Subversão

Deu match entre cinema e literatura com temática LGBT. Vem ver

Satyrikon

Satyrikon – reprodução da internet

Deu match no mundo das artes, entre cinema e literatura com a temática LGBT. E a gente shippa mesmo. E para ficar mais gostosinho ainda, vai rolar do dia 9 até 19 de maio, das 19h30 às 21h30, no Sesc Santana a Oficina de Cinema e Literatura – Diversidade sexual da palavra escrita à imagem cinematográfica com Alexandre Rabelo e Lufe Steffen.

A oficina analisa 16 obras literárias: romances, contos e dramaturgia que abordam a temática LGBT e foram adaptadas para o cinema nos últimos 60 anos. Babadeira, não?

De acordo com a divulgação do evento, o objetivo é trazer à luz narrativas que buscaram a diversidade sexual e afetiva, sempre discutindo as diferenças entre as linguagens e revelando os processos de cada adaptação – refletindo sobre o que foi feito e quais os caminhos para o futuro dessa temática.

Não perde não. As inscrições são gratuitas na Centro de Atendimento do Sesc Santana. Clica aqui para saber mais no evento da oficina no Facebook.

Serviço
Oficina de Cinema e Literatura – Diversidade sexual da palavra escrita à imagem cinematográfica
Sesc Santana, av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana, São Paulo
Com Alexandre Rabelo e Lufe Steffen
De 9 a 19 de Maio
Das 19h30 às 21h30
Gratuíto

Anúncios
Padrão
Subversão

Mário de Andrade e sua homossexualidade

Veja como tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão

Assim que o escritor paulista Mario de Andrade se refere à sua homossexualidade em carta, escrita em 7 de abril de 1928, ao escritor Manuel Bandeira. O documento que faz referências diretas à sua sexualidade só foi liberada nessa quinta-feira, 18, pela Fundação Casa de Rui Barbosa após luta judicial entre o jornalista Marcelo Bortoloti, da revista Época, e a instituição.

O documento estava lacrado há 35 anos nos arquivos da fundação. Na carta, Mário de Andrade fala sobre as pressões que sofria por causa da sua fama de gay, e não desmente os boatos a esse respeito.

“Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar a grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade?”

Mário ainda afirma que “Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui e sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas.”

Por uma questão de: “honra”

A carta só foi aberta por uma determinação da Controladoria-Geral da União, atendendo a pedido, via Lei de Acesso à Informação, do jornalista Marcelo Bortoloti, em fevereiro.

Vale lembrar que a primeira recusa, de várias, da Casa de Rui se deu sob o argumento de segui “o que recomenda a Lei 12.527/11, quando ao respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais”.

Ou seja, para a Fundação que guarda a carta, a homossexualidade é um algo que fere a honra do ser humano.

Em março o caso foi parar na CGU, e então a instituição passou usar o argumento de que os direitos autorais das cartas de Mário estão protegidos até janeiro do próximo ano, já que a morte dele completou 7o anos neste ano.

A CGU entendeu que a vigência dos direitos autorais não poderia impedir a “mera consulta dos documentos” por pesquisadores. Em maio foi determinado a liberação do documento, mas a Casa Rui tentou mais um recurso.

Até que no último dia 9 a CGU manteve a decisão de liberar a carta. E a carta foi liberada no meio dia desta quinta-feira.

Editada no passado

A carta foi originalmente publicada pelo próprio Manuel Bandeira, em 1958, com um “X” substituindo um nome próprio e alguns parágrafos omitidos, sem o aviso de que fora feita uma edição. Os trechos, então revelados,  estão riscados com caneta vermelha e não se sabe por quem.

Leia o trecho da carta:

Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim porque em toda vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialisão absolutamente desprezível duma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo pra minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu há de tê-lo bem catalogado e especificado, há de ter tudo normalizado em si, si é que posso me servir de “normalizar” neste caso. Tanto mais, Manu, que o ridículo dos socializadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruências e contradições em que caem. O caso de Maria não é típico? Me dão todos os vícios que por ignorância ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos e no entanto assim que fiz duma realidade penosa a “Maria”, não teve nenhum que caçoasse falando que aquilo era idealização para desencaminhar os que me acreditavam nem sei o que, mas todos falaram que era fulana de tal.

Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas. Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar, e me deixe ao menos pra você, com quem, apesar das delicadezas da nossa amizade, sou duma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num casos como este onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis.

Eis aí uns pensamentos jogados no papel sem conclusão nem sequencia, faça deles o que quiser.”

Padrão
Subversão

Você gosta de Romero? Olha o absurdo!

Britto

Era virada do ano de 2o13 para 2o14. Estávamos; meu melhor amigo e eu; em um famoso restaurante em Ilhabela sendo recebidos por uma obra de Romero Britto exposta na recepção. A careta flácida e arrogante de alguns que entravam e batiam de frente com uma obra tão “rasa” em um restaurante que servia a “boa” gastronomia da ilha era quase uma atração turística.

Brevemente conversamos sobre o artista pernambucano que ganhou Miami e o mundo com sua arte. Sim, arte – e aprenda a lidar com isso, se você tiver problemas. Eu não gosto, entoou meu amigo.

Romero’s middle-of-the-road. Não sou nenhum consumidor du grand art burguesinha branca paulista e carioca. Embora, por vezes, frequente uma ou outra galeria de São Paulo.

As melhores visitas à arte estão na rua, nas margens. No grafiti; no artista que estica o lençol na Avenida Paulista e expõe seus quadros. Naquele que posta imagens do seu trabalho nas redes sociais e forma seu público sem ter um galerista, um curador, um crítico, um angel, ou uma escola acadêmica por trás. Esse artista é puro.

Romero Britto saiu da margem. Não foi dos berços de ouro dos cariocas ou dos paulistas cheios de metiês do blá blá blá.

Ah! Mas ele ficou rico com as bugigangas dele! Diz o branquelo do Jardins. E respondo: E que bom! E tem que ficar mesmo.

Dá para perceber o real problema daqueles que são o germe do preconceito contra Romero quando ouvimos seus argumentos. Para a Ilustrada, da Folha de S. Paulo, desse domingo, 3,  o diretor do Instituto Volpi Pedro Mastrobueno solta a frágil pérola:

            “A sua obra [de Romero] é ‘fast food’ das artes plásticas. A massa consome com mais facilidade gatinhos multicoloridos, assim como há mais consumidores de cachaça, comparado com quem aprecia um Romanée Conti”.

Pois é; do mesmo modo que o tal do presidente do Instituto Volpi demonstra uma grave crise de vira-lata; ainda vomita preconceito com nossa brasileiríssima branquinha.

Assistindo o canal Arte 1, uma reportagem falava sobre o ótimo desempenho da SP-Arte em um momento de crise econômica; quando percebo que a esmagadora quantidade de fontes mostrada pela reportagem são de artistas branquinhos, cheios de seus  privilégios de viver no berceau de l’art desde quando eram espermatozoides.

E por uma causalidade ‘sem pretensões’ uma esmagadora maioria são paulistas e cariocas que já tiveram exposições em Berlin, Paris, Madri, Barcelona, Nova York, Londres… um ou outro excêntrico encheu as papilas gustativas de saliva para dizer sobre suas inspirações em Tókio.

Tem um pessoalzinho gourmet; de relações que vive no ‘Leblon Paulista’ e ‘Jardim Europa Carioca’ que adora dizer “é pra massa”; para deslegitimar trabalhar que não nasceram do seus clubinhos de luluzinhas cheias da grana para estudar na Europa.

Mas, dear, quem é a massa? Já parou para pensar o quanto você consome de produtos enlatados sem perceber que está consumindo justamente por estar dentro da massa? Ou você acha que sua intensa e profunda ode aos europeus é algo intimamente seu?

Não só nas artes plásticas

As tentativas; por um clubinho burguês classicista; de colocar à margem artistas também invade o campo da Literatura. Vejam só um exemplo: Paulo Coelho.

Não sou eu que vou dizer que ele é o nosso Nobel literário, mas não se pode negar que ele é lido no mundo inteiro, inteiro mesmo: para além das medíocres fronteiras do Oeste europeu – e inclusive sendo leitura obrigatória em muitos cursos honrados de Letras pelas terras do Tio Sam e da Realeza.

Na última semana, a coitada da escritora Ruth Rocha, aos seus 5o aninhos de carreira solta a pérola infame: “Harry Potter não e literatura”. Uma pena.

Esse lance de é ou não; tá dentou ou tá fora; faz ou não faz… não passa de um lero-lero de clubinho da luluzinha que precisa pisar nos alheiros para legitimar seu próprio e essencial trabalho de manter a conta bancária bem gorda com o que chama de A-R-T-E.

Beijos coloridos para vocês; com gostinho de cachaça.

Padrão
Leio, Subversão

Por qual motivo você deve ler Libélula, de Marcos Lacerda?

Imagine um romance que explora a história de amor entre dois seminaristas. Bapho! Pois é, esta aventura é narrada com talento pelo psicanalista e escritor Marco Lacerda, em seu novo romance Libélula. Não vou me ater a conter e resenhar a narrativa (que é ótima), ou o enredo (que também é ótimo) do autor. O livro foi lançado em julho deste ano, já li e gostaria de debater com você três motivos pelos quais deve ser uma leitura obrigatória; seja você hétero, gay, lésbica, bissexual, transexual, pansexual ou de qualquer outro gênero sexual não citado por aqui ou catalogado pela ciência, ainda.

1 – Sexualidade e religião

Assim como cada um tem a sua preferência religiosa, seja ela cristã ou não, também tem a sua sexualidade. E estes dois temas podem, na vida real e da ficção, caminhar juntar ou entrar em conflito. A forma com que Libélula aborda esta relação é com mastreia, e leva o leito a diversas reflexões em diversos níveis de profundidade.

2 – Estilo

Provavelmente um dos aspectos que mais marcam o texto de Marco. Isso porque ele não confunde erotismo com pornografia rasa. Não rola “pau e cu” no texto de Libélula. Ou seja,  a obra contribui no sentido de não estereotipar a literatura com temática gay como algo voltado ao sexo, e sim à sexualidade. Duas questões bastante diferentes. É até um pouco chato ler um romance romântico raso e cheio de pieguices amorosas e sexuais.

3 – Do mundo real para a ficção

A máxima: “a arte imita a realidade” encaixa como uma luva no livro de Marcos Lacerda. Provavelmente o gênero literário de não caia na autoficção, já que até onde é sabido, Lacerda não foi um seminarista. O que há no livro é o aspecto de que ele usa sua experiência como psicanalista de padres e outros religiosos para construir o romance de ficção. Ou seja, é um tema atual e que ainda exista na realidade.

O livro foi lançado em São Paulo, na Livraria da Vila. Na ocasião houve uma leitura feita pelo ator Leonardo Miggiorin.

Libélula
de Marcos Lacerda
2014
R$39,00
252 páginas

Padrão
Contos, Crônicas & Outros textos

Duas xícaras de café preto adoçado com mascavo

Amanhece. O dia que começa ilumina o quarto do apartamento 102 do 11º andar. Ele acorda primeiro. Por um instante se mexe, mas percebe que a amada ainda está em seus braços e em sono quase profundo. Olha para ela. Sorri.

Cuidadosamente se distancia do corpo da mulher. Vagarosamente sai da cama e caminha em direção a cozinha.

Duas xícaras.

Ele fica feliz e diz baixinho, duas xícaras.

Não há muito tempo, ele acordava e caminhava direto para a cozinha. Uma xícara. Duas colheres de café instantâneo. Uma colher de açúcar mascavo. E água quente. Mexia e tomava seu café preto ali mesmo. Em pé. Apoiando o corpo no canto da pia. Seu solitário ritual de anos. Mas agora não.

Duas xícaras. Repete.

Duas xícaras. Quatro colheres de café instantâneo. Duas colheres de açúcar mascavo. E água quente.

Um novo ritual que o deixa feliz. Cheio.

Ele a espia pela brecha da cortina que separa o quarto da cozinha. Ela começa a se mexer indicando que está despertando. Ela acorda como o sol amanhece. Lindamente. Ainda está nua. Vira para o outro lado. Abre os olhos e observa a brisa entrando pela janela.

Ele observa suas costas. Ela coloca os pés no chão. É possível ver seu cóccix. Perfeita. Ela olha o lado dele na cama que está vazio. Espreguiça. Boceja. Ele caminha em direção ao quarto. Aproxima-se por trás. Beija sua nuca.

Bom dia. Os dois falam juntos e sorriem.

No abraço, ele oferece uma xícara de café. Na outra mão, é a dele. Eles dão o primeiro gole entrelaçando seus olhares. Ela sorri mais uma vez.

Agora, um de frente para o outro, ele vê seus seios. Sua pele, suas pintinhas, marquinhas de sol. Suas unhas pintadas de roxo se destacam ao segurar a xícara branca de café.

Ela termina. Ele também. Vou tomar um banho. Ela diz, enquanto entrega a xícara e se levanta.

De volta para a cozinha. Ele coloca as peças sujas e vazias.

Duas xícaras.

Padrão
Contos, Crônicas & Outros textos

Melhor do que a ilusão

Sentado, ele ouve música em seu iPod enquanto espera o Metro chegar em seu destino. Ela o observa discretamente por cima do livro que na verdade não lê.

Ele percebe.

Ela continua fazendo de conta que está lendo.

Ele faz de conta que não percebe.

Ela não pisca. E fixamente olha para ele. Faz carão de que gostou do cara.

Ele sorri discretamente.

Ela retribui com a mesma moeda.

O vagão dele chega.

Ele levanta e fica cara a cara com ela. Tira o fone. Pega no cabelo dela e diz:adorei a cor do seu cabelo.

Ela só dá uma gargalhada. Ele também, mas sai naquela estação.

Ela senta em seu lugar.

O metrô parte, assim como ele partiu.

Ela apenas balança a cabeça. Sorri e, desta vez, realmente começa a ler seu livro.

Padrão