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“Não basta apenas pedir desculpas”, diz pesquisador sobre missões cristãs em aldeias indígenas

indios-gays

Jamais a expressão jornalística ‘entrevista de gaveta’ caiu tão bem com o que vos apresento, caras, caros e cares internautxs. O que segue para nosso deleite é uma troca de e-mails que tive com o professor doutor Estevão Fernandes da Universidade Federal de Rondônia em 2015.

Dois anos depois, ele se destaca na imprensa e no mundo acadêmico apresentando suas pesquisas sobre as questões de gênero e sexualidade em um contexto indígena. Recentemente redescobri esta entrevista em meus arquivos e eu os apresento.

A entrevista é longa, já adianto. Ela foi feita no contexto de 2015, na ocasião o Papa Francisco pedia perdão pelas violações contra pessoas LGBTQIA+.

Sem dúvida vale a leitura.

Em seu texto “Homossexualidade Indígena no Brasil: desafios de uma pesquisa” você fala sobre a existência, no Brasil, de diversas referências às sexualidades indígenas operando fora do modelo heteronormativo desde a colonização. Em que ponto estão as pesquisas que dão luz às questões de gênero nas populações indígenas brasileiras?
Bastante avançadas, mas, ainda assim, com muito a se desenvolver. Dito de forma bastante genérica, há diversas linhas de pesquisa sobre o tema.  Temos pesquisadoras, e me refiro aqui particularmente à antropologia, que apontam para a importância dos estudos de gênero em povos indígena, com perspectivas bastante inovadoras, as professoras Cecília McCallum e Vanessa Lea certamente são referências a quem queira trabalhar o tema. Esta linha de pesquisa dialoga diretamente com os avanços da etnologia brasileira e da teoria antropológica mais recente.  Além dessa perspectiva, temos outras autoras, como Ângela Sacchi, por exemplo, que buscam trabalhar gênero em povos indígenas com um diálogo mais direto com os movimentos de mulheres indígenas. Esse tipo de perspectiva é bastante interessante, por dar visibilidade a um segmento do movimento indígena que foi, historicamente, esquecido por antropólogos, organizações indigenistas e, por vezes, pelo próprio movimento indígena. Digo isso generalizando, claro, mas fato é que os movimentos de mulheres indígenas não alcançaram historicamente, no Brasil, uma visibilidade que fizesse frente à enorme importância que sua luta representou e representa pela conquista dos direitos indígenas no país. Haveria aí uma série de hipóteses para essa invisibilidade e algumas pesquisadoras pelo país vêm buscando recuperar essa trajetória (Ana Aline Furtado Soares, por exemplo, vem realizando um excelente trabalho junto às mulheres Tapeba, em Caucaia, CE). Nesse sentido, caso um dos leitores do Esquerda Diário tenha interesse no assunto, recomendo o excelente artigo da Prfoa. Maria Rosário de Carvalho, “A questão do gênero em contextos indígenas” e da Profa. Cecília McCallum “Notas sobre as categorias ‘Gênero’ e ‘Sexualidade’ e os povos indígenas” Temos, ainda, vários trabalhos sobre indígenas queer sendo escritos ou redescobertos, autores como Luiz Mott, Martinho Tota, Paulo de Tássio Silva, e eu mesmo, que chamam a atenção para a heteronormatividade como uma das pedras angulares do processo de colonização. Penso, contudo, que podemos avançar ainda em alguns pontos. Um deles é uma maior interlocução com estudos e escritos de indígenas e pensadoras latino-americanas – uma autora que vem fazendo isso com bastante êxito é a Profa. Rita Laura Segato. Alguns canais importantes, como a Revista Estudos Feministas oferecem excelentes recursos a quem queira se inteirar sobre o tema, mas, apesar disso, ainda sabemos relativamente muito pouco sobre o que acontece na América Latina.

Você cita, no mesmo texto, uma série de ‘nomenclaturas’ usadas pelos próprios indígenas para definir membros que praticam relações com outros do mesmo sexo. Tais termos como tibira, çacoaimbeguira, cudinhos, kudina, guaxu… são usados de forma pejorativa, com injúria, ou não?
Boa parte desses nomes referem-se mais a papéis sociais do que a práticas sexuais, somente. Infelizmente os registros sobre o tema são, apesar de vários, bastante breves e pouco aprofundados, mas todos trazem em comum uma ideia que pode ser resumida da seguinte forma: o que chamamos hoje de homossexualidade era aceito como algo comum em várias etnias no Brasil. A carga pejorativa veio ao longo do processo de colonização que se estende até hoje. Dessa forma, seja pela ação de missionários, nas escolas, nos processos de “nacionalização”, “integração”, “pacificação”, ou qualquer nome que se dê às formas de incorporação compulsória dos povos indígenas ao sistema moderno/colonial/capitalista/patriarcal; ou mesmo no convívio cotidiano com os diversos agentes do contato, o lugar de enunciação dos povos indígenas, suas sexualidades, cosmologias, religiosidades, etc, foi sendo sistematicamente apagado, subalternizado e violentado. Historicamente, o que se buscou até recentemente, foi transformar o indígena em um trabalhador braçal pobre, com uma família nuclear adequado ao modelo hegemônico, cristão e heterossexual. A colonização é misógina, racista e homofóbica. Veja bem, eu disse “é”, e não “foi”, pois as estruturas de poder, de ser e de saber tornaram o projeto colonial algo possível ainda persistem, tendo sido invisibilidades e incorporados às relações que se mantêm com os povos indígenas no Brasil, ainda hoje. Nesse sentido, o que se vê é o surgimento de casos de injúria, preconceito, agressões e suicídios envolvendo jovens indígenas homossexuais no Brasil.

Como são as relações entre pessoas do mesmo sexo nas comunidades indígenas? De algum modo, é possível afirmar que existem relações sociais de afeto e aproximação entre índios que se relacionam com o sexo diferente e aqueles que praticam uma sexualidade com parceiros do mesmo sexo?
Cada etnia é uma realidade diferente, e com a sociodiversidade que temos no Brasil, não arrisco dar uma resposta. Além disso, há pouquíssimas pesquisas sobre o assunto no país. Uma das poucas que conheço é o excelente texto de Patrícia Carvalho Rosa (Unicamp) publicada na Cadernos Pagu n.41, em 2013 (disponível aqui) sobre o relacionamento entre duas primas Tikuna (AM) e a forma como isso é visto naquela sociedade. Acho que o texto oferece uma direção bastante promissora para os estudos a esse respeito, e espero que, a medida que as pesquisas avancem, possamos ter uma perspectiva mais realista sobre essas questões.

Em sua pesquisa, você faz um paralelo entre a experiência indígena norte-americana com a nossa.  Onde, assim como aqui, as sexualidades fora do modelo europeu-cristão foram também perseguidas por portugueses, ingleses, franceses e espanhóis. Não raro, nos deparamos com notícias onde citam expedições de religiosos à aldeias para disseminar o cristianismo. Tal colonização cristã ainda continua? E como se dá, atualmente, tal catequese e expansão do pensamento cristão e imposição de uma sexualidade padrão branca no meio indígena?
Há um caso que ilustra bem isso. Trata-se do caso que Luiz Mott chamou de “o índio tibira do Maranhão” (tibira é a denominação que os Tupinambá davam aos indivíduos homossexuais do sexo masculino): o padre Yves D’Evreux narra a brutal execução de um indígena, por sua homossexualidade, no início do séc. XVII – ele teve seu corpo amarrado a uma bala de canhão, que foi atirada, partindo seu corpo em dois. No início da colonização, havia um tronco localizado no centro dos aldeamentos missionários para punir os indígenas que andassem nus, fossem polígamos, faltassem a missa ou praticassem “sodomia”. Mas não precisamos ir tão distantes para termos relatos assim: Gersem Luciano dos Santos (índio Baniwa, AM) narra, em sua tese de Doutorado, como ele e um conjunto de amigos foram castigados por um padre por serem acusados de homossexualidade (“algo que só na mente dele [do padre] se passava, uma vez que, para os Baniwa, viver coletivamente  é regra básica”). Ysani Kalapalo, participando do X congresso LGBT em 2013, relata que para os Kalapalo, até a chegada dos missionários, o relacionamento entre mulheres era algo comum. Mesmo na fala de várias lideranças indígenas, ainda hoje, se percebe uma carga pejorativa no que diz respeito à homossexualidade. É bastante provável que isso se deva não apenas à ação missionária nas aldeias, mas também à própria gênese do movimento indígena brasileiro, estreitamente ligado a movimentos da igreja católica. A ideia de “sodomia” é, em si, bastante emblemática nesse sentido. Se lermos a passagem de Gênesis 19 (destruição de Sodoma) com Juízes 19 (história na qual, assim como em Sodoma, também há uma tentativa de estupro coletivo sobre um homem), veremos como as duas se parecem; mas a Sodomia (categoria surgida no século XI, por São Pedro Damião) “pegou”, e penso que isso se dê por uma razão: não se trata a história de Sodoma de homossexualidade. Selermos as passagens bíblicas que se referem a Sodoma e Gomorra com atenção, veremos que se trata de uma história sobre punição divina pela desobediência. Além disso, trata-se de uma punição sobre o coletivo por ações individuais, ou seja: não importa se você é um bom católico praticante, se seu vizinho não for, você pode morrer por causa dele! Isso é uma ideia poderosa, pois ela legitima um policiamento moral das condutas individuais, com o argumento de que disso dependa a sobrevivência do grupo. Se pararmos para pensar, essa ainda é o argumento usado por políticos, pastores, e setores mais conservadores da igreja católica, para justificar seus posicionamentos contra o combate a homofobia, por exemplo. Ou seja, isso não se restringe às aldeias.

Boa parte do que chamamos de Estudos de Gênero são pesquisas consideradas avançadas e produzidas na Europa e Estados Unidos. Entretanto, aqui cabe uma crítica, são estudos focados em um sistema ético-político bastante estruturado de uma moral europeia secular. O filósofo espanhol Paul B. Preciado nos alerta, por exemplo, que a patologia da sexualidade começa no século XVI. No que você acredita que o estudo de culturas não contaminadas por tais sistemas éticos que tornam a sexualidade um importante controle do corpo e do social chaves para o entendimento de outros modos de nos relacionar pode colaborar para uma sociedade menos violênte e controladora dos corpos, afetos, expressões e suas identidades?
Sinceramente, nunca parei para pensar nisso – e certamente não dessa forma. É uma perspectiva interessante. algo que me chama a atenção é o fato de que em várias das etnias pesquisadas até aqui, se um indígena pratica sexo com pessoas do mesmo sexo aquilo não é uma questão. Outras coisas são mais importantes: suas habilidades manuais, a atenção que dá aos seus parentes, se é trabalhador etc.

Ao observar seu histórico de orientações e participação em bancas de trabalhos acadêmicos é possível perceber o pouco interesse de estudantes e pesquisadores na pesquisa científica que busca explorar a sexualidade no contexto indígena. Quais são os problemas que você acredita para a realização de tais pesquisas: falta de interesse dos discentes, ou preconceito por parte da acadêmia?
Talvez um pouco das duas. Dito de forma franca e despretensiosa, acho realmente que o espaço para renovação das C. Sociais brasileiras está situado nas periferias da academia hegemônica. Não é a velha história de “complexo de primo pobre”, muito pelo contrário: temos aqui a possibilidade de incorporar, epistêmica e politicamente as falas daqueles alunos e colegas indígenas, quilombolas, camponeses, atingidos por barragens, ribeirinhos. Talvez o desafio seja realizar o que o semiólogo argentino, Walter Mignolo, chama de “giro epistêmico”. Agora, se há espaço para realizar esse giro na academia brasileira, são outros quinhentos. Trata-se de incorporar outras perspectivas de ética, estética, ser, saber, pensar ao próprio conceito de paradigma. Veja bem, não digo aqui transformar esses saberes em paradigma, pois isso equivaleria a destitui-los de sua originalidade, encapsulando-os em nossa perspectiva de paradigma. Sou muito mais radical, nesse sentido: acho possível e necessário tomar seus saberes em paradigmas. Assim, deixam de ser “saberes” e se tornam “conhecimento”. Deixam de ser um fim para se tornar um meio… Minha impressão geral é que a academia brasileira ainda reproduz em determinados setores, muito das relações de poder e hierarquia que estruturaram a construção da desigualdade no Brasil. Entretanto, sou otimista, acho que há vários espaços a serem conquistados – mas vai ser um processo longo, com certeza.

É possível adotar as praticas e performances da sexualidade indígena como reivindicação de uma cultura silenciada há séculos por meio de uma jornada civilizatória de grande devastação cultural? Ou, em outros termos, como as populações urbanas podem contribuir para o que você chama de ativismo homossexual indígena?
Se formos levar a sério o que dizem os ativistas two-spirit na América do Norte, não muito. Para eles, a crítica à homossexualidade compulsória é uma crítica anti-colonial. Segundo eles me disseram, eles têm muito mais a ver com um índio heterossexual brasileiro, do que com um branco homossexual norte-americano, posto que povos indígenas estiveram submetidos a relações de poder, violência, subalternização e invisibilidade subsumidos às relações coloniais que tornaram a heterossexualidade “o” padrão a ser seguido, assim, suas críticas são com relação a todo esse processo.

Em sua última visita à América Latina, o Papa Francisco pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica durante a colonização da América Latina. É possível, entre os crimes que a santidade trás à luz contemporânea, atribuir crimes de ódio contra a população indígena não-heteronormativas?
À luz do que dissemos anteriormente, com certeza, mas não basta apenas pedir desculpas pelos deslizes realizados anteriormente é essencial, sim, adotar outras práticas.

Como a Funai trabalha com essa população indígena?
Até onde pude constatar em minha pesquisa, nem Funai, nem ninguém desenvolve qualquer tipo de trabalho específico sobre o assunto. Pelo que ouvi, essas instituições são provocadas por demanda e, até onde sei, essas demandas não chegaram até esses órgãos. Tive notícias de que a Defensoria Pública da Paraíba foi a algumas aldeias após receber denúncias de agressões homofóbicas, mas, até onde sei, é uma das poucas iniciativas no Brasil a esse respeito.

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Mário de Andrade e sua homossexualidade

Veja como tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão

Assim que o escritor paulista Mario de Andrade se refere à sua homossexualidade em carta, escrita em 7 de abril de 1928, ao escritor Manuel Bandeira. O documento que faz referências diretas à sua sexualidade só foi liberada nessa quinta-feira, 18, pela Fundação Casa de Rui Barbosa após luta judicial entre o jornalista Marcelo Bortoloti, da revista Época, e a instituição.

O documento estava lacrado há 35 anos nos arquivos da fundação. Na carta, Mário de Andrade fala sobre as pressões que sofria por causa da sua fama de gay, e não desmente os boatos a esse respeito.

“Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar a grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade?”

Mário ainda afirma que “Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui e sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas.”

Por uma questão de: “honra”

A carta só foi aberta por uma determinação da Controladoria-Geral da União, atendendo a pedido, via Lei de Acesso à Informação, do jornalista Marcelo Bortoloti, em fevereiro.

Vale lembrar que a primeira recusa, de várias, da Casa de Rui se deu sob o argumento de segui “o que recomenda a Lei 12.527/11, quando ao respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais”.

Ou seja, para a Fundação que guarda a carta, a homossexualidade é um algo que fere a honra do ser humano.

Em março o caso foi parar na CGU, e então a instituição passou usar o argumento de que os direitos autorais das cartas de Mário estão protegidos até janeiro do próximo ano, já que a morte dele completou 7o anos neste ano.

A CGU entendeu que a vigência dos direitos autorais não poderia impedir a “mera consulta dos documentos” por pesquisadores. Em maio foi determinado a liberação do documento, mas a Casa Rui tentou mais um recurso.

Até que no último dia 9 a CGU manteve a decisão de liberar a carta. E a carta foi liberada no meio dia desta quinta-feira.

Editada no passado

A carta foi originalmente publicada pelo próprio Manuel Bandeira, em 1958, com um “X” substituindo um nome próprio e alguns parágrafos omitidos, sem o aviso de que fora feita uma edição. Os trechos, então revelados,  estão riscados com caneta vermelha e não se sabe por quem.

Leia o trecho da carta:

Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim porque em toda vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialisão absolutamente desprezível duma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo pra minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu há de tê-lo bem catalogado e especificado, há de ter tudo normalizado em si, si é que posso me servir de “normalizar” neste caso. Tanto mais, Manu, que o ridículo dos socializadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruências e contradições em que caem. O caso de Maria não é típico? Me dão todos os vícios que por ignorância ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos e no entanto assim que fiz duma realidade penosa a “Maria”, não teve nenhum que caçoasse falando que aquilo era idealização para desencaminhar os que me acreditavam nem sei o que, mas todos falaram que era fulana de tal.

Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas. Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar, e me deixe ao menos pra você, com quem, apesar das delicadezas da nossa amizade, sou duma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num casos como este onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis.

Eis aí uns pensamentos jogados no papel sem conclusão nem sequencia, faça deles o que quiser.”

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Livros, filmes e exposições para curtir antes da chegada de 2015

Dizem que o ano começa no Brasil depois do Carnaval, e em um ano que tivemos Carnaval, Copa e Eleições, 2014 voou. Entretanto, a produção cultural fervilhou em diversos campos da arte, e a temática LGBT não ficou de fora. São filmes, espetáculos, exposições e lançamentos de livros que ainda dá tempo de conferir parte desta produção antes de 2015 chegar. Então, faça o balde de pipoca, arrume o cantinho de leitura e marque na agenda para se divertir com as dicas do Blog.

A lista de produções cinematográficas é grande, o que torna complicado selecionar alguns títulos nacionais. Mas o destaque fica para a nossa representação no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), na Alemanha.

Filmes

HOJEEUQUEROVOLTARSOZINHO

O que chamou mais atenção é a produção de Hoje Quero Voltar Sozinho (HQVS, como é chamado pelos fãs), de Daniel Ribeiro, que representa agora representa o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. HQVS é uma expansão do curta-metragem Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho, que fez sucesso nas redes sociais e conta a história da descoberta do amor de um estudante que tem deficiência visual. Sem dúvida, um filme que merece ser assistido.

CASTANHAOFILME

Outro filme que também esteve no Berlinale é a película Castanha, de Davi Pretto, que conta ahistória de João Castanha, um ator transformista de 52 anos que vive com sua mãe Celina, 72 anos. Durante a noite, vive se apresentando em bares gays e fazendo pequenas participações em peças de teatro infantis, filmes e programa de televisão. O Filme mistura dois gêneros do cinema: a ficção e o documentário, e tem um motivo. O filme está em cartaz nos cinemas.

TRANSPARENCIAQuem esteve em um dos principais festivais brasileiros, o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, é o documentário (Trans)parência, de Igor Tavares. O filme conta a história de Maria Clara, uma mulher que luta pelos seus direitos, e fala sobre seu processo transexualizador e pelas questões de militância que envolvem o universo trans, como a luta pelo nome social e pela desconstrução da heteronormatividade.

CASSIAOFILMETambém exibido no Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade está o filme Cássia, que conta a história de uma das figuras mais icônicas da música brasileira, Cássia Eller. A cantora deixou uma marca inegável na cultura e na história musical. Sob um aspecto social, sua morte te uma repercussão nacional, que segue até hoje, por conta da guarda de seu filho que acabou ficando com sua parceira Eugênia.

Livros

O campo da literatura não fica atrás das produções artísticas que usam da temática LGBT. Sejam elas análises políticas e históricas que a população passou ao longo do tempo no Brasil; romances de boa qualidade narrativa; ou crônicas que retratam o cotidiano.

LIBELULA

Uma das jóias da nossa produção literária está com o título Libélula, do escritor e psicanalista Marcos Lacerda. José, um seminarista. Para que ele se torne padre, Frei Ambrósio, um sacerdote, exige sua confissão, como um ato de esvaziamento e entrega a Deus. Sem pudor, sem censura. Mas tem alguém ouvindo a conversa entre o frei e José – e que consegue interferir na ordem dos diálogos e das coisas. Década de 50. Um seminário e um romance proibido entre dois jovens futuros padres. Até onde este amor pode ser vivido? Uma libélula vive por cerca de quatro, cinco anos. Esse é o tempo em que José, descoberto por Filipe e apaixonado por ele, passa a se conhecer mais e mais, num voo que o levará, como um inseto as voltas da lâmpada, ao encontro perturbador da paixão. ‘Libélula’ poderia ser a história de qualquer um de nós, pois contêm elementos como o amor, o desamparo, a urgência de viver, a dor de separar-se da pessoa amada, a alegria de sair do casulo e saber quem se é – e a quem sempre se esteve ligado. Libélula é o segundo romance de Marcos Lacerda; em sua primeira obra, Um Estranho Em Mim, lhe valeu o prêmio de Novos Autores Paraibanos.

Libélula
Marcos Lacerda

Editora Pontes
R$39,90

ASSETECORESQUEAMEI

As 7 Cores que Amei, do jornalista, produtor de eventos, relações públicas e editor Occello Oliver. O livro retrata a trajetória do jornalista nos últimos 20 anos, quando se entendeu como gay. Ao todo, são 47 crônicas que casam harmoniosamente entre o tom de humor e realidade. Occello é carioca e nasceu em 1971, entre seus títulos está coletânia de contos eróticos Censurado – sexo, taras e fetiches.
As 7 Cores Que Amei
Occello Oliver
Editora Alma G
R$35,00

rosasearevolucao

O ano é 1968. Aos 17 anos, Vilma, a filha perfeita e despolitizada do coronel Solano, aceita um convite que mudará a sua vida para sempre. Decide acompanhar a amiga Maristella em um passeio ao restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro. Queria ver de perto como eram os cabeludos comunistas contra quem o pai tantas vezes praguejava. Viu muito mais. Testemunhou a invasão policial do restaurante e foi resgatada do terror por Alda, uma militante da UNE por quem se apaixonou perdidamente. E a saga começa. A personagem entra para o movimento estudantil, é descoberta pelo pai e enviada para São Paulo. Na terra da garoa, a menina se torna mulher, se entrega à militância contra a ditadura e desfruta de um grande amor, recheado de reviravoltas. A obra é o terceiro livro da escritora, jornalista e pesquisadora Karina Dias, As Rosas e a Revolução, carrega parte da história do país e mistura passado e presente, em um enredo de aventura, ambientado no Rio de Janeiro.

As Rosas e a Revolução
Karina Dias

Editora ENC Comunicação
R$35,00

Capa As fantasias eletivas V3 DS

As Fantasias Eletivas, de Carlos Henrique Schroeder, tem como cenário a turística Balneário Camboriú, em que Renê, um recepcionista noturno de hotel, tenta reconstruir sua vida e encontra na amizade de Copi, um travesti obcecado por fotografias, uma alternativa para sua vida destruída. Renê lerá o que Copi escreve e será o único que terá acesso a suas fotos de surpreendente beleza. É quando um livro se abre dentro do livro, e tudo se torna um grande ensaio da alma humana. As Fantasias Eletivas une prosa, poesia e fotografia para refletir sobre a solidão e a criação literária, e mostra como a literatura, a de verdade, é sobretudo feita de sangue. Carlos é autor de As certezas e as Palavras, vencedor do Prêmio Clarice Lispector de contos 2010, da Fundação Biblioteca Nacional. Ele também é idealizador do Festival Nacional do Conto, coordena o selo Formas Breves, da editora e-books e-galáxia.

As Fantasias Eletivas
Carlos Henrique Schroeder

Editora Record
R$32,00

DITADURAEHOMOSSEXUALIDADES

Na área dos estudos, Ditadura e Homossexualidades organizado pelo advogado Renan Quinalha e o pesquisador James N. Green. O livro reúne diversos textos que pretende entender e expor o cenário que a população LGBT esteve inserida durante a ditadura militar brasileira. Entre os colaboradores do livro, além de James e Renan, estão Benjamin Cowan,  Jorge Caê Rodrigues, José Reinaldo Lopes, Luiz Gonzaga Morando Queiroz, Marisa Fernandes, Rafael Freitas  e Rita Colaço. O prefácio foi escrito por Carlos Fico. Há, ainda, no posfácio, as falas de Adriano Diogo (Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, Paulo S. Pinheiro(Comissão Nacional da Verdade) e Marcelo Araújo (Secretaria de Cultura de SP) na audiência pública sobre o tema realizada em maio de 2013.

Ditadura e Homossexualidades
Renan Quinalha e James N. Green

Editora EdUFCar
R$49,00

Exposições

TODOSPODEMSERFRIDA

Em exposição até fevereiro de 2015, a exposição sobre Frida marca seu território no Museu da Diversidade, que fica no centro de São Paulo, dentro da Estação República do Metrô. A mostra fotográfica tem a intenção de narrar a vida da pintora Frida Kahlo por meio de cinco fragmentos: amor, dor, inteiro, cores e aborto. Dentro do projeto o visitante pode se transformar na mulher que atualmente é ícone do feminismo e também foi adotada pelos movimentos LGBT.

Todos Podem Ser Frida
Museu da Diversidade

São Paulo
Até 15 de Fevereiro de 2015
De Terça-feira a domingo, das 10h às 20h
Entrada gratuita

DALI

O Blog já escreveu sobre a exposição de Salvador Dalí no instituto Tomie Ohtake, e sobre a relação de amor entre o poeta escritor surrealista Garcia Lorca e Dalí, além das desavenças entre os dois, após a aproximação ente Salvador e o cineasta Buñuel, em Paris. A exposição não explora a sexualidade e o erotismo e sensualidade. Entretanto, a curadoria trouxe uma grande seleção de gravuras de Dalí, a cereja fica nos desenhos feito para Alice No País das Maravilhas. Uma exposição imperdível.

Dalí
Instituto Tomie Ohtake

Até 11 de janeiro
Entrada gratuita
Rua Dos Coropés, 88 – Pinheiros, SP
Tel.:(11) 2245-1900

SHOKER01

Shoker se considera um artista clandestino, e suas obras são cheias de críticas ao pensamento contemporâneo de como encaramos o corpo, a arte e também o próximo. A melhor maneira que ele encontrou de explorar este conceito foi por meio de seus falos que ilustram diversos personagens polêmicos da nossa história. Ele já teve suas obras negadas em diversas galerias, mas finalmente encontrou um canto na cidade para expor as peças.

Shoker
Erotic Boutique Lovetoys

Avenida Miruna, n° 18 – Moema, SP
A partir do dia 13 de dezembro, às 19h30

LAERTE

Aberta até 2 denovembro, o Itaú Cultural de São Paulo convida o visitante mergulhar pelo labirinto criativo da cartunista Laerte Coutinho, 63 anos, que já foi ele e agora é ela e inteiramente em forma.Ocupação Laerte passa por diversas fases da artista. Dos trabalhos sobre o movimento sindical paulista, dos Piratas do Tiete, às tiras que argumentam a sexualidade no cotidiano da sociedade. Quem está responsável pela curadoria dos trabalhos da artista é seu próprio filho Rafael Coutinho Todo o material está distribuído em um labirinto de painéis instalado em um espaço de 100 metros quadrados.

Ocupação Laerte
Itaú Cultural

Avenida Paulista, 149 – Centro de São Paulo
Até 2 de novembro
itaucultural.org.br/ocupacao

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Bandeira

Cinco mil manifestantes prometem visitar casa do Levy Fidelix, em São Paulo

Com cerca de cinco mil manifestantes confirmados, está marcado para o próximo sábado, 4 de outubro, às 16h, em frente à casa do candidato presidenciável do PRTB Levy Fidelix o “[Ato Unificado] Beijaço e Trepaço LGBT na casa do Levy Fidelix” . O evento teve início logo após as declarações de Levy no debate presidencial da Rede Record, 29 de setembro. Na ocasião, ele convocou a maioria brasileira a se levantar contra os LGBTs.

Após suas declarações de incitação ao ódio, Levy se reservou ao segundo andar da sede do seu partido. E de acordo com o jornal Folha de S. Paulo, foram retiradas  propagandas eleitorais em torno da sede, e houve aumento no número de seguranças.

Segundo a organização do Ato, Fidelix também mudou de residência, que fica no bairro Campo Belo, em São Paulo. Do número 437, da Rua Pascal, ele mudou para o número 1160, da mesma Rua, onde será feito o ato contra o discurso do então candidato à Presidência da Republica.

Reações

No último debate realizado pela Globo, no Rio de Janeiro, o candidato do PV Eduardo Jorge afirmou que Levy Fidelix deveria pediu desculpas ao Brasil e que ele “envergonhou 99% da população brasileira”. Luciana Genro também disse que se a homofobia fosse crime, Levy “sairia algemando da Record”.

Logo depois da declaração de Levy, que foram levantas por uma pergunta dirigira pela candidata do PSOL Luciana Genro, na Rede Record, a Comissão Especial de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados (OAB), o PSOL e o PV entraram com ações contra o então Candidato.

O site do Ministério Público Federal (MPF) chegou a ficar fora do ar entre os dias 30 de setembro e 1 de outubro, pela quantidade de denúncias que recebeu contra o discurso de Levy.

A rede social Facebook tirou do ar, por quase um dia, o evento “Denúncia coletiva contra Levy Fidelix (Lei 10948/01)”, que recebeu cerca de 6500 apoiadores ao pedido de providências organizado ela coordenadora da Ouvidoria dos Direitos Humanos, ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Irina Karla.

Quem organiza

O “[Ato Unificado] Beijaço e Trepaço LGBT na casa do Levy Fidelix” é composto por militantes LGBT independentes, ANEL, CASVI, Coletivo Ana Montenegro, Coletivo Rua, Fórum Mogiano LGBT (de Mongi das Cruzes, SP), Fórum Paulista LGBT, Fórum Paulista de Travestis e Transexuais, Frente LGBT + Casperiana, GADvS, Mães pela Igualdade, Organizativo da Marcha Lésbica e Bi de SP, Território Livre, União da Juventude Comunista e a União da Juventude Socialista.

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Laerte ocupa exposição no Itaú Cultura em São Paulo

LAERTE

A exposição Ocupação Laerte, aberta deste o último domingo, 21 de setembro, no Itaú Cultural de São Paulo convida o visitante mergulhar pelo labirinto criativo da cartunista Laerte Coutinho, 63 anos, que já foi ele e agora é ela e inteiramente em forma.

Ocupação Laerte passa por diversas fases da artista. Dos trabalhos sobre o movimento sindical paulista, dos Piratas do Tiete, às tiras que argumentam a sexualidade no cotidiano da sociedade.

Quem está responsável pela curadoria dos trabalhos da artista é seu próprio filho Rafael Coutinho Todo o material está distribuído em um labirinto de painéis instalado em um espaço de 100 metros quadrados.

Questão de gênero

Laerte está em constante transformação e encontro de seu próprio “eu”. Desde 2004, ela (até então ele), se traveste no gênero feminino e desde então colaborou para a discussão sobre gênero sexual na sociedade brasileira. Em 2010, em entrevista à Folha de S. Paulo ela diz que sempre sentiu vontade de vestir roupas femininas. Obviamente que Laerte e sua arte não se resumem à sexualidade, mas é um tema que pode ser abordado.

O interessante na posição de Laerte é levar à luz a discussão de como são construídas condutas comportamentais, normas morais e éticas na sociedade. Estas mesmas morais, por muitas vezes, construídas em muitos casos a partir do órgão sexual. Por qual motivo um homem não pode usar um belo vestido? Será pelo simples fato de ter nascido com um pênis?

Ocupação Laerte
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149 – Centro de São Paulo
De 21 de setembro até 2 de novembro
itaucultural.org.br/ocupacao

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Cachola

Você já tentou sair com mulher?

Volta e meia esta pergunta é pronunciada por algum colega de trabalho, ou desconhecido quando descobre que sou gay: “Você já tentou sair com mulher?” Às vezes me dá vontade de responder: sempre saio com mulheres, adoro minhas amigas. Compramos bolsas juntas. Quando me fazem esta pergunta sempre me questiono se nesta história são os héteros os pervertidos, que resumem um relacionamento em apenas sexo.

Ser homossexual não está relacionado apenas no prazer em transar com pessoas do mesmo sexo. Não me imagino mantendo uma vida afetiva com uma mulher, não me imagino na vida prática com uma mulher, não imagino esperar no altar a minha noiva entrar de vestido brando e ser abençoado por Deus. Na verdade, nunca imaginei isso e ser gay sempre foi natural pra mim, a sociedade que desnaturalizou este fato.

Alguns héteros adoram apontar o dedo para os gays e afirmarem que minha orientação sexual é uma anomalia perversa contra a natureza humana. E são estes mesmos héteros que me questionam: “mas nunca tentou sair com mulher?” Ora, se casam apenas pelo sexo? Então, acredito que não sou tão pervertido assim.

Não quero dizer que busco um amor romântico. Que um dia meu companheiro vai aparecer em um cavalo branco e dizer “eu te amo”. Claro que não, estou fora disso, é muito açúcar e meu amor é diabético. Quero casar? Sim! Quero ter filho? Com certeza.

Estão esquecendo de que a sexualidade é só um elemento humano, de tantos outros que nos constituem como indivíduo.

Claro, tem bastante gay na pista que já “saiu” com mulheres. Por variáveis razões: pressão familiar, religiosa, social, curiosidade, alto teor alcóolico. E esta “saidinha” não faz dele menos gay, ou coloca a homossexualidade em cachê. Sexo é sexo, não tem segredo.

Sempre que vou fazer o teste de HIV (sim, além praticar sexo seguro, eu faço o teste do HIV. É importante), vi uma sigla interessante: HSH, que significa Homens que fazem Sexo com outros Homens. Comecei a rir na frente da infectologista e perguntei para ela: Cadê a sigla HSM?

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