e-mails que tive com o professor doutor Estevão Fernandes da Universidade Federal de Rondônia em 2015.

Dois anos depois, ele se destaca na imprensa e no mundo acadêmico apresentando suas pesquisas sobre as questões de gênero e sexualidade em um contexto indígena. Recentemente redescobri esta entrevista em meus arquivos e eu os apresento.

A entrevista é longa, já adianto. Ela foi feita no contexto de 2015, na ocasião o Papa Francisco pedia perdão pelas violações contra pessoas LGBTQIA+.

Sem dúvida vale a leitura.

Em seu texto “Homossexualidade Indígena no Brasil: desafios de uma pesquisa” você fala sobre a existência, no Brasil, de diversas referências às sexualidades indígenas operando fora do modelo heteronormativo desde a colonização. Em que ponto estão as pesquisas que dão luz às questões de gênero nas populações indígenas brasileiras?
Bastante avançadas, mas, ainda assim, com muito a se desenvolver. Dito de forma bastante genérica, há diversas linhas de pesquisa sobre o tema.  Temos pesquisadoras, e me refiro aqui particularmente à antropologia, que apontam para a importância dos estudos de gênero em povos indígena, com perspectivas bastante inovadoras, as professoras Cecília McCallum e Vanessa Lea certamente são referências a quem queira trabalhar o tema. Esta linha de pesquisa dialoga diretamente com os avanços da etnologia brasileira e da teoria antropológica mais recente.  Além dessa perspectiva, temos outras autoras, como Ângela Sacchi, por exemplo, que buscam trabalhar gênero em povos indígenas com um diálogo mais direto com os movimentos de mulheres indígenas. Esse tipo de perspectiva é bastante interessante, por dar visibilidade a um segmento do movimento indígena que foi, historicamente, esquecido por antropólogos, organizações indigenistas e, por vezes, pelo próprio movimento indígena. Digo isso generalizando, claro, mas fato é que os movimentos de mulheres indígenas não alcançaram historicamente, no Brasil, uma visibilidade que fizesse frente à enorme importância que sua luta representou e representa pela conquista dos direitos indígenas no país. Haveria aí uma série de hipóteses para essa invisibilidade e algumas pesquisadoras pelo país vêm buscando recuperar essa trajetória (Ana Aline Furtado Soares, por exemplo, vem realizando um excelente trabalho junto às mulheres Tapeba, em Caucaia, CE). Nesse sentido, caso um dos leitores do Esquerda Diário tenha interesse no assunto, recomendo o excelente artigo da Prfoa. Maria Rosário de Carvalho, “A questão do gênero em contextos indígenas” e da Profa. Cecília McCallum “Notas sobre as categorias ‘Gênero’ e ‘Sexualidade’ e os povos indígenas” Temos, ainda, vários trabalhos sobre indígenas queer sendo escritos ou redescobertos, autores como Luiz Mott, Martinho Tota, Paulo de Tássio Silva, e eu mesmo, que chamam a atenção para a heteronormatividade como uma das pedras angulares do processo de colonização. Penso, contudo, que podemos avançar ainda em alguns pontos. Um deles é uma maior interlocução com estudos e escritos de indígenas e pensadoras latino-americanas – uma autora que vem fazendo isso com bastante êxito é a Profa. Rita Laura Segato. Alguns canais importantes, como a Revista Estudos Feministas oferecem excelentes recursos a quem queira se inteirar sobre o tema, mas, apesar disso, ainda sabemos relativamente muito pouco sobre o que acontece na América Latina.

Você cita, no mesmo texto, uma série de ‘nomenclaturas’ usadas pelos próprios indígenas para definir membros que praticam relações com outros do mesmo sexo. Tais termos como tibira, çacoaimbeguira, cudinhos, kudina, guaxu… são usados de forma pejorativa, com injúria, ou não?
Boa parte desses nomes referem-se mais a papéis sociais do que a práticas sexuais, somente. Infelizmente os registros sobre o tema são, apesar de vários, bastante breves e pouco aprofundados, mas todos trazem em comum uma ideia que pode ser resumida da seguinte forma: o que chamamos hoje de homossexualidade era aceito como algo comum em várias etnias no Brasil. A carga pejorativa veio ao longo do processo de colonização que se estende até hoje. Dessa forma, seja pela ação de missionários, nas escolas, nos processos de “nacionalização”, “integração”, “pacificação”, ou qualquer nome que se dê às formas de incorporação compulsória dos povos indígenas ao sistema moderno/colonial/capitalista/patriarcal; ou mesmo no convívio cotidiano com os diversos agentes do contato, o lugar de enunciação dos povos indígenas, suas sexualidades, cosmologias, religiosidades, etc, foi sendo sistematicamente apagado, subalternizado e violentado. Historicamente, o que se buscou até recentemente, foi transformar o indígena em um trabalhador braçal pobre, com uma família nuclear adequado ao modelo hegemônico, cristão e heterossexual. A colonização é misógina, racista e homofóbica. Veja bem, eu disse “é”, e não “foi”, pois as estruturas de poder, de ser e de saber tornaram o projeto colonial algo possível ainda persistem, tendo sido invisibilidades e incorporados às relações que se mantêm com os povos indígenas no Brasil, ainda hoje. Nesse sentido, o que se vê é o surgimento de casos de injúria, preconceito, agressões e suicídios envolvendo jovens indígenas homossexuais no Brasil.

Como são as relações entre pessoas do mesmo sexo nas comunidades indígenas? De algum modo, é possível afirmar que existem relações sociais de afeto e aproximação entre índios que se relacionam com o sexo diferente e aqueles que praticam uma sexualidade com parceiros do mesmo sexo?
Cada etnia é uma realidade diferente, e com a sociodiversidade que temos no Brasil, não arrisco dar uma resposta. Além disso, há pouquíssimas pesquisas sobre o assunto no país. Uma das poucas que conheço é o excelente texto de Patrícia Carvalho Rosa (Unicamp) publicada na Cadernos Pagu n.41, em 2013 (disponível aqui) sobre o relacionamento entre duas primas Tikuna (AM) e a forma como isso é visto naquela sociedade. Acho que o texto oferece uma direção bastante promissora para os estudos a esse respeito, e espero que, a medida que as pesquisas avancem, possamos ter uma perspectiva mais realista sobre essas questões.

Em sua pesquisa, você faz um paralelo entre a experiência indígena norte-americana com a nossa.  Onde, assim como aqui, as sexualidades fora do modelo europeu-cristão foram também perseguidas por portugueses, ingleses, franceses e espanhóis. Não raro, nos deparamos com notícias onde citam expedições de religiosos à aldeias para disseminar o cristianismo. Tal colonização cristã ainda continua? E como se dá, atualmente, tal catequese e expansão do pensamento cristão e imposição de uma sexualidade padrão branca no meio indígena?
Há um caso que ilustra bem isso. Trata-se do caso que Luiz Mott chamou de “o índio tibira do Maranhão” (tibira é a denominação que os Tupinambá davam aos indivíduos homossexuais do sexo masculino): o padre Yves D’Evreux narra a brutal execução de um indígena, por sua homossexualidade, no início do séc. XVII – ele teve seu corpo amarrado a uma bala de canhão, que foi atirada, partindo seu corpo em dois. No início da colonização, havia um tronco localizado no centro dos aldeamentos missionários para punir os indígenas que andassem nus, fossem polígamos, faltassem a missa ou praticassem “sodomia”. Mas não precisamos ir tão distantes para termos relatos assim: Gersem Luciano dos Santos (índio Baniwa, AM) narra, em sua tese de Doutorado, como ele e um conjunto de amigos foram castigados por um padre por serem acusados de homossexualidade (“algo que só na mente dele [do padre] se passava, uma vez que, para os Baniwa, viver coletivamente  é regra básica”). Ysani Kalapalo, participando do X congresso LGBT em 2013, relata que para os Kalapalo, até a chegada dos missionários, o relacionamento entre mulheres era algo comum. Mesmo na fala de várias lideranças indígenas, ainda hoje, se percebe uma carga pejorativa no que diz respeito à homossexualidade. É bastante provável que isso se deva não apenas à ação missionária nas aldeias, mas também à própria gênese do movimento indígena brasileiro, estreitamente ligado a movimentos da igreja católica. A ideia de “sodomia” é, em si, bastante emblemática nesse sentido. Se lermos a passagem de Gênesis 19 (destruição de Sodoma) com Juízes 19 (história na qual, assim como em Sodoma, também há uma tentativa de estupro coletivo sobre um homem), veremos como as duas se parecem; mas a Sodomia (categoria surgida no século XI, por São Pedro Damião) “pegou”, e penso que isso se dê por uma razão: não se trata a história de Sodoma de homossexualidade. Selermos as passagens bíblicas que se referem a Sodoma e Gomorra com atenção, veremos que se trata de uma história sobre punição divina pela desobediência. Além disso, trata-se de uma punição sobre o coletivo por ações individuais, ou seja: não importa se você é um bom católico praticante, se seu vizinho não for, você pode morrer por causa dele! Isso é uma ideia poderosa, pois ela legitima um policiamento moral das condutas individuais, com o argumento de que disso dependa a sobrevivência do grupo. Se pararmos para pensar, essa ainda é o argumento usado por políticos, pastores, e setores mais conservadores da igreja católica, para justificar seus posicionamentos contra o combate a homofobia, por exemplo. Ou seja, isso não se restringe às aldeias.

Boa parte do que chamamos de Estudos de Gênero são pesquisas consideradas avançadas e produzidas na Europa e Estados Unidos. Entretanto, aqui cabe uma crítica, são estudos focados em um sistema ético-político bastante estruturado de uma moral europeia secular. O filósofo espanhol Paul B. Preciado nos alerta, por exemplo, que a patologia da sexualidade começa no século XVI. No que você acredita que o estudo de culturas não contaminadas por tais sistemas éticos que tornam a sexualidade um importante controle do corpo e do social chaves para o entendimento de outros modos de nos relacionar pode colaborar para uma sociedade menos violênte e controladora dos corpos, afetos, expressões e suas identidades?
Sinceramente, nunca parei para pensar nisso – e certamente não dessa forma. É uma perspectiva interessante. algo que me chama a atenção é o fato de que em várias das etnias pesquisadas até aqui, se um indígena pratica sexo com pessoas do mesmo sexo aquilo não é uma questão. Outras coisas são mais importantes: suas habilidades manuais, a atenção que dá aos seus parentes, se é trabalhador etc.

Ao observar seu histórico de orientações e participação em bancas de trabalhos acadêmicos é possível perceber o pouco interesse de estudantes e pesquisadores na pesquisa científica que busca explorar a sexualidade no contexto indígena. Quais são os problemas que você acredita para a realização de tais pesquisas: falta de interesse dos discentes, ou preconceito por parte da acadêmia?
Talvez um pouco das duas. Dito de forma franca e despretensiosa, acho realmente que o espaço para renovação das C. Sociais brasileiras está situado nas periferias da academia hegemônica. Não é a velha história de “complexo de primo pobre”, muito pelo contrário: temos aqui a possibilidade de incorporar, epistêmica e politicamente as falas daqueles alunos e colegas indígenas, quilombolas, camponeses, atingidos por barragens, ribeirinhos. Talvez o desafio seja realizar o que o semiólogo argentino, Walter Mignolo, chama de “giro epistêmico”. Agora, se há espaço para realizar esse giro na academia brasileira, são outros quinhentos. Trata-se de incorporar outras perspectivas de ética, estética, ser, saber, pensar ao próprio conceito de paradigma. Veja bem, não digo aqui transformar esses saberes em paradigma, pois isso equivaleria a destitui-los de sua originalidade, encapsulando-os em nossa perspectiva de paradigma. Sou muito mais radical, nesse sentido: acho possível e necessário tomar seus saberes em paradigmas. Assim, deixam de ser “saberes” e se tornam “conhecimento”. Deixam de ser um fim para se tornar um meio… Minha impressão geral é que a academia brasileira ainda reproduz em determinados setores, muito das relações de poder e hierarquia que estruturaram a construção da desigualdade no Brasil. Entretanto, sou otimista, acho que há vários espaços a serem conquistados – mas vai ser um processo longo, com certeza.

É possível adotar as praticas e performances da sexualidade indígena como reivindicação de uma cultura silenciada há séculos por meio de uma jornada civilizatória de grande devastação cultural? Ou, em outros termos, como as populações urbanas podem contribuir para o que você chama de ativismo homossexual indígena?
Se formos levar a sério o que dizem os ativistas two-spirit na América do Norte, não muito. Para eles, a crítica à homossexualidade compulsória é uma crítica anti-colonial. Segundo eles me disseram, eles têm muito mais a ver com um índio heterossexual brasileiro, do que com um branco homossexual norte-americano, posto que povos indígenas estiveram submetidos a relações de poder, violência, subalternização e invisibilidade subsumidos às relações coloniais que tornaram a heterossexualidade “o” padrão a ser seguido, assim, suas críticas são com relação a todo esse processo.

Em sua última visita à América Latina, o Papa Francisco pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica durante a colonização da América Latina. É possível, entre os crimes que a santidade trás à luz contemporânea, atribuir crimes de ódio contra a população indígena não-heteronormativas?
À luz do que dissemos anteriormente, com certeza, mas não basta apenas pedir desculpas pelos deslizes realizados anteriormente é essencial, sim, adotar outras práticas.

Como a Funai trabalha com essa população indígena?
Até onde pude constatar em minha pesquisa, nem Funai, nem ninguém desenvolve qualquer tipo de trabalho específico sobre o assunto. Pelo que ouvi, essas instituições são provocadas por demanda e, até onde sei, essas demandas não chegaram até esses órgãos. Tive notícias de que a Defensoria Pública da Paraíba foi a algumas aldeias após receber denúncias de agressões homofóbicas, mas, até onde sei, é uma das poucas iniciativas no Brasil a esse respeito.

Anúncios
Padrão
Subversão

Câmara dos Deputados quer discutir a violência contra LGBT nas escolas

brasilia-gay-lgbt-direitos-humanos-direitoshumanos-cidadania-movilmento-pt-psb-psol

Reprodução da internet

Enquanto Brasília é alvo dos escândalos de corrupção, um golpe institucional e retrocesso de direitos, deputados que compõem a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) não querem deixar retroceder os direitos e a cidadania da população LGBT, no Brasil.

Prova disso são as pautas que estão em discussão na Comissão, como o Requerimento 48/2017 de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) que pede a realização de audiência pública da CDHM em conjunto a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional para debater experiências exitosas adotadas nas escolas do Brasil, Chile e Uruguai no combate à violência contra estudantes LGBT.

O pedido tem como argumentação uma pesquisa realizada em 2016 em seis países – Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Peru e Colômbia, e reuniu subsídios importantes para fundamentar a adoção de políticas públicas necessárias que possibilitem transformar as instituições educacionais em ambientes mais seguros e acolhedores para estudantes LGBT.

No Brasil, a pesquisa foi feita pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e pelo Grupo Dignidade com apoio da Universidade Federal do Paraná.

De acordo com a pesquisa, o ambiente educacional com adolescente e jovens LGBT mostra que, apesar de todos os esforços, ainda estamos bem distantes da realidade de aceitação do outro. No Brasil, 73% dos estudantes sofre bullying, 60% se sente inseguro no ambiente escolar e 37% apanhou dentro da escola.

Peso de Lei
Ainda no debate em torno da proteção e promoção da cidadania e direito das LGBT, a deputada Luizianne Lins (PT-CE) enviou à CDHM na última terça-feira (16) o Projeto de Lei 7292/2017 que pede alteração do art. 121 do Decreto de Lei 2.848 de 7 de dezembro de 1949 do Código Penal, para reconhecer o LGBTcídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei 8.071, de 25 de julho de 1990 para incluir o LGBTcídio no rol dos crimes hediondos.

Na justificativa do projeto estão dados do relatório da violência contra identidade de gênero e orientação sexual realizado em 2013 e publicado pelo governo que sistematizou denúncias feitos pelo Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Ouvidoria da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) que identificou entre os casos mais reportados entre violência psicológica: 36,4% são humilhações, 32,3% hostilização e 16,2% são ameaças.

No relatório, as violências físicas aparecem em terceiro lugar, as lesões corporais são as mais reportadas, com 52,5% do total de violências físicas, seguidas por maus tratos, com 36,6%. As tentativas de homicídios totalizaram 4,1%, com 28 ocorrências, enquanto homicídios de fato contabilizaram 3,8% do total, com 26 ocorrências.

De acordo com o site da Câmara dos Deputados, o PL 7292/2017 aguarda designação de relator na CDHM.

Vai ter mais bicha no Congresso
Desde o início de abril (5) está protocolado o requerimento 26/2017 que pede a realização do 14º Seminário LGBT que é tradicionalmente realizado na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O Seminário LGBT tem por objetivo, nesta edição, pautar em primeiro plano a cidadania e as vidas da população de travestis e transexuais, além de promover o diálogo entre os diversos segmentos da sociedade para a promoção dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, bem como discutir aspectos culturais e modo de vida das LGBT.

O requerimento foi assinado por Chico Alencar (PSOL-RJ), Erika Kokay (PT-DF) e Janete Capiberibe (PSB-AP) e pede que o Seminário seja realizado no dia 13 de junho, duas semanas antes do Dia Internacional do Orgulho LGBT, no Auditório Nereu Ramos.

Padrão
Bandeira

São Paulo agora tem cineclube com temática LGBT e de graça

CinceCores LGBT 4

Foto de Bruno Oliveira

De repente lá estávamos pendurando uma cortina branca sobre as prateleiras da biblioteca da Casa 1, no centro de São Paulo, arrumando o projetor, colocando o DVD de São Paulo Hi-Fi, de Lufe Steffen, para rodar e apagando as luzes. Raul Perez, Camila Valentin e eu não escondíamos certo nervosismo e preocupação.

– A caixa de som vai ficar aqui atrás mesmo?

– E a tomada, a gente precisa de adaptador, onde tem adaptador?

– Eita, o computador não tem plugin para DVD…

Bruno Oliveira, coordenador de programação da Casa nos acudia. Ouço a voz de Eduardo Paes Aguiar chegando na calçada: Cadê a Nelsa? Nelsa está por aí? Amigos próximos costumam me chamar assim, Eduardo é um amante e entusiasta do cineclubismo. Tanto que de repente ele sacou do carro uma bolsa com tudo que precisávamos, um salvador da pátria cineclubista. Obrigado!

Raul chama os expectadores que aguardavam do lado de fora com dezesseis minutos de atraso, tudo bem, o importante é que finalmente um sonho estava a realizar. É Sexta-feira Santa (14), 18h16.

– Geralmente se apresenta o filme antes – alerta Eduardo, que de tão nervoso não a fiz. O play já havia dado.

São Paulo Hi-Fi começa a ser exibo.

CinceCores LGBT 2

Foto de Bruno Oliveira

O filme não poderia ter sido mais oportuno para a ocasião. Imagine! Começar pela a história da noite LGBT paulistana, e ali no centro. Um tempo que quem fazia, nem sabia que se fazia mais do que entretenimento, era resistência. Política.

Do fundo da sala eu me emocionava por dentro, deixei até uma ou duas lágrimas caírem com pouco de recalque, não queria ser tão piegas.

Um mês atrás eu postava em meu perfil no Facebook sobre a vontade de fazer um cineclube com a temática LGBT, uma enxurrada de pessoas veio atrás. Uma semana depois estávamos Mariana Lemos, Raul, Gabriela Souza, Henrique Rodrigues Marques, Luiz Henrique LulaMarcel Schiele e a Camila reunidos na sala de exposições da Casa 1 organizando tudo sem saber muito por onde começar. E foi mágico!

CinceCores LGBT 3

Foto de Bruno Oliveira

É tocante imaginar por quais lugares a vontade pode nos levar, São Paulo Hi-Fi mostra justamente isso, a vontade que aquelas LGBT tinham de (re)existir, da experiência da existência. Fez muito sentido para mim um poema que li de uma poeta escrava já morta: “viver é menos que existir”. Ali, naquela nossa primeira exibição estávamos existindo.

O filme começa a chegar ao fim, saio da biblioteca em busca de Lufe, e lá está ele acompanhando o finzinho. A sala já iluminada, a cadeira para o diretor posta no meio da tela improvisada, e o debate começa.

CinceCores LGBT 1

Foto de Bruno Oliveira

Durante o papo o choque de gerações que se complementam. Avançamos na densidade, nas tecnologias, nos modos de nos organizar, mas algo fica claro no que continua o mesmo: a vontade de existir.

Depois de acabado tudo só fica agora a vontade das próximas sessões. Aguardem, inclusive para nossas reuniões de organização. Queremos um cineclube mais plural possível.

Benvindo/a ao CineCores.

Padrão
Bandeira

Tempos sombrios em que são os anjos em guerra, ou, acorda bicha que é o teu que tá na reta (sempre esteve)!

richards

Gravura de Robert W. Richards

De tão triste a gente chega achar engraçado. Mas de engraçado mesmo não tem nada. Vivemos um processo em que o fundamentalismo e o conservadorismo brasileiro avança cada vez mais e a História recente nos conta muito bem quem está nos primeiros lugares da fila onde o que resta é a ilegalidade, a prisão e a morte: pretas/os, pobres, bichas, sapatões, bissexuais, travestis e transexuais, maconheiros… e todo esse nosso rolezinho que não é pequeno. Sim, vivemos em tempos sombrios e sabe o que é o pior? São os anjos que estão em guerra. Acorda bicha que é o teu que tá na reta, e sempre esteve.

Não é de hoje que o movimento gay (estou falando só das bichas aqui, tá? Então tá) recebe críticas de diversos outros movimentos por ter uma postura, digamos, elitista. Claro, nem toda bicha se enquadra aí, não é mesmo? Mas sabemos que, de fato, o problema não é mesmo todas as bichas e seu movimento, há muitas por aí que faz um trabalho decente de militância, mas quem sou para julgar as irmãs? A questão mesmo está que poucas bichas, bem pouquinho mesmo, acho que não chega a meia dúzia (que bom que são poucas), que têm diversos privilégios, estão pouco se fodendo para o todo e ainda ganhando dinheiro para vomitar contra outros grupos sociais.

Estes seres-homenzinhos-brancos-normativos-weyprotein não conseguem perceber que a sua sexualidade, a sua orientação sexual é uma via de diferenciação da norma hetero-cisgênero (falei até bonitinho), mas resumindo: bicha branca privilegiada, a senhora também pode apanhar de lampadada na cara. Aliás, tanto pode que, mesmo um grupo enorme de travestis, transexuais, gays, lésbicas e bis pretas apanhando e morrendo na periferia das cidades, o que vai para os jornais e na home do site gay é justamente a bicha branca que apanhou e tem advogado para correr atrás dos ‘direitos’. Tá buoa querida!

Bicha, melhore. Melhore mesmo.

Não adianta tentar estar dentro das normas: ir para a academia, casar, ter filhos, morar no centro da cidade… não adianta, pois em algum momento do seu dia a senhora vai tá trocando fluídos com alguém que tem a mesma coisa que você no meio das pernas, e te contar uma coisa aqui no seu ouvido: isso ainda é ético e moralmente punível em nosso tempo sombrio.

Mas não é só isso. Não, não é só uma questão de olhar para o próprio umbigo e perceber que ele é, pelo menos, parecido como de muitos.

É preciso, como emergência, entendermos que estamos falando aqui é que do outro lado; aqueles que proliferam uma pauta ideológica baseada no liberalismo, onde se dá de modo bastante fluído o conservadorismo e o fundamentalismo, onde os regimes de Estado são norteados pela repressão e a liberdade está alinhada ao poder de consumo de cada indivíduo; que devem ser o foco de combate, não nós mesmos apontando o dedo para a cara um dos outros dizendo o que cada um tem o que fazer. O que você está fazendo para poder sobreviver, bicha branca? Se escondendo dentro dos padrões capitalistas, dentro de costumes religiosos que dizem que você é um pecador se dar o brioco?  Bicha, melhore.

Mas calma, minha gente. A gente sabe que nos movimentos lésbico, bi e trans também há seus conflitos internos, mas, por uma questão de legitimidade de fala me abstenho de nomear aqui. Estou super aberto em ouvir compartilhar ideias e estratégias pra gente fazer um role mais legal.

O recado é: não podemos ser os anjos em guerra nestes tempos sombrios.

Padrão
Bandeira

Casamento igualitário é aprovado pela Justiça norte-americana

Por decisão do Supremo, todos os Estados dos EUA são obrigados a celebrar o casamento homoafetivo

Uma conquista para gays e lésbicas norte-americanos; sem dúvida. Assim como no Brasil, o casamento igualitário é aprovado nos Estados Unidos da América por intermédio do seu judiciário. Afinal, nossas semelhanças com os sobrinhos do Tio Sam são bastante, já que a pauta não avançaria em um Legislativo tão conservador quanto o nosso. A diferença é que, por lá, cânceres como o Tea Party (grupo conservador que beira a insanidade política direitista) ganha manchetes pelos maiores jornais do mundo, a nossa bancada evangelista tacanha, de igual devastação contra a democracia, não passa de gente insignificante para a pauta internacional.

O casamento homoafetivo ser conquista por meio da Justiça não faz a vitória ser menor; mas expõe uma ferida que não para de sangrar: a força devastadora em que o moralismo fundamentalista e ultraconservador que estupra, mata, escraviza humanos impera no Ocidente.

Vale lembrar que os Estados Unidos da América é símbolo do apogeu do capitalismo, modo econômico que gira em tono do Capital. Parte desse pensamento econômico tem estreito vínculo com o pensamento teológico cristão-protestante. Onde a prosperidade, o acúmulo do capital e a propriedade são símbolo de prosperidade no Reino de Deus.  (Amém!). O catolicismo não fica de fora; a diferença é que sua fortuna foi construída em dois mil anos de sangue alheio escorrido entre o Oriente e Ocidente; e com um discurso próximo do socialismo.

Essa mesma teologia conservadora e capitalista, que vive por meio do seu estelionato fantasiado de dizimo ao Altíssimo e se esconde por meio de pouca esmola dada a poucos necessitados, desbravou os meandros latino-americanos; em especial o Brasil e, hoje, está em cada cidade deste País formando seguidores votantes em garagens capengas.

É claro que é preciso separar o joio do trigo. Existem almas, nesse limbo execrável cristão, que podem ser salvas. E deve existir uma teologia menos moral e catequista de papelaria. Uma teologia menos barata, persuasiva e escravocrata.

Pois é, benevolente leitor, alguns podem dizer que o ‘casamento gay’ é uma luta menor dentro da militância de gênero. Pode ser se vivêssemos em um mundo ocidental menos cancerígeno como o que vivemos atualmente. Hoje, o casamento igualitário, como direito cívico, é uma ferramenta que garante uma cidadania mais próxima dos privilégios em que a sociedade machista, racista, misógina e homofóbica.  Pelo menos, alguns que optaram pela estrutura familiar ‘tradicional’ (?) terá seguro benefícios como previdência, pensão, plano de saúde e outros benefícios que um casal heterossexual tem; independente da sua religião.

Padrão
Cachola

A rola do Boechat e suas questões

Na tarde da última sexta-feira, 19, minha linha do tempo no Facebook – e a de muitos – é tomada pela nova célebre frase do jornalismo opinativo: “vá procurar uma rola”. Frase saborosa que saiu das papilas gustativas do jornalista Boechat ao pastor de pouca rola pra procurar Malafaia. Ora, não foi de assustar que muitos; que ‘reclamam da sombra, pois a sombra sombreia; logo gastaram as pontas dos seus dedos e a superfície do teclado para dizer que a ‘homofobia’ do jornalista é justificada pelo modo e contexto no qual foi usado o termo rola. Nessa lógica, Malafaia teria sofrido homofobia?

Benevolente leitor; não provocarei injustiça intelectual nesse meu espaço de fala. Não fique chateado, mas sei que pêlos arrepiaram em ovos com minha questão acima.

Não é novidade que vivemos em uma sociedade falocêntrica – ou para interagir com o termo usado por Boechat, podemos dizer ‘rolacêntrica’.

De heterossexuais até a mais desconhecida sexualidade, no triste Ocidente que vivemos, coloca a rola no centro do debate: seja para ofender com “caralho” até na ausência do próprio órgão aos inflar um “vai tomar ‘em seu orifício rugoso’”. O quê não faz da nobre fala do jornalista homofóbica; provavelmente um pouco machista inocente [já que tem um pessoal que adora uma nomenclatura alheia – brigam para a extinção de classe, mas vivem separando os outros em classes].

Algo que me chama atenção é que as pessoas são julgadas pelas suas possibilidades e não pelas suas ações. “Boechat falou aquilo que todos queriam dizer, mas poderia ter dito melhor”. O jornalista disse o quê disse naquele momento dentro de um contexto bastante apropriado ao oferecer uma rola, desconfortável, ao pastor neopentecostal.

Poderíamos gastar energia agregando a voz de Boechat à nossa luta; encontrar afetos, diálogos e pontos em comum. Mas não, vamos problematizar com um discurso acadêmico fajuto [por vezes enlouquecido por holofotes] a “rola do Boechat”.

Então, proponho uma alternativa para outro significado à rola falocêntrica de Boechat. Uma solução que ainda sim não tiraria sua licença poética.

A língua portuguesa é tão saborosa e cheia de possibilidades. Nossa língua é tão diversa quanto as nossas possibilidades de ficção sexual. Tal diversidade até serviu de justificativa para afirmar a nossa dificuldade de filosofar; já que a Filosofia pede uma linguagem sem muitos rodeios, dizem os eurocêntricos que a Alemanha sai na frente nesse quesito.

Então, eis uma imagem que parou em minha linha do tempo; que não sei a autoria, que valeria a pena refletirmos:

rolinha

Reprodução do Facebook

Padrão