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São Paulo agora tem cineclube com temática LGBT e de graça

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Foto de Bruno Oliveira

De repente lá estávamos pendurando uma cortina branca sobre as prateleiras da biblioteca da Casa 1, no centro de São Paulo, arrumando o projetor, colocando o DVD de São Paulo Hi-Fi, de Lufe Steffen, para rodar e apagando as luzes. Raul Perez, Camila Valentin e eu não escondíamos certo nervosismo e preocupação.

– A caixa de som vai ficar aqui atrás mesmo?

– E a tomada, a gente precisa de adaptador, onde tem adaptador?

– Eita, o computador não tem plugin para DVD…

Bruno Oliveira, coordenador de programação da Casa nos acudia. Ouço a voz de Eduardo Paes Aguiar chegando na calçada: Cadê a Nelsa? Nelsa está por aí? Amigos próximos costumam me chamar assim, Eduardo é um amante e entusiasta do cineclubismo. Tanto que de repente ele sacou do carro uma bolsa com tudo que precisávamos, um salvador da pátria cineclubista. Obrigado!

Raul chama os expectadores que aguardavam do lado de fora com dezesseis minutos de atraso, tudo bem, o importante é que finalmente um sonho estava a realizar. É Sexta-feira Santa (14), 18h16.

– Geralmente se apresenta o filme antes – alerta Eduardo, que de tão nervoso não a fiz. O play já havia dado.

São Paulo Hi-Fi começa a ser exibo.

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Foto de Bruno Oliveira

O filme não poderia ter sido mais oportuno para a ocasião. Imagine! Começar pela a história da noite LGBT paulistana, e ali no centro. Um tempo que quem fazia, nem sabia que se fazia mais do que entretenimento, era resistência. Política.

Do fundo da sala eu me emocionava por dentro, deixei até uma ou duas lágrimas caírem com pouco de recalque, não queria ser tão piegas.

Um mês atrás eu postava em meu perfil no Facebook sobre a vontade de fazer um cineclube com a temática LGBT, uma enxurrada de pessoas veio atrás. Uma semana depois estávamos Mariana Lemos, Raul, Gabriela Souza, Henrique Rodrigues Marques, Luiz Henrique LulaMarcel Schiele e a Camila reunidos na sala de exposições da Casa 1 organizando tudo sem saber muito por onde começar. E foi mágico!

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Foto de Bruno Oliveira

É tocante imaginar por quais lugares a vontade pode nos levar, São Paulo Hi-Fi mostra justamente isso, a vontade que aquelas LGBT tinham de (re)existir, da experiência da existência. Fez muito sentido para mim um poema que li de uma poeta escrava já morta: “viver é menos que existir”. Ali, naquela nossa primeira exibição estávamos existindo.

O filme começa a chegar ao fim, saio da biblioteca em busca de Lufe, e lá está ele acompanhando o finzinho. A sala já iluminada, a cadeira para o diretor posta no meio da tela improvisada, e o debate começa.

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Foto de Bruno Oliveira

Durante o papo o choque de gerações que se complementam. Avançamos na densidade, nas tecnologias, nos modos de nos organizar, mas algo fica claro no que continua o mesmo: a vontade de existir.

Depois de acabado tudo só fica agora a vontade das próximas sessões. Aguardem, inclusive para nossas reuniões de organização. Queremos um cineclube mais plural possível.

Benvindo/a ao CineCores.

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Chá da tarde

Que tal encontrar azamigas pra dar pinta em um sábado de Outono?

encontraodafeminadxs

No próximo sábado, 16, as cidades de Fortaleza, Recife, Brasília, Belo Horizonte, Sorocaba, Rio de JaneiroSalvador e em São Paulo vão sediar o Encontrão Afeminado. Na capital paulista será no conhecido vão do MASP, Avenida Paulista, às 16h.

As atividades programadas e divulgadas na página do evento são oficina de stencil, com Charlotte D’fall; roda de conversa, com RUA e Revolta da Lâmpada; e passarela Afemina, com Duda Dello Russo e Mirella Rocherfort.

Vale lembrar que no dia 17 é celebrado o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Um ótimo momento para reflexão não só da sociedade, mas da própria militância.

Então, meninxs, preparam seu saltinho e batom e vamos para a rua por nossa cara no Sol.

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Não é questão. É respeito. É direito

Quando se acredita que a luta pelos Direitos Humanos e Minorias está perdida, no Brasil, uma luz se acende; ou melhor, uma porta se abre; e uma notícia desperta novamente o clarão na obscuridade da cidadania brasileira. Na última quinta-feira, 12 de março, o Diário Oficial da União decretou uma resolução que garante o uso do banheiro a partir da identidade de gênero do(a) estudante. Além de também obrigar o uso do nome social de acordo com sua identidade.

Reprodução / tirinha da Laerte

Reprodução / Tirinha da Laerte

De acordo com o jornal O Globo, o objetivo da resolução é garantir condições de acesso a travestis e transexuais “e todas aquelas que tenham sua identidade de gênero não reconhecida em diferentes espaços sociais” nas instituições de ensino. A proposta permite a aluno (ou aluno) usar o banheiro da escola de acordo com sua identidade de gênero.

Com a resolução, também foi definido que o nome social que será utilizado nos procedimentos de seleção, inscrição, matrícula e outras formas de avaliação. E deverá ser garantido pelas instituições o uso do nome social nos uniformes escolares, quando for necessário.

Caso de polícia

Outra vitória à população de gays, lésbicas, bissexuais e transgênero é de que o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos LGBTT estabeleceu a inclusão dos itens “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência emitidos pelas autoridades de todo o Brasil.

Estas resoluções não são meras questões de um movimento, e sim a conquista do respeito e de pequena parte do direito à cidadania da população LGBT brasileira. 

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Existe vida LGBT na periferia

Para quem acha que a vida LGBT acontece penas nos centros das grandes cidades; por exemplo, em São Paulo entre a República, Bela Vista e Vila Madalena; o Festival Trans mostra que não. Durante todo o mês de março, o evento debate o que é ser LGBT na periferia. E a programação é boa.

O Festival Periferia Trans começou dia 6 de março, mas ainda há uma ampla agenda marcada até dia 28. A programação, toda gratuita, apresenta espetáculos teatrais e de dança, além de oficinas e documentário, no Grajaú.

Na próxima quinta-feira, no Galpão Cultural Humbalada, às 20h, está marcado o monólogo “Como Sempre Somos Motivos de Chacota”, que depoimento de uma travesti sobre episódios peculiares em uma experiência de vida noturna. Ela volta no tempo e acessa parte de suas emoções e lembranças.

O espetáculo de dança “Jandira”, se apresenta na sexta-feira, 12. Feito por Kleber Lourenço, traz como fonte de inspiração a poesia modernista do escritor mineiro Murilo Mendes, para falar de construlções arquetípicas do universo feminino.

No próximo sábado é a vez da exibição do documentário “De Gravata E Unha Vermelha”, de Miriam Chnaiderman, com Dudu Bertholini, Laerte Coutinho, Rogéria, Ney Matogrosso, João W. Nery, entre outros. O doc. é inspirado na cartunista Laerte e propõe uma reflexão sobre a construção do próprio corpo e do gênero de levantar questões da luta LGBT.

Para saber da programação completa do Festival Trans, acesse o site oficial.

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Por um movimento plural

Escritora, atriz, artista e ativista queer norte-americana Kate Bornstein, 66 anos, sempre esteve à frente do seu tempo – e ainda está. Autora do respeitado livro Gender Outlaw: On Men, Women, and the Rest of Us (em tradução livre – Gênero Fora da Lei: Sobre Homens, Mulheres e o Resto de Nós), publicado em 1994, Bornstein ainda tem muito o quê dizer e ensinar ao movimento LGBT e a sociedade tradicional do ocidente.

Ao jornal New York Times, ela diz que a categorização dos indivíduos como macho e fêmea pode se tornar completamente obsoleta em pouco tempo, e “este é um momento crucial na história para transexuais na desconstrução do rígido conceito de dois sexos sustentado por pessoas que não se conformam na existência de tal pluralidade sexual”, o que incluí o próprio movimento de gays e lésbicas e de feministas, além da população fundamentalista judaico-cristã.

Ela, que é mulher transexual e fez a cirurgia de transgenitalização nos anos 1980, afirma que existem avanços no pensamento da sociedade. “Diferente dos seus pais ou mesmo dos seus irmãos mais velhos, a maioria dos estudantes universitários lidam bem com a ideia de alguém não se definir como homem ou mulher” dentro de um conceito tradicional de sexualidade.

É evidente que, atualmente, cada grupo de gênero e sexo tem suas demandas de políticas públicas. Como cada grupo também tem seus privilégios. E quando a classificação torna parte essencial para a construção de uma identidade o movimento acaba caindo nas mesmas armadilhas que a sociedade calcada, historicamente, nos fundamentos tradicionais cai; ou seja, na dominação de determinado setor dentro dos diferentes movimentos.

No nosso caso do movimento LGBT, Bornstein aponta sua crítica ao intenso enfoque dado ao casamento gay e lésbico. “enquanto muitos, dentro do grupo, especialmente as pessoas transexuais, sofrem discriminação e violência”.

“As pessoas transgênero e transexuais vivem à margem da sociedade, e muitas vezes no ostracismo até mesmo dentro de comunidades de gays e lésbicas”, denúncia a militante.

Sexualidade

Um estudo realizado por cientistas da Universidade de Medicina de Viena mostra que a identidade de gênero está profundamente enraizada no cérebro, e não necessariamente ligada ao próprio sexo biológico.

“Enquanto o sexo biológico, geralmente, se manifesta na aparência física a identidade de gênero do indivíduo não é imediatamente perceptível, mas principalmente estabelecida na psique de um ser humano”, diz o estudo publicado no início de 2015.

Alguns países já pensam de forma mais plural. Na Austrália, Nepal e Tailândia foram tomadas medidas para reconhecer um terceiro gênero.

No Brasil

A Teoria Queer ainda engatinha dentro das universidades brasileiras e também enfrenta diversas barreiras dentro da população LGBT. É possível observar, que por vezes, a não aceitação do pensamento queer se dá quando ele começa a quebrar protagonismos patológicos dentro da própria militância, o que o movimento queer tem como um dos seus objetivos como consequência. Ou seja, dar voz a quem, por questão de vivencia e racionalidade tem fundamento para falar.

O aparente fenômeno “puritano”, de acordo com Kate, que atrasa mudanças no modo de pensar a sexualidade humana, se repete no Brasil. Com uma dura frente de luta religiosa fundamentalista; por vezes machista, xenófoba, lgbtfóbica que furta a cidadania de diversos membros de diferentes grupos de minorias.

*Com informações do NYTimes

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Cachola

Dá para ser viado todo dia?

DEPOIS de quatro anos seguidos acompanhando a Parada do Orgulho LGBT de SP pelos bastidores, ou seja, cobrindo o evento para diversos veículos de comunicação brasileiros e internacionais, tive a oportunidade de ir como expectador. Entretanto, meu olhar de repórter não se separou do meu olhar de participante. O lado bom é que, além de ter ido acompanhado do meu namorado, fui sem a correria que jornalistas precisam enfrentar durante toda a festa.

Festa. Vamos começar por esta palavra que pode dizer muito sobre as Paradas mundo a fora, e a de São Paulo não foge à regra. Considero a Parada uma manifestação de celebração.

É preciso entender que o dia do Orgulho LGBT, que é originalmente comemorado dia 28 de junho e este ano foi antecipado por conta dos eventos do Mundial de Futebol, é um dia que toda a população tem a chance de sair do seu homofóbico quotidiano e se expressar de forma livre e plural.

Muitos lgbt parecem ter esquecido o quanto é difícil dizer de forma individual a intensa frase ainda condenatória em nosso País: “eu sou gay”. O dia da Parada é um sopro na alma para estas pessoas manifestarem de forma coletiva e se sentirem, por um breve momento do ano, parte de um todo que ainda vive pelos guetos das cidades espalhadas pelo território nacional.

A partir deste momento é possível chamar atenção para o questionamento que este texto propõe: dá para ser viado todo dia?

Para alguns sim. Mas ainda é uma parcela muito pequena da população lgbt brasileira. A outra parte só pode ser bicha, trans, gay, sapatão, viado, andrógeno, crossdresser, trava, bissexual, ou qualquer outra denominação que queria se dar o direito de expor o que é de verdade, no dia da festa.

Do ponto de vista político e de gestão, ainda a Parada tem muito que evoluir. É preciso que os envolvidos no evento sejam mais transparentes.

É necessário entender que a militância ligada à sexualidade independe de partido político ou de ideologia.

Ser gay, lésbica, bissexual, trans ou qualquer outra identidade de gênero em grande parte do País faz com que, querendo ou não, o indivíduo seja militante. Aí que entra a importância da Parada, sendo ela bem ou má administrada, a militância individual sempre irá se sobressair durante a passeata sobre a Avenida.

Com todo o direito, outros lgbt podem até apontar o dedo para quem pisar sobre a Avenida Paulista neste dia e discursar sobre a vulgaridade, a promiscuidade, a perversão que alguns expõem durante a Parada. Mas qual o problema? Eu não vejo nenhum e mesmo tendo direito, não aponto o dedo para nenhum dos lados, apenas tento enxergar o quanto cada lado pode contribuir para que ambos tenham o direito de ser cidadão por completo.

Lembro da primeira Parada que participei. Era 2010. Enquanto eu subia as escadas da Estação Metrô Brigadeiro, por volta das 10h30 da manhã, o som dos trios elétricos ia aumentado de intensidade e as batidas do meu coração seguiam junto.

O ainda projeto de jornalista sorria bobo para todos e mirava a lente da câmera para todos os lados até se emocionar e as lágrimas de felicidade, por descobrir que não está tão sozinho, começarem a cair.

Naquela época não importava as ideologias políticas, os militantes profissionais ou até mesmo aqueles que não ligavam para qualquer opinião.

Pela primeira vez eu não me senti sozinho. Nos anos seguintes, e ainda hoje, continuo com o mesmo sentimento.

Nem tudo é perfeito

Eu sei, nem tudo é perfeito. Como já disse, há muito que melhorar dentro da militância, da política e também da população de modo geral.

É importante que o espírito individual e a vontade íntima de querer um mundo melhor permaneçam dentro de cada um que nos outros 364 dias do ano voltem aos seus armários.

Sou otimista demais? Pode até dizer que sim, mas provavelmente é este mesmo otimismo que faz com que centenas de milhares de pessoas com o mesmo intuito saem à Avenida para dizer que existem e descobrirem que não estão sozinhas.

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