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“Não basta apenas pedir desculpas”, diz pesquisador sobre missões cristãs em aldeias indígenas

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Jamais a expressão jornalística ‘entrevista de gaveta’ caiu tão bem com o que vos apresento, caras, caros e cares internautxs. O que segue para nosso deleite é uma troca de e-mails que tive com o professor doutor Estevão Fernandes da Universidade Federal de Rondônia em 2015.

Dois anos depois, ele se destaca na imprensa e no mundo acadêmico apresentando suas pesquisas sobre as questões de gênero e sexualidade em um contexto indígena. Recentemente redescobri esta entrevista em meus arquivos e eu os apresento.

A entrevista é longa, já adianto. Ela foi feita no contexto de 2015, na ocasião o Papa Francisco pedia perdão pelas violações contra pessoas LGBTQIA+.

Sem dúvida vale a leitura.

Em seu texto “Homossexualidade Indígena no Brasil: desafios de uma pesquisa” você fala sobre a existência, no Brasil, de diversas referências às sexualidades indígenas operando fora do modelo heteronormativo desde a colonização. Em que ponto estão as pesquisas que dão luz às questões de gênero nas populações indígenas brasileiras?
Bastante avançadas, mas, ainda assim, com muito a se desenvolver. Dito de forma bastante genérica, há diversas linhas de pesquisa sobre o tema.  Temos pesquisadoras, e me refiro aqui particularmente à antropologia, que apontam para a importância dos estudos de gênero em povos indígena, com perspectivas bastante inovadoras, as professoras Cecília McCallum e Vanessa Lea certamente são referências a quem queira trabalhar o tema. Esta linha de pesquisa dialoga diretamente com os avanços da etnologia brasileira e da teoria antropológica mais recente.  Além dessa perspectiva, temos outras autoras, como Ângela Sacchi, por exemplo, que buscam trabalhar gênero em povos indígenas com um diálogo mais direto com os movimentos de mulheres indígenas. Esse tipo de perspectiva é bastante interessante, por dar visibilidade a um segmento do movimento indígena que foi, historicamente, esquecido por antropólogos, organizações indigenistas e, por vezes, pelo próprio movimento indígena. Digo isso generalizando, claro, mas fato é que os movimentos de mulheres indígenas não alcançaram historicamente, no Brasil, uma visibilidade que fizesse frente à enorme importância que sua luta representou e representa pela conquista dos direitos indígenas no país. Haveria aí uma série de hipóteses para essa invisibilidade e algumas pesquisadoras pelo país vêm buscando recuperar essa trajetória (Ana Aline Furtado Soares, por exemplo, vem realizando um excelente trabalho junto às mulheres Tapeba, em Caucaia, CE). Nesse sentido, caso um dos leitores do Esquerda Diário tenha interesse no assunto, recomendo o excelente artigo da Prfoa. Maria Rosário de Carvalho, “A questão do gênero em contextos indígenas” e da Profa. Cecília McCallum “Notas sobre as categorias ‘Gênero’ e ‘Sexualidade’ e os povos indígenas” Temos, ainda, vários trabalhos sobre indígenas queer sendo escritos ou redescobertos, autores como Luiz Mott, Martinho Tota, Paulo de Tássio Silva, e eu mesmo, que chamam a atenção para a heteronormatividade como uma das pedras angulares do processo de colonização. Penso, contudo, que podemos avançar ainda em alguns pontos. Um deles é uma maior interlocução com estudos e escritos de indígenas e pensadoras latino-americanas – uma autora que vem fazendo isso com bastante êxito é a Profa. Rita Laura Segato. Alguns canais importantes, como a Revista Estudos Feministas oferecem excelentes recursos a quem queira se inteirar sobre o tema, mas, apesar disso, ainda sabemos relativamente muito pouco sobre o que acontece na América Latina.

Você cita, no mesmo texto, uma série de ‘nomenclaturas’ usadas pelos próprios indígenas para definir membros que praticam relações com outros do mesmo sexo. Tais termos como tibira, çacoaimbeguira, cudinhos, kudina, guaxu… são usados de forma pejorativa, com injúria, ou não?
Boa parte desses nomes referem-se mais a papéis sociais do que a práticas sexuais, somente. Infelizmente os registros sobre o tema são, apesar de vários, bastante breves e pouco aprofundados, mas todos trazem em comum uma ideia que pode ser resumida da seguinte forma: o que chamamos hoje de homossexualidade era aceito como algo comum em várias etnias no Brasil. A carga pejorativa veio ao longo do processo de colonização que se estende até hoje. Dessa forma, seja pela ação de missionários, nas escolas, nos processos de “nacionalização”, “integração”, “pacificação”, ou qualquer nome que se dê às formas de incorporação compulsória dos povos indígenas ao sistema moderno/colonial/capitalista/patriarcal; ou mesmo no convívio cotidiano com os diversos agentes do contato, o lugar de enunciação dos povos indígenas, suas sexualidades, cosmologias, religiosidades, etc, foi sendo sistematicamente apagado, subalternizado e violentado. Historicamente, o que se buscou até recentemente, foi transformar o indígena em um trabalhador braçal pobre, com uma família nuclear adequado ao modelo hegemônico, cristão e heterossexual. A colonização é misógina, racista e homofóbica. Veja bem, eu disse “é”, e não “foi”, pois as estruturas de poder, de ser e de saber tornaram o projeto colonial algo possível ainda persistem, tendo sido invisibilidades e incorporados às relações que se mantêm com os povos indígenas no Brasil, ainda hoje. Nesse sentido, o que se vê é o surgimento de casos de injúria, preconceito, agressões e suicídios envolvendo jovens indígenas homossexuais no Brasil.

Como são as relações entre pessoas do mesmo sexo nas comunidades indígenas? De algum modo, é possível afirmar que existem relações sociais de afeto e aproximação entre índios que se relacionam com o sexo diferente e aqueles que praticam uma sexualidade com parceiros do mesmo sexo?
Cada etnia é uma realidade diferente, e com a sociodiversidade que temos no Brasil, não arrisco dar uma resposta. Além disso, há pouquíssimas pesquisas sobre o assunto no país. Uma das poucas que conheço é o excelente texto de Patrícia Carvalho Rosa (Unicamp) publicada na Cadernos Pagu n.41, em 2013 (disponível aqui) sobre o relacionamento entre duas primas Tikuna (AM) e a forma como isso é visto naquela sociedade. Acho que o texto oferece uma direção bastante promissora para os estudos a esse respeito, e espero que, a medida que as pesquisas avancem, possamos ter uma perspectiva mais realista sobre essas questões.

Em sua pesquisa, você faz um paralelo entre a experiência indígena norte-americana com a nossa.  Onde, assim como aqui, as sexualidades fora do modelo europeu-cristão foram também perseguidas por portugueses, ingleses, franceses e espanhóis. Não raro, nos deparamos com notícias onde citam expedições de religiosos à aldeias para disseminar o cristianismo. Tal colonização cristã ainda continua? E como se dá, atualmente, tal catequese e expansão do pensamento cristão e imposição de uma sexualidade padrão branca no meio indígena?
Há um caso que ilustra bem isso. Trata-se do caso que Luiz Mott chamou de “o índio tibira do Maranhão” (tibira é a denominação que os Tupinambá davam aos indivíduos homossexuais do sexo masculino): o padre Yves D’Evreux narra a brutal execução de um indígena, por sua homossexualidade, no início do séc. XVII – ele teve seu corpo amarrado a uma bala de canhão, que foi atirada, partindo seu corpo em dois. No início da colonização, havia um tronco localizado no centro dos aldeamentos missionários para punir os indígenas que andassem nus, fossem polígamos, faltassem a missa ou praticassem “sodomia”. Mas não precisamos ir tão distantes para termos relatos assim: Gersem Luciano dos Santos (índio Baniwa, AM) narra, em sua tese de Doutorado, como ele e um conjunto de amigos foram castigados por um padre por serem acusados de homossexualidade (“algo que só na mente dele [do padre] se passava, uma vez que, para os Baniwa, viver coletivamente  é regra básica”). Ysani Kalapalo, participando do X congresso LGBT em 2013, relata que para os Kalapalo, até a chegada dos missionários, o relacionamento entre mulheres era algo comum. Mesmo na fala de várias lideranças indígenas, ainda hoje, se percebe uma carga pejorativa no que diz respeito à homossexualidade. É bastante provável que isso se deva não apenas à ação missionária nas aldeias, mas também à própria gênese do movimento indígena brasileiro, estreitamente ligado a movimentos da igreja católica. A ideia de “sodomia” é, em si, bastante emblemática nesse sentido. Se lermos a passagem de Gênesis 19 (destruição de Sodoma) com Juízes 19 (história na qual, assim como em Sodoma, também há uma tentativa de estupro coletivo sobre um homem), veremos como as duas se parecem; mas a Sodomia (categoria surgida no século XI, por São Pedro Damião) “pegou”, e penso que isso se dê por uma razão: não se trata a história de Sodoma de homossexualidade. Selermos as passagens bíblicas que se referem a Sodoma e Gomorra com atenção, veremos que se trata de uma história sobre punição divina pela desobediência. Além disso, trata-se de uma punição sobre o coletivo por ações individuais, ou seja: não importa se você é um bom católico praticante, se seu vizinho não for, você pode morrer por causa dele! Isso é uma ideia poderosa, pois ela legitima um policiamento moral das condutas individuais, com o argumento de que disso dependa a sobrevivência do grupo. Se pararmos para pensar, essa ainda é o argumento usado por políticos, pastores, e setores mais conservadores da igreja católica, para justificar seus posicionamentos contra o combate a homofobia, por exemplo. Ou seja, isso não se restringe às aldeias.

Boa parte do que chamamos de Estudos de Gênero são pesquisas consideradas avançadas e produzidas na Europa e Estados Unidos. Entretanto, aqui cabe uma crítica, são estudos focados em um sistema ético-político bastante estruturado de uma moral europeia secular. O filósofo espanhol Paul B. Preciado nos alerta, por exemplo, que a patologia da sexualidade começa no século XVI. No que você acredita que o estudo de culturas não contaminadas por tais sistemas éticos que tornam a sexualidade um importante controle do corpo e do social chaves para o entendimento de outros modos de nos relacionar pode colaborar para uma sociedade menos violênte e controladora dos corpos, afetos, expressões e suas identidades?
Sinceramente, nunca parei para pensar nisso – e certamente não dessa forma. É uma perspectiva interessante. algo que me chama a atenção é o fato de que em várias das etnias pesquisadas até aqui, se um indígena pratica sexo com pessoas do mesmo sexo aquilo não é uma questão. Outras coisas são mais importantes: suas habilidades manuais, a atenção que dá aos seus parentes, se é trabalhador etc.

Ao observar seu histórico de orientações e participação em bancas de trabalhos acadêmicos é possível perceber o pouco interesse de estudantes e pesquisadores na pesquisa científica que busca explorar a sexualidade no contexto indígena. Quais são os problemas que você acredita para a realização de tais pesquisas: falta de interesse dos discentes, ou preconceito por parte da acadêmia?
Talvez um pouco das duas. Dito de forma franca e despretensiosa, acho realmente que o espaço para renovação das C. Sociais brasileiras está situado nas periferias da academia hegemônica. Não é a velha história de “complexo de primo pobre”, muito pelo contrário: temos aqui a possibilidade de incorporar, epistêmica e politicamente as falas daqueles alunos e colegas indígenas, quilombolas, camponeses, atingidos por barragens, ribeirinhos. Talvez o desafio seja realizar o que o semiólogo argentino, Walter Mignolo, chama de “giro epistêmico”. Agora, se há espaço para realizar esse giro na academia brasileira, são outros quinhentos. Trata-se de incorporar outras perspectivas de ética, estética, ser, saber, pensar ao próprio conceito de paradigma. Veja bem, não digo aqui transformar esses saberes em paradigma, pois isso equivaleria a destitui-los de sua originalidade, encapsulando-os em nossa perspectiva de paradigma. Sou muito mais radical, nesse sentido: acho possível e necessário tomar seus saberes em paradigmas. Assim, deixam de ser “saberes” e se tornam “conhecimento”. Deixam de ser um fim para se tornar um meio… Minha impressão geral é que a academia brasileira ainda reproduz em determinados setores, muito das relações de poder e hierarquia que estruturaram a construção da desigualdade no Brasil. Entretanto, sou otimista, acho que há vários espaços a serem conquistados – mas vai ser um processo longo, com certeza.

É possível adotar as praticas e performances da sexualidade indígena como reivindicação de uma cultura silenciada há séculos por meio de uma jornada civilizatória de grande devastação cultural? Ou, em outros termos, como as populações urbanas podem contribuir para o que você chama de ativismo homossexual indígena?
Se formos levar a sério o que dizem os ativistas two-spirit na América do Norte, não muito. Para eles, a crítica à homossexualidade compulsória é uma crítica anti-colonial. Segundo eles me disseram, eles têm muito mais a ver com um índio heterossexual brasileiro, do que com um branco homossexual norte-americano, posto que povos indígenas estiveram submetidos a relações de poder, violência, subalternização e invisibilidade subsumidos às relações coloniais que tornaram a heterossexualidade “o” padrão a ser seguido, assim, suas críticas são com relação a todo esse processo.

Em sua última visita à América Latina, o Papa Francisco pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica durante a colonização da América Latina. É possível, entre os crimes que a santidade trás à luz contemporânea, atribuir crimes de ódio contra a população indígena não-heteronormativas?
À luz do que dissemos anteriormente, com certeza, mas não basta apenas pedir desculpas pelos deslizes realizados anteriormente é essencial, sim, adotar outras práticas.

Como a Funai trabalha com essa população indígena?
Até onde pude constatar em minha pesquisa, nem Funai, nem ninguém desenvolve qualquer tipo de trabalho específico sobre o assunto. Pelo que ouvi, essas instituições são provocadas por demanda e, até onde sei, essas demandas não chegaram até esses órgãos. Tive notícias de que a Defensoria Pública da Paraíba foi a algumas aldeias após receber denúncias de agressões homofóbicas, mas, até onde sei, é uma das poucas iniciativas no Brasil a esse respeito.

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Subversão

Deu match entre cinema e literatura com temática LGBT. Vem ver

Satyrikon

Satyrikon – reprodução da internet

Deu match no mundo das artes, entre cinema e literatura com a temática LGBT. E a gente shippa mesmo. E para ficar mais gostosinho ainda, vai rolar do dia 9 até 19 de maio, das 19h30 às 21h30, no Sesc Santana a Oficina de Cinema e Literatura – Diversidade sexual da palavra escrita à imagem cinematográfica com Alexandre Rabelo e Lufe Steffen.

A oficina analisa 16 obras literárias: romances, contos e dramaturgia que abordam a temática LGBT e foram adaptadas para o cinema nos últimos 60 anos. Babadeira, não?

De acordo com a divulgação do evento, o objetivo é trazer à luz narrativas que buscaram a diversidade sexual e afetiva, sempre discutindo as diferenças entre as linguagens e revelando os processos de cada adaptação – refletindo sobre o que foi feito e quais os caminhos para o futuro dessa temática.

Não perde não. As inscrições são gratuitas na Centro de Atendimento do Sesc Santana. Clica aqui para saber mais no evento da oficina no Facebook.

Serviço
Oficina de Cinema e Literatura – Diversidade sexual da palavra escrita à imagem cinematográfica
Sesc Santana, av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana, São Paulo
Com Alexandre Rabelo e Lufe Steffen
De 9 a 19 de Maio
Das 19h30 às 21h30
Gratuíto

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São Paulo agora tem cineclube com temática LGBT e de graça

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Foto de Bruno Oliveira

De repente lá estávamos pendurando uma cortina branca sobre as prateleiras da biblioteca da Casa 1, no centro de São Paulo, arrumando o projetor, colocando o DVD de São Paulo Hi-Fi, de Lufe Steffen, para rodar e apagando as luzes. Raul Perez, Camila Valentin e eu não escondíamos certo nervosismo e preocupação.

– A caixa de som vai ficar aqui atrás mesmo?

– E a tomada, a gente precisa de adaptador, onde tem adaptador?

– Eita, o computador não tem plugin para DVD…

Bruno Oliveira, coordenador de programação da Casa nos acudia. Ouço a voz de Eduardo Paes Aguiar chegando na calçada: Cadê a Nelsa? Nelsa está por aí? Amigos próximos costumam me chamar assim, Eduardo é um amante e entusiasta do cineclubismo. Tanto que de repente ele sacou do carro uma bolsa com tudo que precisávamos, um salvador da pátria cineclubista. Obrigado!

Raul chama os expectadores que aguardavam do lado de fora com dezesseis minutos de atraso, tudo bem, o importante é que finalmente um sonho estava a realizar. É Sexta-feira Santa (14), 18h16.

– Geralmente se apresenta o filme antes – alerta Eduardo, que de tão nervoso não a fiz. O play já havia dado.

São Paulo Hi-Fi começa a ser exibo.

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Foto de Bruno Oliveira

O filme não poderia ter sido mais oportuno para a ocasião. Imagine! Começar pela a história da noite LGBT paulistana, e ali no centro. Um tempo que quem fazia, nem sabia que se fazia mais do que entretenimento, era resistência. Política.

Do fundo da sala eu me emocionava por dentro, deixei até uma ou duas lágrimas caírem com pouco de recalque, não queria ser tão piegas.

Um mês atrás eu postava em meu perfil no Facebook sobre a vontade de fazer um cineclube com a temática LGBT, uma enxurrada de pessoas veio atrás. Uma semana depois estávamos Mariana Lemos, Raul, Gabriela Souza, Henrique Rodrigues Marques, Luiz Henrique LulaMarcel Schiele e a Camila reunidos na sala de exposições da Casa 1 organizando tudo sem saber muito por onde começar. E foi mágico!

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Foto de Bruno Oliveira

É tocante imaginar por quais lugares a vontade pode nos levar, São Paulo Hi-Fi mostra justamente isso, a vontade que aquelas LGBT tinham de (re)existir, da experiência da existência. Fez muito sentido para mim um poema que li de uma poeta escrava já morta: “viver é menos que existir”. Ali, naquela nossa primeira exibição estávamos existindo.

O filme começa a chegar ao fim, saio da biblioteca em busca de Lufe, e lá está ele acompanhando o finzinho. A sala já iluminada, a cadeira para o diretor posta no meio da tela improvisada, e o debate começa.

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Foto de Bruno Oliveira

Durante o papo o choque de gerações que se complementam. Avançamos na densidade, nas tecnologias, nos modos de nos organizar, mas algo fica claro no que continua o mesmo: a vontade de existir.

Depois de acabado tudo só fica agora a vontade das próximas sessões. Aguardem, inclusive para nossas reuniões de organização. Queremos um cineclube mais plural possível.

Benvindo/a ao CineCores.

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Empresas aliadas, uma questão importante para nossa estratégia política

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A comunidade LGBTQIA+ brasileira começa um importante processo de absorção de nossas pautas por parte das empresas, ou seja, do capital e seu mercado. Este processo já está bastante estabelecido em países onde o Estado ocupa menos espaço quando comparado com o Brasil. O melhor exemplo que dou são os Estados Unidos, lugar em que gigantes do mercado apostam na ‘diversidade’ dentro de suas empresas. Mas fica a questão: como este movimento começa acontecer no Brasil?

Esta questão nos importa por muitos motivos, e ela começa pelo fato de nos dizer respeito. Temos marcas como Avon, Natura, Carrefour, Skol (Ambev), Organizações Globo ‘levantando’ parte da nossa bandeira em suas peças publicitárias e produtos dando a ilusão aspiracional de que agora somos consumidores que importam para eles. Não podemos esquecer que, mesmo sendo um importante passo, estas peças publicitárias não deixam claro a responsabilidade real que estas empresas têm com o público em si, as LGBTQIA+.

Vamos olhar para os últimos quinze anos de políticas públicas de inserção de pessoas LGBT com recorte de classe e raça promovidas pelo Estado Brasileiro. ProUni, Fies, Bolsa Família, Cotas nas universidades federais para pretos e pretas… não podemos negar que o nosso poder de consumo aumentou significativamente ao ponto de podermos comprar passagens aéreas, perfumes, cerveja… Houve mobilidade social e ela é visível ao ponto de ser perceptível o retrocesso dessa mesma mobilidade acontecendo a partir da intervenção política que vivemos atualmente no Brasil.

Não sou contra a absorção de nossas pautas e comunidade dentro das empresas. Sou favorável, inclusive. Mas não em troca de meia dúzia de vagas de emprego para quem está à margem dessa comunidade, ou mais grosseiramente ainda, àqueles que compõem o lado mais limpinho dela: brancos e heteronormativos. Entretanto, não ser contra não significa aplaudir meia dúzia de peças publicitárias aspiracionais dizendo para nós: “vejam, aprendemos representá-los na mídia”.

Voltando ao exemplo dos Estados Unidos, por lá, existem sólidas organizações não governamentais dedicadas e empenhadas na expansão dos direitos civis das LGBTQIA+ e elas são financiadas por grandes organizações como Google, Facebook e Microsoft, por acaso ligadas ao mercado de consumo tecnológico. Não há unidade global no apoio às nossas pautas de marcas multinacionais. Basta você entrar em sites dedicados a ‘nós’ (estou falando mais especificamente os gays) como OutMagazine (EUA) ou Têtu (França) e verá anunciantes como Heineken e por aqui, nada. Digo com propriedade por já ter trabalho no mercado editorial gay e ver de perto as negativas de muitas marcas em publicar anúncios em veículos nossos.

É muito estranho lembrar que há três anos ouvia de um representante de uma marca de bonés a seguinte afirmação: “a marca não vai autorizar o uso dos seus produtos no ensaio editorial de moda por não desejar vincular sua imagem com as pessoas gays”. Na época não era difícil esbarrar com alguma bicha que não sai de casa com seu boné aba-reta dessa mesma marca. De repente, três anos depois, pessoas trans desfilam na Fashion Week de São Paulo.

A absorção pelo capital e mercado é importante, principalmente em tempos sombrios que nossa política passa. Entretanto, é preciso uma reflexão bastante profunda sobre como ela ocorre em um país marcado por uma necessidade ao populismo e assistencialismo, onde qualquer problema facilmente é posto na conta do Estado.

Acredito que o Estado tem suas obrigações e, infelizmente, nosso Congresso não estão cumprindo com elas, por diversos fatos. Ouso dizer um: a desorganização (não leia desunião) dos próprios movimentos LGBTQIA+. Então, junte um Estado que não cumpre seu papel social, com uma comunidade relativamente desorganizada e um mercado sedento por consumo em um cenário econômico tão estável.

Há grupos isolados e de grande apoio social da própria comunidade LGBTQIA+ espalhados por todo nosso país e de todos os grupos. Há casas de acolhimento, grupos de acompanhamento comunitário, ajuda psicológica. A questão fica: até que ponto estas empresas estão interessadas na responsabilidade social?

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A ressaca depois da [SSEX BBOX]

Foram nove mesas de debate, nove rodas de conversa, treze oficinas e cursos e três filmes seguidos de debate. A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil mobilizou uma galera tamanha de voluntários, pesquisadores, ativistas e profissionais na área de gênero, sexualidade e direitos humanos para pensarmos diferentes estratégias para garantir a permanência das nossas conquistas históricas, fortalecer o presente e construir um futuro melhor para a nossa comunidade. Até que essa grande confraternização afetiva, política, social e cultural acaba e a ressaca aparece.

Infelizmente não consegui ir a todos os dias, mas acompanhei bastante, até que chega o encerramento com chave de outro, bem nos Dia da Consciência Negra e da Memória Trans. Maravilhoso tudo. Diferente do quê muitos podem pensar, a [SSEX BBOX] não é uma catarse utópica de um bando de “””‘beeshas closeras'”””. Tem close sim, mas sempre os mais alinhados com o compromisso de agregar mais e mais gente. Sim, a conferência internacional é um ato de sobrevivência, uma ode à existência de cada um/a LGBTQIA+ de nós.

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Da esquerda para a direita: Mônica Saldanha, Terra de Grammont, Nelson Neto (eu), Angela Pires, Aruã Siqueira Torres, Alex Bonotto, Jota Mombaça, Magô Tonhon – Foto da [SSEX BBOX]

No último dia 19 de novembro comecei minha fala dizendo que a [SSEX BBOX] é um dos movimentos da atualidade mais importantes da nossa comunidade em todo ocidente. Mostra que somos muitos, em todos os continentes. Ela nos conecta com as mais variadas orientações sexuais e identidade de gênero, visões de mundo, ideias de sociedade.

Daí a ressaca. Uma ressaca por, ao seu fim, depois de mostrar muita coisa maravilhosa, tocar em feridas, trazer à flor da pele e da política nossas ânsias, angustias e sentimentos coletivos dos mais profundos lugares de nós acaba e retornamos à uma realidade cheia de desafios. A cura dessa ressaca não está em uma dose de chá de boldo, acredito que a cura dessa ressaca esta na manutenção desse sentimento tão profundo e fértil que podemos chamar de senso de comunidade.

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Festa de Encerramento da 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil – Foto da [SSEX BBOX]

Nestes sete anos estando ativista em Direitos Humanos, principalmente nas áreas de gênero e sexualidade, e os últimos quatro trabalhando com isso, a [SSEX BBOX] é um dos poucos espaços que proporcionou a mim, e ouso dizer a muitos de nós, este sentido de dialogo plural onde os lugares de fala e escuta, e principalmente de compartilhamento de experiências e ideias esteja tão presente acima do personalismo e egos alheios.

Conheci bastante gente, revi tanta outras, que está na labuta dupla entre trabalhar arduamente em nosso sistema capitalista que exclui e nos coloca sempre à margem da margem e então na segunda jornada está com suas bandeiras hasteadas pela luta de mais direitos. E isso, de certo modo nos conforta.

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Pri Bertucci, fundador da [SSEX BBOX] e Nelson Neto

No dia a dia, nosso difícil cotidiano, podemos até acreditar que estamos sozinhos nesta zona de guerra, então de repente, nos aglomeramos e percebemos o quanto somos parte dessa união, por vezes subjetiva, tão grande.

Quem faz a [SSEX BBOX] dá mais do que este momento de prazer, mas se entrega de corpo a todos nós, presentes ou não durante o evento. Isso já não tenho dúvida. É esta energia e força, que acredito, que deve fazer de nós ainda mais fortes, organizadas/os e empoderadas/os.

Espero que minha receita para curar esta ressaca esteja certa. Confira toda a cobertura fotográfica  na página da [SSEX BBOX].

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Sobre fazer a diferença e como você pode ajudar na luta por mais cidadania e mais direitos

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Imagina só uma espécie de república, melhor, uma casa, um lugar, um teto onde qualquer LGBT que esteja passando por uma treta na vida, tipo: expulsa/o de casa por sua condição de identidade de gênero e/ou orientação sexual e não tem onde se abrigar, e aí ela tem? Pois é, a ideia do jornalista Iran é essa.

Conheço o Iran Giusti por sua militância ativa nas redes e na vida real sobre as questões LGBT. Um tempo ele postou em sua página no Facebook sobre o que as pessoas pensariam sobre a existência de uma casa de acolhida para LGBT que foram expulsos de casa por conta da sua sexualidade e identidade. Pois bem, o apoio foi grande e esse projeto pode sair do papel, e você pode ajudar. Deixando o link aqui e também no fim do texto.

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Iran Giusti, fundador e idealizador da Casa1 – retirado do Facebook, foto de Bob Sousa

Fiz algumas perguntinhas para ele sobre o que é a Casa1, como ela funcionará e tudo mais, confere só:

Conte um pouco de como a Casa1 irá funcionar. LGBT a partir de qual idade poderão entrar na casa? Terá um espaço para dormir e se alimentar, além de diversas atividades, é isso?

Em relação à idade, inicialmente será 18 anos por uma questão legal, mas já temos advogados cuidando disso e tentando contato com a Vara da Infância e da Juventude para ver como fazemos com os menores de idade que chegarem até o projeto. O centro vai funcionar como uma casa como qualquer outra: quartos, sala e cozinha, não teremos a estrutura de um centro público com horários e pessoas responsáveis pelas pessoas. A ideia é que funcione mais como uma republica, onde as pessoas vão se organizando como for melhor para elas. A diferença é que teremos as atividades do centro que serão abertas para os moradores e também uma rede de voluntários que vão auxiliar em demandas mais diversas como apoio psicológico e capacitação profissional.

Lembro que há alguns meses atrás você publicou apenas um post no Facebook perguntando sobre o que as pessoas achariam de existir uma casa de acolhimento para LGBT, o que você pensa sobre a reação das pessoas? Você esperava que chegaria onde chegou?

Aquela postagem foi uma “análise prévia” por assim dizer. Há cerca de um ano disponibilizei o sofá da minha casa para LGBTs que precisassem de acolhimento em uma postagem no Facebook. Tanto a comoção quanto a procura foi grande e por isso a ideia de ampliar o espaço e criar o projeto. A partir dai joguei o projeto para saber se as pessoas se mobilizariam, com o bom retorno comecei a formatar e encontrar pessoas que auxiliaram a chegar ao projeto como ele foi lançado.

Vivemos em um momento político e social, no Brasil em especial, onde o conservadorismo junto ao fundamentalismo avança pelo Congresso, pelos Estados e agora pelos municípios. Vemos cada vez mais direitos conquistados, não só pela comunidade LGBT, mas em outras pautas como trabalho, justiça, social, cultura em completa fragilidade. Estamos em um momento que a auto-organização, o dialogo entre diversas frentes e a ação se faz muito necessário?

Essa vai ficar meio longa hahaha. Pra começar eu não acho que seja algo que esteja acontecendo em especial no Brasil, é uma questão mundial o avanço do conservadorismo e isso é uma resposta social dos avanços. Nós chegamos em um ponto como sociedade que as pessoas são incapazes de abrir mão de seus privilégios e aí esses núcleos conservadores e fundamentalistas ganham força. Posto isso, eu acho que a gente precisa perder essa ideia de que “eles” são o estado, e “nós a população”. Nós somos o estado e o estado é a população então eu tenho tentado viver às políticas que eu acredito para que nos tornemos uma sociedade mais saudável. Eu acredito em transferência de renda, em equidade e cobro isso das políticas públicas, mas também não posso só esperar isso do estado, eu tenho que ser o estado, você tem que ser o estado. Porque a gente cobra transferência de renda do poder público mas ganha uma grana e não faz nada pelo outro? Eu queria muito ter grana o suficiente para montar a Casa 1 sozinho e conforme os moradores fossem se estabelecendo eles fariam mesmo pelos outros. Como não dá, eu parto pro financiamento coletivo para mobilizar o maior número de pessoas para que isso aconteça. Isso é o que eu posso fazer e espero poder fazer muito mais, e também espero que as outras pessoas vejam que é possível fazer.

Você é jornalista, já trabalhou em diversas redações importantes. Como você avalia a cobertura da imprensa brasileira sobre a temática dos direitos humanos, com maior atenção às pautas LGBT, a imprensa brasileira vem mudando sua forma de narrar nossas histórias?

Em relação à cobertura da imprensa acho que os movimentos de direitos humanos têm pautado muito os veículos e isso é ótimo, só acho que o processo ainda é muito falho. Os profissionais de comunicação ainda dominam muito pouco as pautas e as questões das militâncias, de todas elas, talvez pelo fato de que em geral, são questões sociais, ligadas a uma mudança social muito profunda que a imprensa ainda não consegue enxergar, afinal, é muito mais fácil você se tornar um especialista em finanças e falar sobre projeções, sobre algo “real”, do que abordar mudanças culturais, de comportamento, sociais. Por outro lado as militâncias também não se ajudam, cada vez aumentando as terminologias e as demandas e, diante de tanto ataque, acabam violentos nas respostas e nos diálogos. Existe uma barreira entre as militâncias que tendem à se tornar acadêmicas e distantes, e a comunicação que tem trabalhado para ser cada vez mais palatável.

Quanto a Casa1 provavelmente comece a funcionar?

Se tudo der certo esperamos já estar funcionando em fevereiro.

Lembrando o seguinte, povo maravilhoso. Eu estou colaborando neste projeto como voluntário. Sim! Ofereci um workshop sobre Comunicação, Sexualidade e Gênero como (re)existência no contemporâneo. Você pode adquirir o workshop lá no site do Benfeitoria. NENHUM CENTAVO VAI PARA O MEU BOLSO. Tudo é para a gente tirar esse projeto lindo do sofá da casa do Iran e fazer tudo acontecer.

A proposta do workshop que estou oferecendo é a gente pensar um pouco sobre como trabalhar diferentes plataformas de comunicação e interagir com diferentes ideias para pautar a sociedade sobre nossos temas. Ou seja, como podemos fazer uso tanto das tecnologias digitais quanto da própria cidade, e até integrá-las, para que possamos executar estratégias de lutas por mais cidadania e direitos à nossa população.

Tem mais gente maravilhosa colaborando. Sério, tem muita gente maravilhosa colaborando com cursos, palestras e workshops. O que é incrível! Tem gente falando de questão racial e mídia, tem gente falando sobre urbanismo e questões LGBT, tem gente falando de tarô. Então, fecha com essa ideia e colabore.

Aqui está todos os links para você saber mais coisas sobre o projeto. Beijas.

Segue o link da campanha: https://benfeitoria.com/casa1
E também o nosso Facebook: https://www.facebook.com/casaum
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